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A CORRIDA MAIS IMPORTANTE DO ANO II 12.02.07


Veja a conclusão da narrativa de George Monkhouse sobre a corrida em Nurburgring iniciada dia 9/2/2007.

Abraços

Carlos Chiesa





Seaman agora tinha passado Delius e aberto seu caminho para o 4o lugar, 52 segundos atrás de Lang, que tinha passado Brauchitsch. Ao final da quinta volta, a Mercedes ocupava os quatro primeiros lugares,
Richard Seaman com Mercedes, em Nurbur 37
e Rosemeyer, sua única ameaça, estava agora confortavelmente no 10o, 3m36 atrás do líder Caracciola. A Auto-Union teve mais problemas, quando Stuck, cujo motor não tinha funcionado perfeitamente em nenhum momento, veio para os pits e abandonou. Os cronometristas agora estavam interessados em saber como Seaman estava acelerando na saída da Sudkehre, com Nuvolari vindo para cima dele, com uma diferença de 17 segundos entre ambos. Delius, sendo agora o único piloto da Auto-Union competitivo, recebeu a ordem dos pits para acelerar tudo que pudesse.

Ao final da 6a volta, Caracciola, Brauchitsch e Lang passaram e os cronômetros foram acionados para verificar se Seaman estava alcançando Lang, o que ele tinha começado a fazer na razão de 3 segundos por volta. Nesse ritmo ele deveria aparecer 46 segundos atrás de Lang. Um minuto se passou e nem Seaman nem Delius apareceram, mas Kautz, Hasse e Nuvolari sim. O suspense foi terrível. Alguma coisa no ar prenunciava desastre.



Repentinamente o alto-falante anunciou que tanto Seaman quanto Delius tinham batido, mas nenhum estava seriamente ferido. Isto, naturalmente, deixava Nuvolari em 6o e Rosemeyer em 8o.

Ao final da sétima volta, tanto Caracciola quanto Brauchitsch vieram para os pits para trocar pneus e abastecer, a parada do primeiro durando incríveis 36 segundos. Essa parada deixou Lang na primeira posição com Caracciola 8 segundos atrás, seguido por Brauchitsch. Kautz não aparecia. Ele aparentemente ficou tão assustado com o acidente entre Seaman e Delius, uma vez que estava apenas alguns metros atrás, que saiu da pista na volta seguinte. Felizmente foi capaz de continuar, mas seu erro o fez cair para 7o. Uma grande quantidade de sujeira infelizmente veio dar justo em seu rosto, em plena reta, o que o fez perder momentaneamente o controle do carro. Esse incidente permitiu que Nuvolari, que tinha ultrapassado Hasse, assumisse o 4o lugar, 30 segundos atrás de Brauchitsch.

Na oitava volta, Rosemeyer, que vinha guiando como um louco saiu da pista em Wehrseifen, na seção cheia de curvas em descida que leva à entrada de Adenau. Ele se atrasou por algum tempo, enquanto espectadores empurravam o carro e acabou passando pelos pits em 8o, com pelo menos meio fardo de feno a reboque do carro.

Lang parou para trocar pneus na nona volta, momentaneamente deixando Nuvolari na 3a posição, e Rosemeyer, que continuava acelerando tudo que podia, tinha passado Farina, Kautz e Hasse chegando ao 5o lugar. Na volta seguinte ele teve que parar para trocar pneus e reabastecer e foi ultrapassado por Hasse.

Rosemeyer, em recuperação sensacional, terminou a prova em 3º lugar
Ao final da 13a. volta Rosemeyer tinha recuperado o 5o lugar, 30 segundos atrás de Nuvolari. Ele seguiu reduzindo a distância para 21 segundos e depois para 7 segundos nas duas voltas seguintes. Cada vez que Nuvolari aparecia, a platéia ficava em pé na excitação de aplaudir Rosemeyer em sua perseguição e o inevitável aconteceu na 16a. volta, com Rosemeyer aparecendo em 4o, 8 segundos à de Nuvolari. Tazio estava em grande forma e quando passava diante dos pits, batia na lateral do carro como se fosse um jóquei apressando seu cavalo.

Caracciola parou novamente para trocar pneus ao final da 14a. volta, deixando Brauchitsch na liderança, que por sua vez parou na volta seguinte, quando Caracciola retomou a ponta e Lang passou para o 2o lugar. O pit stop de Brauchitsch para troca de pneus e reabastecimento foi feito em 30 segundos, o melhor tempo do dia.

A 17a. volta viu Caracciola aparecer 38 segundos à frente de Brauchitsch, mas Lang tinha desaparecido. Rosemeyer agora tinha 41 segundos o separando de Brauchitsch, Nuvolari ocupando o 4o e Farina o 5o lugar. Repentinamente Lang aparece em 6o, com um pneu completamente vazio, com o qual tinha percorrido a maior parte do circuito. Essa volta o fez perder cerca de 14 segundos e o motor não estava soando muito saudável, uma vez que as velas tinham ficado encharcadas, funcionando em tão baixa velocidade. Além dos pneus as velas também tinham que ser trocadas, e assim Lang foi parar no 8o lugar.

Rosemeyer parou para trocar pneus e reabastecer pela última vez, deixando Nuvolari em 3o , 13 segundos à frente. O pobre Tazio também teve que parar na volta seguinte, perdendo 43 segundos, o que lhe tirou todas as chances de recuperar o 3o posto. Houve então uma grande excitação ao final da volta 19 quando Caracciola parou para trocar um pneu traseiro, no tempo recorde de 23 segundos, permitindo que ele saísse novamente sem perder a liderança para Brauchitsch, com a platéia uivando. Rosemeyer ainda estava se comportando como um meteoro, e na volta 19 ele estava 1m20 atrás de Brauchitsch, distância que ele reduziu sucessivamente para 1m08, 47 segundos e, finalmente, na última volta, para 15 segundos.

Caracciola, o grande vencedor em Nurbur 37
A Mercedes tinha assim conquistado uma dupla vitória na principal corrida do ano, com Rudi Caracciola sendo o 1o com média de 133 km/h, com Manfred von Brauchitsch em 2o, 46 segundos atrás, Rosemeyer em 3o, Nuvolari em 4o, Hasse em 5o, Kautz em 6o, Lang em 7o, Ruesch, que tinha guiado muito consistentemente, em 8o, Kenneth Evans, três voltas atrás, em 9o, e Marinoni, quatro voltas atrás, em 10º, “last but not least”.

A corrida foi fora de série por três razões. Em primeiro porque foi uma corrida maravilhosamente avaliada por Caracciola; em segundo pela confiabilidade dos carros Mercedes; e terceiro pela tenacidade e coragem de Rosemeyer. À parte as voltas em que parou nos boxes, sua volta mais lenta foi 10m03, e muitas delas foram cumpridas em menos de 10 minutos.





O Dr. Kissel, principal dirigente da Daimler-Benz, tinha assistido ao triunfo da Mercedes das arquibancadas, e cruzou a pista até os boxes para cumprimentar Rudi por sua maravilhosa corrida. Eu fiquei muito impressionado com a maneira pela qual ele cumprimentou pessoalmente todos os mecânicos da Mercedes por sua participação na vitória. Caracciola e Brauchitsch tiveram uma honra extra na segunda-feira, quando tiveram uma audiência privada com Hitler, o qual tinha enviado um avião especial a Colônia para buscá-los!

Assim que a corrida acabou a imprensa tratou de se aboletar na torre de conometragem para acompanhar a entrega dos prêmios. Após outro discurso do Korps-Fuhrer Huhnlei, o prêmio especial que era uma grande cabeça de bronze da Deusa da Velocidade, presenteado por Hitler, foi entregue a Caracciola. A Deusa mostrou-se tão pesada que Rudi teve que colocá-la de volta na mesa muito rapidamente. Huhnlein então continuou seu discurso, durante o qual Rosemeyer fez uma de suas proezas de comediante, colocando seu cigarro entre os lábios da Deusa sem que o Korps-Fuhrer percebesse. Felizmente ele o tirou antes que Huhnlein se voltasse para entregar a Nuvolari o prêmio de melhor performance para um piloto estrangeiro. A platéia presenteou Tazio com uma grande aclamação, o que obviamente comoveu o italiano. Nuvolari é muito popular na Alemanha porque ele sempre tenta, esteja em primeiro ou último.





Terminada a entrega de prêmios, fui caminhando pela reta até onde o acidente entre Seaman e Delius tinha ocorrido. A reta no Nurburg Ring tem cerca de 2,4 km, com duas pontes ao longo de sua extensão. De acordo com o relato de Seaman, aparentemente quando este estava se aproximando da segunda ponte, onde os carros atingem mais de 270 km/h, ele viu o Auto-Union de Delius ao seu lado, indo em direção à cerca do lado esquerdo. A precisão do relato de Seaman foi confirmada por uma testemunha e pelas marcas de pneus na pista.

Os restos do carro de von Delius
Na tentativa de evitar a cerca esquerda, Delius virou para a direita, ficando atravessado na frente da Mercedes de Seaman e indo bater na cerca do lado direito. O Auto-Union então girou sobre si mesmo e cruzou novamente a pista, indo pular a parte de trás da cerca do lado esquerdo. Isso demoliu vários metros de postes de madeira e, com tanta madeira no meio da confusão, tocou umas quatro ou cinco vezes no chão até finalmente parar no outro lado da estrada principal de Koblenz, a aproximadamente 400 metros do lugar onde perdeu o controle pela primeira vez. Durante todos esses giros Delius já tinha sido lançado para fora do carro.

Entrementes, Seaman tinha pisado no freio com toda a força de que dispunha, para evitar atingir Delius e levou seu Mercedes ao longo da cerca do lado direito até que a roda dianteira direita atingiu um poste de ferro, o que fez o carro girar repentinamente, atirando Seaman de cara na pista. O carro ficou virado na direção contrária, diagonalmente atravessado no lado direito da faixa de asfalto, no momento em que Kautz e Nuvolari apareciam como relâmpagos. Seaman fez um corte profundo no rosto, quebrou o nariz e o polegar esquerdo, mas conseguiu se levantar e empurrar o carro para fora da pista.

Os pilotos foram levados de ambulância para o hospital de Adenau. Até esse momento Delius não parecia tão seriamente feriado, pois foi gritando o tempo todo com o motorista para não ir tão depressa.

Quando eu e Neubauer visitamos Seaman no hospital lá pelas 5 da tarde, o encontramos coberto de bandagens e com aspecto de quem sofrera um nocaute, embora, como ele mesmo dissesse, feliz por estar vivo. Ele estava sentado na cama e pareceu bem alegre na hora do jantar, tanto que jantou muitíssimo bem.

Tendo nos certificado que estava tudo bem com Seaman, retornamos a Eifelerhof, onde o Diretor Sailer estava oferecendo um jantar para celebrar a vitória da Mercedes. Naturalmente, o acidente entre Seaman e Delius criou uma nuvem sobre essa comemoração, mas todos tiveram uma noite maravilhosa, pelo menos a julgar pela quantidade de garrafas vazias de vinho do Reno. Mr. Wessels fez um discurso extremamente bem-humorado, durante o qual Caracciola passou o tempo todo sentando ou se levantando, de acordo com o que Mr. Wessels falava. Uma noite memorável.

Na manhã seguinte, embora alguns de nós sentíssemos que a nuca tinha sido atingida por um martelo, fomos ao hospital visitar Seaman e fomos saudados com a terrível notícia de que o pobre Delius havia morrido durante a noite. Comentou-se que, além de uma perna e várias costelas quebradas e ferimentos na face, teve a espinha partida em dois lugares, vindo a falecer de hemorragia cerebral.

A tocada de Delius nunca mais tinha sido a mesma desde seu acidente em Bergwerk, quando estava treinando para Eifelrennen, quando um pássaro voou diretamente para sua face. Embora não tenha ficado muito ferido, a batida foi extremamente forte. Essa batida parece ter mexido com seus nervos, porque após a Vanderbilt Cup Race, disse a todos que iria abandonar as corridas de automóvel.

A tragédia é que ele não o fez. Com a morte de Delius o mundo das corridas de automóvel perdia seu componente mais charmoso e um verdadeiro amigo. Naturalmente nós não dissemos nada a Seaman a respeito da morte de Delius. Embora o piloto inglês parecesse estar no melhor dos espíritos, tinha um aspecto assustador, com seus enormes olhos negros, lábios bem inchados e um pedaço de metal atado ao polegar de forma a mantê-lo ereto. Ele ainda conservava o apetite a despeito do fato de a “abertura para alimentação” estar tão reduzida!





A partir da esquerda, Delius, Rosemeyer e Farina
Eu fiquei em Adenau até a 5a-feira com Seaman, quando viajei para Stuttgart para visitar a fábrica da Mercedes e fazer os arranjos necessários para o resto da viagem.

Neubauer já estava em Freiburg e eu procurei por seu assistente, Wychodil, um homenzinho incrivelmente eficiente que, além de alemão, falava fluentemente inglês, francês e italiano, embora nunca tivesse visitado qualquer desses países.

No sábado eu parti para Freiburg e fiz uma maravilhosa viagem através da Floresta Negra. Chegando lá encontrei o hotel de Huhnlein guardado por um grande número de Kraft-fahrt-korps, os quais, independente de andarem de motocicletas, usavam o mais espantoso tipo de capacete, que parecia uma chapéu no formato de uma chaleira embalada num colete salva-vidas.

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