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Uma das corridas mais tradicionais dos tempos heróicos do automobilismo, tendo sido disputada pela primeira vez 1904, estava de volta: A Copa Vanderbilt.
Acompanhe o relato de George Monkhouse sobre a segunda edição da nova fase da Copa.
Abraços
Carlos Chiesa
Copa Vanderbilt, 5 DE JULHO DE 1937
A Copa Vanderbilt, revivida em 1936, quando Tazio Nuvolari venceu com um Alfa-Romeo, estava prevista para ser corrida novamente este ano em 3 de julho no artificial Roosevelt Speedway, em Long Island. Tinham dito que o circuito original fora muito melhorado e velocidades mais altas eram esperadas.
A Mercedes levou a sério esta corrida e decidiu enviar seus pilotos Rudi Caracciola e Dick Seaman, além de Neubauer e Uhlenhaut. Eles deixaram Bremerhaven no SS Bremen em 22 de junho, sendo que Caracciola e sua esposa, recém-casados, se juntaram ao navio em Cherbourg. Ela não era outra senão a charmosa Madame Hoffman, que por muitos anos tinha atuado como cronometrista da equipe oficial da Bugatti e conhecia as corridas de automóvel de A a Z.
A principal atração desse navio parecia ser a comida. Neubauer naturalmente aproveitou ao máximo, e geralmente começava o dia com um par de belos salmões ingleses no café da manhã. Isso não era nada comparado com Uhlenhaut, que persistentemente percorria o menu em cada refeição, apenas para ganhar energia suficiente para uma boa hora de exercícios na academia, na máquina de remar. Exercícios menos energéticos eram o ping-pong e uma espécie de mini-bilhar, com as exclamações proferidas por Neubauer quando errava sendo a grande atração.
Após um cruzeiro sem novidades, eles foram recebidos em New York por uma bateria de fotógrafos de imprensa bem ousados. Após se dirigirem ao circuito, em Long Island, em um enorme Cadillac de 16 cilindros, os pilotos partiram para um treino a sério. Rex Mays, o bem conhecido californiano piloto de dirt-track já tinha gasto algum tempo dando voltas no circuito com seu Alfa-Romeo de 3,8 litros, que Farina tinha guiado no ano anterior. Os mecânicos americanos tinham feito um belo trabalho no carro, equipando-o com uma grande compressor centrífugo, com espantoso resultado, uma vez que esse carro de 8 cilindros era mais rápido que o último modelo de 12 cilindros guiado por Nuvolari e Farina; isto preocupou muito a Marinoni, o mecânico-chefe, mesmo porque o circuito era indubitavelmente mais rápido do que o ano anterior.
Caracciola fez a volta mais rápida nos treinos, virando em 136 km/h, e assim ganhou a posição interna de largada, dividindo a primeira fila com Rosemeyer e Rex Mays. Na segunda fila estavam Seaman, Nuvolari e Farina e, na terceira, Delius, Billy Winn e Ted Horn. Atrás deles vinham cerca de 25 carros e pilotos americanos, que tinham pouco ou nenhuma experiência em corridas genuinamente de pistas, incluindo Mauri Rose, "Wild Bill" Cummings, Wilbur Shaw e Kelly Petillo, que tinham vencido em Indianápolis.
Como não eram permitidas mulheres nos boxes, um lugar especial para cronometragem foi montado para Madame Caracciola na reta de retorno e foi de lá que Neubauer dirigiu a corrida, deixando os boxes da Mercedes a cargo de Uhlenhaut.
As apostas para a corrida eram interessantes, na medida em que Rosemeyer era o favorito em 8:5, especialmente quando Caracciola fez o recorde de volta durante os treinos. Rudi estava cotado em 2:1, Rex Mays, o ás das corridas dirt-track que tinha dado um belo show nos treinos estava em 4:1, Nuvolari 5:1, Seaman 6:1 e Wilbur Shaw 8:1.
Às 13h de sábado, 3 de julho, todos os carros estavam alinhados na reta em frente aos boxes para a largada, que estava prevista para uma hora mais tarde. O tempo prenunciava o pior e meia hora antes da largada começou a chover, de modo que a largada foi adiada para segunda-feira.
Isso, é claro, seria uma novidade em qualquer outro país, mas na América aparentemente eles invariavelmente adiavam ou paravam a corrida sob chuva. Sob essas circunstâncias muitos dos pilotos consideraram uma boa medida a ser adotada, particularmente porque nenhum deles realmente gostava de correr sob chuva.
Até onde os organizadores poderiam estar preocupados, era uma "boa coisa", porque segunda, 4 de julho, era o Dia da Independência, e ao menos o dobro de pessoas compareceu para ver a corrida. Os números oficiais falavam em 80 mil expectadores. Eles chegavam em todos os tipos de meios, alguns em velhos Ford, outros em motocicletas com suas namoradas, mas provavelmente a maioria vinha por "jardineiras", adequadamente chamados de transporte para "pescoços de borracha".
Eles tinham vindo ver o "o esporte que desafia a morte" e, estando acostumados às corridas de dirt-track, que deixavam os cabelos de pé, se podia imaginar que ficariam desapontados com este espetáculo aparentemente manso, onde não havia batidas e umas poucas "gilhooleys" (palavra americana para rodada de 360º).
A largada e a volta de abertura foram muito excitantes. Rosemeyer cortou reto à frente de Caracciola para entrar na primeira curva à esquerda, seguidos por Rex Mays, Nuvolari, Seaman e Farina.
Na segunda volta Caracciola estava colado em Rosemeyer e Seaman tinha passado Nuvolari, ganhando a 4a posição. Na terceira volta Caracciola passou Rosemeyer e ganhou uma folga de cerca de 5 segundos. Na quinta volta a ordem era Caracciola, Rosemeyer, Mays, Seaman, Nuvolari, Billy Winn, Delius e Farina. Rosemeyer estava indo muito rápido e na 11a volta ganhou novamente a liderança, enquanto os demais mantinham suas posições, à exceção de Farina, que tinha passado Billy Winn e Delius, chegando ao 5o lugar, com Delius em 6o.
Nuvolari estava fazendo um tremendo esforço para ultrapassar novamente o destemido, corajoso Seaman, mas com resultados devastadoramente negativos, uma vez que seu motor explodiu na 16a volta, o forçando a abandonar. A Mercedes foi a vítima seguinte, com Caracciola tendo que se retirar na 22a volta, com o compressor quebrado. Seaman passou Rex Mays, ocupando o 2o lugar, com Delius e Farina batalhando pela 4a posição.
Na 38a volta, Rosemeyer parou nos boxes para trocar pneus e abastecer, o que levou 35s. Embora este tempo estivesse longe de ser um recorde, foi rápido o suficiente para impressionar vivamente os americanos, cujo trabalho de box foi patético. O pit stop de Rex Mays para pneus e combustível levou o tempo tremendamente longo de 1m18.
A parada de Rosemeyer tinha deixado Seaman na liderança e depois de 40 voltas ele estava 30s à frente. Nessa volta, em meio a uma entusiástica aclamação por parte do setor italiano da torcida, Nuvolari tomou o lugar de Farina, que tinha vindo aos boxes para por combustível.
Na 45a volta, Rosemeyer estava reduzindo consistentemente a distância que o separava de Seaman e praticamente já o tinha alcançado quando o motor deste último começou a engasgar devido a falta de combustível, de modo que na volta seguinte o Mercedes veio para os boxes, o que deixou Rosemeyer na liderança, com Mays em 3o, Delius em 4o, Nuvolari em 5o, seguido pelos americanos Winn, Horn, Snowberger e Shaw.
Nuvolari estava em um momento espetacular pois, tendo passado Delius, começou um fantástico duelo com Rex Mays, e finalmente o passou, apenas para ter que parar por 3m nos boxes na 50a volta para investigar danos no seu motor. Constatada a quebra, ele devolveu o carro a Farina para que prosseguisse!
Seaman, "o jovem inglês de Cambridge", estava fazendo a corrida de sua vida, alcançando Rosemeyer. Depois do segundo pit stop de Rosemeyer, na 74a volta, Seaman estava somente 9s atrás dele mas sendo seu carro a única Mercedes ainda na corrida, ele não deveria exigir demais de seu motor, o que não aconteceria se Caracciola ainda estivesse na pista. Tanto Rosemeyer quanto Seaman já tinham colocado uma volta sobre Mays e Delius pela segunda vez, e Farina, que tinha tido que parar na 70a volta, estava quatro voltas atrás.
Na 80a volta, Rosemeyer tinha aumentado sua folga para 13s, mas na 89a volta, faltando apenas uma para terminar, o motor de Seaman começou a engasgar novamente, e ele teve que vir para os boxes para mais combustível, de modo que terminou 51s atrás de Rosemeyer.
A ordem final foi:
1º … ROSEMEYER (Auto-Union)
2º … SEAMAN (Mercedes) - 51s atrás
3º … REX MAYS (Alfa-Romeo) - 1 volta atrás
4º … DELIUS (Auto-Union)
5º … FARINA (Alfa-Romeo)
6º … JOEL THORNE (Alfa-Romeo)
O público americano ficou genuinamente estupefato com a performance dos carros alemães, particularmente porque tanto Mercedes quanto Auto-Union estavam alcançando as 260 km/h na grande reta.
Rosemeyer, durante a curta transmissão radiofônica após a corrida, disse que achou que a corrida "muito escorregadia", como comprovavam suas mãos cheias de bolhas e sangrando, mas que tinha gostado imensamente. Ele também enfatizou o esplêndido show dado pelo americano Rex Mays em uma antiga Alfa-Romeo de oito cilindros.
A senhora Emerson entregou a Rosemeyer a enorme Vanderbilt Cup, dizendo: "Eu acho que você é um grande piloto e seu carro é "wunderbar" (maravilhoso, em alemão)". Isso não era exatamente verdade, já que a maioria dos carros inscritos pelos americanos ia de antiquadas Maseratis e belos mas simples Miller, até todo tipo de motores de produção normal envenenados, que largavam óleo em toda a extensão do circuito. Os chassis e freios de alguns desses carros eram pouco menos que assustadores, e pareciam ter sido feitos no quintal de casa.
Somente se poderia esperar que os americanos tivessem pegado o gosto pelas emoções de um Grand Prix de verdade, e que para o ano seguinte produzissem genuínos carros de corrida. Eles tinham mostrado que tinham pilotos e todo mundo que tenha tido alguma experiência esportiva com americanos sabe que, se eles levarem a sério, podem "mostrar ao mundo" como se faz. Por que não em corridas de automóvel?
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