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A Geni da F1 27.10.06
Acabo de ler a coluna do L. Fernando Ramos, "Como vencer sendo o segundo". Mais uma vez, vejo-me impelido a fazer às vezes de advogado do Rubens Barrichello.

Massa escapou logo na largada
Ico observa, corretamente, que Massa aceitou pacificamente seu lugar secundário na equipe e que Barrichello, ao contrário, inventou a posição 1B, obviamente uma peça de ficção. Mas acho injusta a comparação.

Vamos ver se entendemos: você inicia uma carreira. Rapidamente vai alcançando postos importantes. Antes de você, um cara que tem muitos pontos em comum contigo, fez uma carreira fulgurante no seu mercado e, o melhor, ele é seu amigo! Ele continua brilhando mas você tem diversos motivos para crer que, quando surgir a oportunidade, você vai ser a bola da vez e sucedê-lo.

Bem, ele morre repentinamente e você acaba trocando de empresa, tomando algumas decisões que se provam erradas. Seu talento continua razoavelmente reconhecido, embora os lugares que escolheu para trabalhar não permitam a você mostrar todo o seu talento, por limitações de material.

Por que você deve continuar acreditando na sua chance de virar herói nacional e internacional?

Porque, por exemplo, tem a confiança de um cara que foi três vezes apontado como o melhor do mundo e continua respeitadíssimo no setor.

Aí surge uma grande chance: o cara que é sensação do mercado aceita que você venha trabalhar com ele, quase que com igualdade total de condições. É o melhor lugar do mundo, com alguma sorte, você terá a chance de reviver os duelos que seu antecessor amigo protagonizava com um francês e um inglês.

Bem, você se sujeita a atuar como um mero estagiário, um assistente, ou você trata de lutar para mostrar que sabe quase tanto quanto ele e, que se derem aquele tostãozinho de atenção para você, bem que consegue ser tão bom quanto?

Quem, no lugar do Rubens, se contentaria em ser um mero coadjuvante, ainda mais mostrando - cabalmente - em algumas ocasiões, que pode dar um "chocolate" no "chefe" (como ele chamava Michael em outras ocasiões)?

A maneira como ele lutou é perfeitamente discutível, mas esperar que ele tivesse se portado como o Massa, que está no começo da carreira e não tem reputação nenhuma a defender, me parece totalmente fora de propósito.

Também duvido que Massa tenha tido qualquer peso na decisão de Michael: acho que o multicampeão simplesmente achou melhor sair enquanto ainda era competitivo. Vamos lembrar que nesta temporada, especificamente, ele cometeu erros que não costumava cometer.E, finalmente, como vimos nas duas últimas corridas, a sorte deu sinais de ter se cansado dele.

Deve ter sido uma decisão difícil, de qualquer modo, na medida em que a Ferrari já sai como favorita ao título do ano que vem, por diversos fatores, o principal dos quais a fabulosa e única experiência com os pneus que dominarão a categoria.

Não duvido nada que ele passe a tutelar Massa, não apenas pelas razões afetivas que o Ico alinha mas, simplesmente, para mostrar que o "seu" garoto pode dar um pau naquele finlandesinho amigo de uma farra. Seria uma maneira de continuar ganhando.

Rubinho em Interlagos
Também estou de acordo que Rubens ainda tem muito a aprender em matéria de relacionamento. Sua língua é seu pior inimigo, tanto para consumo interno da equipe quanto para a opinião pública, especialmente a brasileira.

Tivesse se colocado como o coitadinho que vai para uma equipe onde o primeiro piloto, já um fora-de-série indiscutível, manda e desmanda implacavelmente, a opinião pública passaria a torcer por ele, ainda mais que Michael tinha imagem de arrogante naquela época. É bom lembrar que a torcida do Corinthians cresceu firmemente na época em que este clube amargava uma fila e o Santos de Pelé dominava.

Ao se colocar como "1B", Barrichello criou uma expectativa que tinha pouquíssimas condições de cumprir. Suas declarações pós GP Brasil 2006, sincera e saudavelmente invejosas do sucesso do amigo e dos inimigos, comprovam mais uma vez sua inabilidade diante de microfones.

Mas não devem apagar o fato de que é um piloto muito bom e que está fazendo um ótimo trabalho na Honda, sendo diretamente responsável pelo salto de qualidade que a montadora nipônica apresentou no grid, em especial o fato de ter deixado para trás sua arqui-rival Toyota.

Não é pouco.






Schumacher entre os dois Renaults
Concordo que foi ótima a vitória do Felipe Massa, que o Alonso mereceu o título, que o Michael se despediu com uma excelente performance, que o Rubinho teve uma atuação que só reforça as piadas que fazem com ele.

Como todo mundo já falou tudo que deve ser falado sobre os itens anteriores, gostaria de chamar a atenção sobre o último, procurando evitar que aconteça o que considero injustiça. Acho divertido o Pânico na TV, mas somente no que se refere a desmascarar evidentes hipocrisias.

Obrigar o Jo Soares a calçar as sandalionas da humildade me parece que ainda fica no limite da fronteira justiça/injustiça, na medida em que o volumoso apresentador tem demonstrado uma certa arrogância, uma certa soberba.

No entanto, é preciso lembrar que ele é um artista atípico, uma pessoa que fala fluentemente vários idiomas e que teve a oportunidade de estudar na Suíça. Responsável por diversos dos melhores momentos da TV neste país. Com a idade, é natural que sua paciência com a indigência intelectual que dominou o cenário nacional em quase todos os campos tenha ficado curta.

No que se refere à pegadinha que os humoristas colocaram na frente do Michael, penso que pode até gerar a audiência que eles precisam, mas isso terá sido feito à custa de uma injustiça. Se tivessem explorado a evidente inabilidade do Rubens em se comunicar com a imprensa, aplaudiria. Mas é evidente que ele está distante de ser a tartaruga, o braço-duro que os humoristas sugerem ser a opinião do Michael.

Sob o Sol de Interlagos, a Classe 2006
Vejamos: para adquirir o direito de pilotar um F1 é preciso ser, comprovadamente, um bom piloto nas categorias inferiores. Para ser manter na F1 por mais de uma temporada, é preciso ser muito bom piloto. Para correr por equipes de ponta, é preciso ser um ótimo piloto. Para vencer corridas, é preciso ser um ótimo piloto com talento para vencer. Para ser campeão, é preciso ser mais que um ótimo piloto com talento para vencer. Para ser campeão mais de uma vez, é preciso ser um piloto excepcional, um fora-de-série.

Se estamos de acordo com essa classificação tosca, basiquinha, elementar, vamos assumir que Michael Schumacher é um piloto excepcional, fora-de-série. Pois o tartaruga-Rubinho ganhou dele várias vezes, mesmo a equipe concentrando o melhor de seus recursos no piloto 1A (notória besteira cometida pelo Rubens na categoria comunicação).Os carros eram iguais? Eram. Mas as atenções e preferências da equipe, não. Portanto Rubens corria com alguma desvantagem.Alguém notou que, nos começos de temporada, sempre que o Michael quebrava ou ficava atrás do Rubinho, este estranhamente começava a "ter problemas", até que o superduperextramega campeão o ultrapassasse confortavelmente na tabela? Lembram-se como o Rubens teve problemas estranhos em pelos dois GP do Brasil, quando Michael já estava fora do baralho?

Assim acabaram-se os sonhos de Schumacher
Como todos sabemos, uma das manchas mais evidentes no currículo do Michael (e da Ferrari), é a famosa ordem para Rubens ceder a ponta em uma corrida em que fez barba, cabelo, bigode, virilha, perna... Fosse no futebol, diriam que Rubens estava dando um chocolate.

Aliás, é uma mancha na imagem da própria categoria, que detonou a discussão de ser esta ainda um esporte ou apenas uma mera desculpa para fazer negócios milionários. Sem dúvida, como competidor, Rubens ficou devendo nesta corrida e na temporada.

Mas é óbvio que ele foi responsável por um salto de qualidade na equipe, fazendo com que ela se tornasse mais e mais competitiva, ao ponto de chegar a vencer um GP, coisa que a Toyota não conseguiu (para falar em equipe similar). Não creio que Button conseguisse todos esses resultados sozinho.

Assim, acho muito equivocado esse hábito tão brasileiro de oito-ou- oitenta em relação a seus ídolos ou candidatos a isso. É muito fácil fazer piadas como a pegadinha com que envolveram o Michael, fazendo com que todos riam de um alvo fácil.

É injusto? É. Mas que importa, o que interessa é dar Ibope e os outros que se lixem, não? É bacana ser "rebelde", é bacana "não ter medo de expor ninguém". Muito cuidado com a opinião pública.

Alguém se lembra do que aconteceu com a Escola de Base, aqui em S. Paulo? Os diretores da escola foram acusados de crimes com relação aos alunos, nem lembro mais de que tipo, creio que assédio sexual, e foram prejulgados e execrados pela imprensa. Quando efetivamente terminaram as investigações, mais de um ano depois, ficou provada a inocência deles. Mas aí a Escola já tinha perdido seus alunos e os diretores, a saúde.

No que me concerne, de irresponsabilidade já temos o bastante neste país, especialmente em Brasília.

Abraços
Carlos Chiesa

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