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AVUS 25.08.06
AVUS

A impressionante Nordkurve de Avus Note a multidão em seu interior
Está se acostumando com a temporada de 1937?

Percebeu o jeito bem diferente que George Monkhouse tinha para descrever uma corrida? E você achava que Indianápolis sempre foi a corrida mais rápida do mundo?

Veja neste GP como os alemães já tiveram sua Indianápolis - e ainda mais rápida que a americana. Quer um exemplo de espírito esportivo? Veja como um inglês não só foi ovacionado por alemães como também recebeu um prêmio das mãos de um dos maiores chefes nazistas. Note como a aerodinâmica já tinha importância naquele tempo, bem como os pneus.

Divirta-se com mais este Grand Prix.

Carlos Chiesa






30 DE MAIO DE 1937

Em 1935, na última edição da corrida de Avus, Luigi Fagioli vencera com um Mercedes, registrando velocidade média de 238 km/h. Isto no circuito antigo, de duas retas absolutamente paralelas de seis milhas separadas por uma faixa de grama, ligadas no final por duas curvas ligeiramente inclinadas. Como as autoridades quiseram fazer uma nova estrada cruzando os limites de Berlim, foi necessário reconstruir o aterro em um dos lado, trabalho que levou cerca de dois anos.

O novo aterro se parece com um "Muro da Morte" e tem inclinação em ângulo constante de 45º. A expectativa é que essa nova curva permita velocidades entre 270 e 290 km/h. Quando não está emprestada para corridas, a pista é utilizada como estrada para Potsdam, e é comum ver jovens alemães pegando suas Mercedes 540 para dar uma volta em Avus. A taxa é de apenas um marco, mas o estrago que se pode fazer no carro depois de diversas voltas com o acelerador no fundo custará consideravelmente mais.

Tanto Mercedes quanto Auto-Unions tinham desenvolvido carros especialmente carenados para esta corrida, que parecia fantástica e Wellsiniana (referência a H. G. Wells, autor de "A Guerra dos Mundos") em sua concepção. Um dos Mercedes era similar ao que Rudi Caracciola usou quanto bateu três recordes na estrada Frankfurt-Darmstadt, cobrindo uma milha em aproximadamente 360 km/h. Este carro tem um motor doze cilindros desenvolvendo mais de 600 HP.

Caracciola à frente de Rosemeyer em Avus 37
Para desapontamento geral, os Ferrari Alfa-Romeo não se inscreveram. Assim, a corrida ficou virtualmente entre Mercedes e Auto-Union. A equipe Mercedes era formada por Caracciola (carroceria fechada, 8 cilindros), Manfred von Brauchitsch (fechada, 12 cilindros), Hermann Lang (fechada, 8 cilindros), Dick Seaman (aberta, 8 cilindros) e Gofreddo Zehender (chassis Grand Prix aberto, com motor de 12 cilindros). A Auto-Union estava representada por Bernd Rosemeyer e Fagioli (carrocerias fechadas) junto com Ernest von Delius e Rudolf Hasse nos modelos Grand Prix habituais. Hans Stuck estava na América do Sul, onde terminou em 2o o Grand Prix do Rio de Janeiro, prova vencida por Carlos Pintacuda.

Já nos treinos, as velocidades em Avus eram impressionantes. Fagioli atingiu média de 280 km/h. Os pilotos da Mercedes, particularmente Caracciola, obviamente tinham algum truque escondido na manga e não estavam dando nenhum show, mas gastavam bastante tempo andando no limite ao longo do "Muro da Morte", sob a supervisão de Alfred Neubauer.

Para as posições de largada, todos tiveram que cobrir uma volta partindo parados, o que foi muito divertido, com os seguintes tempos: Rosemeyer e Fagioli, 4m10; Brauchitsch, 4m12; Caracciola, 4m15; Lang, 4m19; Hasse, 4m20; Delius, 4m25; e Seaman, 4m29.

O carro de Seaman era cerca de 25 km/h mais lento que os carros carenados. A única razão da Mercedes ter inscrito este carro é porque eles estavam um pouco preocupados com as rodas encobertas, que poderiam deixar os pneus quentes demais. Neubauer calculou que um carro virando em 4m15 cumpriria três voltas antes de trocar os pneus traseiros, e que qualquer coisa abaixo de 4m25 resultaria em um único pit stop. Acima desse tempo, o carro conseguiria ir até o fim sem parar. Uma volta completa em Avus tem aproximadamente 12 milhas. A competição seria realizada em duas baterias de sete voltas e uma bateria final de oito voltas.

No domingo, 28 de maio de 1937, com sol brilhante, uma multidão estimada em cerca de 400 mil pessoas se acomodou ao longo do circuito para assistir à maior orgia de velocidade do mundo.

Antes da corrida dos "carros grandes", houve uma corrida de carros de 1.500cc, que foi vencida por um inglês, Charles Martin, em um E.R.A., a uma velocidade média de 190 km/h. Martin ganhou uma tremenda ovação e não apenas recebeu uma enorme coroa de louros de Huhnlein, o líder do esporte alemão, como também ganhou um enorme troféu do Dr. Goebbels pela melhor performance de um piloto não-alemão.

Às 15h em ponto, os monstros rugidores da Mercedes e da Auto-Union foram alinhados para a primeira bateria da grande corrida. A largada foi muito excitante porque tanto Seaman quanto Delius passaram Caracciola e Rosemeyer, apenas para serem ultrapassados assim que o barulhento grupo saiu da curva sul. A velocidade era tão alta que era praticamente impossível ler os números dos carros, quando eles passavam a cerca de 320 km/h. A ordem parecia ser Delius, Seaman, Caracciola e Rosemeyer.

Na segunda volta, os carros carenados passaram à frente e ficaram lá até o fim, Caracciola ganhando de Rosemeyer em cima da linha de chegada, Delius em 3o e Seaman 4o. A velocidade de Caracciola foi de 250 km/h, tão lenta que ninguém teve que trocar pneus.

Os carros então se alinharam para a segunda bateria, a primeira fila composta por Brauchitsch e Fagioli; a segunda por Lang e Hasse e, atrás deles, Hartmann e Sofietti com Maseratis bem antiquadas.

Hasse liderou na largada mas Fagioli forçou seu Auto-Union até chegar à frente, no momento em que alcançavam o "Muro da Morte", e desviou dele tão rápido que deu a impressão de ter tocado a borda, levantando uma nuvem de poeira.

Na volta seguinte, os três primeiros carros estavam muito próximos e Brauchitsch tinha chegado à liderança, com Lang em 2o. Na terceira volta, no entanto, Fagioli ultrapassou Lang, apenas para abandonar logo depois, com o motor estourado.

Lang desafortunadamente teve que parar para trocar pneus e não conseguiu mais ultrapassar Hasse, que não lhe deu espaço. Neubauer ficou furioso e protestou. Como o incidente tinha sido observado por fiscais, seu protesto foi aceito. A ordem então passou a ser Brauchitsch e Lang (Mercedes) e Hasse (Auto-Union), essa bateria sendo vencida a uma velocidade um pouco maior, 257 km/h.

A tática da equipe Mercedes para a bateria final era: Caracciola deveria dar o máximo, o que implicaria em troca de pneus; Lang e Brauchitsch tentariam ir até o fim sem trocar pneus e Seaman também andaria no limite, tratando de ficar à frente dos Auto-Union abertos.

Caracciola largou na frente, com Rosemeyer em 2o, Lang em terceiro e Seaman atrás. Brauchitsch logo teve problemas e foi para os boxes, com o eixo traseiro quebrado. Rosemeyer caiu para 6o quando parou nos boxes por alguns segundos, deixando a Mercedes com os 3 primeiros lugares.

Neubauer estava, a esta altura, agitando orgulhosamente sua bandeira preta e vermelha. Mas o otimismo durou pouco, porque Caracciola entrou para os boxes com ruídos estranhos vindos do eixo traseiro, deixando Lang na liderança com Seaman logo atrás.

Seaman aparentava ter condições de oferecer combate a Lang, porque dava o máximo nas retas e fazia as curvas um pouco mais lentamente, o que fazia parecer que a Mercedes ficaria com o primeiro e segundo lugares. Mas, para intensa surpresa e raiva de Seaman, seu carro cuspiu metade da banda de rodagem pouco antes do fim da quarta volta, e ele foi obrigado a parar. Voltando para a recuperação, Seaman teve uma impressionante briga com Rosemeyer, a Mercedes sendo mais rápida em aceleração, mas Rosemeyer, com um carro carenado, sempre ultrapassava seu rival nas retas.

Esse duelo continuou com os dois se alternando até que, estando ambos carros na metade da última reta, Seaman novamente perdeu um pedaço da banda de rodagem, tendo que se conformar com o 5o lugar - uma enorme falta de sorte.

Lang fez uma corrida perfeitamente planejada e cruzou a linha dois segundos à frente de Delius, com Neubauer atirando seu chapéu à frente do carro, quando este cruzou a linha. Foi certamente outro grande dia para a Mercedes, que tinha vencido as duas baterias e a final, esta última a uma velocidade média de 260 km/h.



O pessoal técnico da Mercedes estava interessado em descobrir por que, contrariando todas as expectativas, o carro de Seaman perdeu duas bandas de rodagem. Após muita discussão, os especialistas concluíram que o motivo era que Seaman tinha mantido o acelerador no fundo nas retas, ao passo que os carros carenados, tendo menor resistência ao vento, podiam fazer o mesmo com aproximadamente 3/4 de acelerador, colocando menos carga nos pneus.

Entre os espectadores estava ninguém menos que Tazio Nuvolari, armado com uma câmera Contax com a qual fotografou tudo. Tazio estava em colossal forma durante as celebrações após a corrida, num night-club de Berlim, onde executou uma dança solo, para divertimento dos presentes.

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