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Na camâra secreta 04.08.06
NA CÂMARA SECRETA

Um dos mais belos carros da Mercedes, o 300 SLR, foi batizado com o nome de Uhlenhaut
Acompanhe George Monkhouse em uma visita ao secretíssimo Departamento Experimental da Mercedes, como ele narra em seu livro Motor racing with Mercedes-Benz e descubra que templos de tecnologia como Paragon, por exemplo, não são novidade no automobilismo. Atenção especial para os parágrafos finais: lembro que estamos falando dos anos 30 e não da semana passada!

Carlos Chiesa






Durante o período viajando com a Mercedes eu tinha freqüentemente sussurrado que gostaria de conhecer o Departamento Experimental, o que era geralmente saudado com um sorriso sarcástico, e a observação que muito poucas pessoas da Daimler-Benz tinham tido oportunidade de ir lá, portanto quais as chances que eu, um estrangeiro, teria?

Rudolf Uhlenhaut testa um Mercedes em Nurburgring 1938
Surpreendentemente, o Diretor Max Sailer deu seu consentimento e o chefe do Departamento Experimental, Uhlenhaut, prometeu que ele mesmo se encarregaria de me ciceronear. Você pode imaginar como eu fiquei ansioso por essa honra incomensurável!

Fui recebido nos portões por Zimmer, o chefe dos mecânicos de corrida, que me levou ao Departamento de Corridas, o qual está situado à direita dos fundos da fábrica de Stuttgart, e é visto como o lugar mais sagrado dos lugares sagrados.

Rudolf Uhlenhaut, em foto de 55
No escritório de Uhlenhaut, pendurado numa prancha, havia um grande mapa do circuito de Donington, no qual todos os gradientes e raios de curvas tinham sido medidos. Isso é apenas um exemplo da extrema eficiência do Departamento de Corridas, que permitia a eles preparar seus carros especialmente com vistas à correta relação de marchas, para um novo circuito que eles nem tinham visto ainda.

Agora vamos dar uma volta pelo local.

Antes de tudo vem a montagem dos motores, sob a supervisão de Zimmer, que invariavelmente acompanha os carros nas corridas. Todos os componentes, tais como o compressor, os carburadores, as bombas de óleo, gasolina e água, são montados em seções separadas do departamento, cada uma a cargo de um especialista. As bombas de óleo, gasolina e água são testadas por inúmeras horas, sua vazão e pressão sendo constantemente checadas. Quando o motor está completamente montado, é colocado num trolei e levado à seção de teste de motores, onde há duas bancadas. Cada motor passa por um teste de potência na bancada antes de ser instalado num chassi.

Continuando o passeio, passamos primeiro pela baia de montagem do conjunto caixa de câmbio/diferencial - um negócio realmente volumoso - depois a montagem do eixo traseiro com suas barras de torção, e a seguir a suspensão dianteira, com suas ligações belissimamente forjadas, e as formidáveis molas helicoidais. Finalmente chegamos ao novo amortecedor hidráulico Mercedes, para o qual uma máquina especial de testes tinha sido desenvolvida.

O chassi é composto de tubos soldados de aço de 1 1/2 mm. Embora os terminais dos tubos ovais das partes laterais possam ser apertados para dentro com um único dedo antes de o chassi ser montado, a estrutura acabada é realmente rígida, mas ao mesmo tempo incrivelmente leve. Eu descobri que era facílimo levantar um chassi com ambas as mãos.

Agora chegamos ao prédio onde realmente está o carro de corrida completo. Existem seis baias de montagem, cada uma tendo um quadro onde são marcadas as corridas onde esse carro está inscrito, o piloto do carro, o número de corrida, o número do motor, o número do chassi e quaisquer outros detalhes especiais.

Aqui o chassi completo é colocado em quatro macacos enquanto as suspensões dianteira e traseira são instaladas, assim como a caixa de câmbio. O motor então é baixado para dentro do chassi e terminada a montagem do carro. Finalmente o tanque e a carroceria, feitos numa seção ao lado por ágeis cavalheiros com pedacinhos de estanho, são fixados e algumas rodas com pneus montadas no carro, o qual agora está pronto para seu teste final antes de deixar a fábrica para as corridas.

O aparato para esse teste final é talvez a mais impressionante peça de maquinaria de todas. O carro completo é empurrado através do páteo até uma plataforma, de modo que suas rodas traseiras se apóiem sobre grandes roletes acoplados a um dinamômetro.

A função dessa máquina é reproduzir com a maior fidelidade possível as condições reais do carro em corridas. A Mercedes chegou a um nível tão grande de detalhes que o ar nesse local é aquecido ou esfriado para reproduzir as condições atmosféricas das regiões onde as corridas terão lugar. Isto significa que o carro estará perfeitamente carburado antes de deixar a fábrica. À frente do radiador do carro há um gigantesco ventilador soprando ar a uma temperatura pré-programada, a uma razão equivalente a que ele receberia se estivesse correndo na pista, em velocidade correspondente às RPMs. O motor é então ligado e as rodas traseiras começam a girar de acordo com as mudanças de marcha. Elas rodam os roletes e assim motor e transmissão são testados em condições muito próximas das reais, inclusive as temperaturas de óleo e água.

Muitas informações interessantes podem ser obtidas com esta máquina, particularmente no que concerne a quanta potência é fornecida pelo motor quando empenhado a fundo. Eu creio que são entregues quase 200 HP nas rodas traseiras com o motor a cerca de 5.500 RPM em terceira marcha. Isso dá uma idéia do tremendo efeito de frenagem do motor, quando um carro está reduzindo para fazer uma curva.

Após ter passado no teste final, o faiscante carro prateado é empurrado para fora do Depto. Experimental e colocado em um caminhão para ser levado às corridas. Imagine por um momento os pensamentos dos projetistas, mecânicos, montadores e outros que cuidaram com tanto carinho do seu bebê, vendo-o ser levado embora sem nem sequer tê-lo apreciado em ação!

(do livro Motor racing with Mercedes-Benz, de George Monkhouse)
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