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Máquina do tempo 21.06.06


O Barão Pierre de Caters
Vamos supor que alguém inventou uma máquina que permite regredir no tempo e essa máquina torna possível a você assistir, de uma posição privilegiada, o equivalente à Fórmula 1 de antes da II Guerra, as corridas da categoria Grand Prix, mais especificamente a temporada de 1937.

Como não havia aviões que cruzassem o Atlântico na época, não havia brasileiros conhecidos na platéia, muito menos nas pistas. Aliás, o grid era dominado basicamente por alemães e italianos. As montadoras inglesas ainda não tinham se interessado por competições, nem como laboratório de testes nem como ferramenta de divulgação da marca.

Então, vamos supor que você fez amizade com um cidadão inglês chamado George Monkhouse. Ele é uma autoridade em automobilismo. Por isso, foi convidado para acompanhar a temporada junto à equipe Mercedes-Benz.

Embora sendo inglês, George é reconhecidamente um sportsman e essa é uma condição que equivalia à de um diplomata informal naqueles anos pré-guerra, onde ainda havia espaço para cavalheirismo, espírito esportivo. A Mercedes já havia atingido fama mundial por suas vitórias. Sua principal rival, naquele ano, era a igualmente alemã Auto-Union.

Havia rumores de que o governo nazista destinava grandes somas de dinheiro a essas duas casas, para que representassem a superioridade germânica nas pistas, mas Alfred Neubauer, o legendário chefe da equipe Mercedes, que sobreviveu ao conflito mundial, sempre negou.

Acompanhe então, a partir de agora, uma narrativa fiel do que foi a temporada de 1937 de Grand Prix e faça sua comparação com a temporada deste ano, numa gentileza de George e seu maravilhoso livro Motor racing with Mercedes-Benz, lançado nos anos 40.

Carlos Chiesa






As primeiras corridas e a Fórmula Grand Prix de 1934-1937

A julgar pelos relatos e fotografias das primeiras corridas de automóvel, este deve ter sido um esporte muito confuso e perigoso.

Os carros, em comparação com os padrões modernos, eram gigantescos em aparência, tendo motores com potência estimada em 100 HP ou mais, e rodas traseiras acionadas por enormes correntes.

Os homens que dirigiam esses monstros eram igualmente espécimes de aparência feroz e nomes como Jenatzy, Hemery, de Caters, Nazzaro, Braun, Salzer, de Knyff, Jarrott e Edge, criando em nossa mente visões desses pioneiros correndo com seus carros entre nuvens de poeira, com uma pilha de pneus de reserva amarrados na traseira, de prontidão no caso de estouro!

Camille Jenatzy arranca com seu Mercedes de 9,4 litros em corrida de 1903
A maioria dessas primeiras corridas era eventos ponto-a-ponto, como as primeiras corridas Gordon-Bennett, Paris-Vienna, Paris-Berlin e malfadada Paris-Madrid de 1903. Esta última terminou em Bordeaux porque muitos competidores e espectadores morreram. A conseqüente reação da imprensa fez soar o sino do enterro desses eventos ponto-a-ponto, e todos as modernas corridas de Grand Prix passaram a ter lugar em circuitos "fechados", adequadamente policiados.

Naqueles dias em que havia bem poucos eventos durante o ano, cada organizador estabelecia seus próprios regulamentos, contemplando tanto a corrida em si quanto o tipo de carro que iria competir. Isto era naturalmente muito caro para os fabricantes, os quais, se quisessem competir, teriam que construir carros específicos para cada tipo de corrida.

Nazzaro e seu Fiat, em corrida de 1907
Os problemas chegaram a tal ponto que, em 1907, a Association Internationale des Automobile Club Reconnus decidiu por a mão na massa, para estabelecer algum tipo de padronização. Depois de alguma discussão, uma fórmula satisfatória foi desenvolvida e os delegados dos principais países onde havia corridas se comprometeram a fazer os principais eventos de 1908 em seus países de acordo com ela.

Em 1923, a Association indicou um seleto comitê, a Comission Sportive Internationale, CSI, para controlar todos os assuntos relativos a corridas. Esse comitê reunia somente os representantes dos países que não só construíam carros como também organizavam corridas. Entre suas principais tarefas estava preparar um calendário anual, avaliar todos os pedidos de quebra de recordes e estabelecer uma Fórmula Grand Prix.

Na preparação desses regulamentos, a CSI levou em consideração restrições que poderiam ajudar os engenheiros automotivos a resolver alguns de seus problemas no desenho de um carro de corrida, na esperança de que as lições tiradas daí tivessem valor para o projeto de carros de turismo. Em outras palavras, a fórmula foi idealizada para ser do interesse do maior número de fabricantes de automóvel possível.

Outro ponto é que todo indivíduo competindo em qualquer das corridas saberia que, teoricamente, teria tanta chance de ganhar a corrida quanto qualquer outro competidor, porque os carros deveriam ser construídos com as mesmas especificações.

Em 1921, por exemplo, o regulamento permitia motores de no máximo 3 litros de capacidade. Entre 1922 e 1925, o limite era 2 litros; entre 1926 e 1927, um litro e meio e, embora houvesse algum tipo de restrição, a maioria das corridas realizadas entre 1928 e 1933 era de fórmula livre.

Em 1933, as corridas de automóvel tinham se tornado uma briga triangular entre Alfa-Romeo, Bugatti e Maserati, capazes de alcançar velocidades de 240 km/h.

Louis Chiron com seu Alfa Romeo P3, em Mônaco 1934
Quando idealizados os regulamentos para a fórmula de 1934 a 1936, que acabou sendo posteriormente estendido a 1937, a CSI decidiu que, se o peso máximo não ultrapassasse 750 quilos, então o constante aumento de velocidades deveria ser colocado em cheque, de modo que os projetistas fossem incapazes de usar motores tão grandes quanto eles tinham usado no passado. A expectativa era de que isso iria limitar o tamanho dos motores em cerca de 2,5 litros. Quão errados eles estavam!

O limite de 750 quilos era para o carro completo, com rodas, mas sem combustível, óleo, água e pneus, e havia também algumas dimensões mínimas definidas, sacrificando o chassi. Mas à parte essas restrições, o projetista tinha as mãos livres.

Nuvolari e seu Bugatti em Mônaco 1934
Assim que a temporada de 1934 começou, o famoso Monoposto Alfa-Romeo, da equipe Ferrari, conquistou diversas vitórias mas logo correram rumores de que Mercedes e Auto-Union (uma firma recém-formada, reunindo Audi, Wanderer, Horch e DKW) iriam lançar carros revolucionários.

Desnecessário dizer que os carros alemães sofreram as naturais doenças de infância. Na última parte da temporada, no entanto, eles estabeleceram sua supremacia, com a Mercedes ganhando quatro corridas e a Auto-Union três.

Largada no GP da Bélgica de 1935, com Caracciola à frente
Em 1935, a Mercedes não deu chance a ninguém, com Caracciola ganhando nada menos do que seis corridas, ainda que a Alfa-Romeo e Tazio Nuvolari tenha humilhada a ambas com a sua extraordinária vitória em Nurburgring. Em 1936 Rosemeyer ganhou cinco corridas para a Auto-Union, Caracciola duas para a Mercedes e Nuvolari conseguiu bater todos em Barcelona e Budapest com seu Alfa-Romeo.





Assim que terminou a temporada de 1936 a Mercedes começou a buscar jovens pilotos.

Inúmeras experiências foram feitas, num total de 30, com pilotos de carros esporte e até de motocicleta. Todos tiveram uma chance de mostrar suas habilidades, primeiro em Nurburgring, andando em carros de turismo, com os melhores sendo selecionados para dirigir os carros de corrida. A maioria desses pilotos se saiu mal e alguns desagradáveis incidentes ocorreram, inclusive um fatal. Restaram, contudo, cinco alemães que foram selecionados para uma prova final, ao lado do inglês Dick Seaman e do suíço Christian Kautz.

O teste aconteceria com os Mercedes de 1935, um carro bastante difícil de ser pilotado. Durante os testes, um dos candidatos voou para fora da pista, o carro incendiando-se em seguida. Neubauer, com seu habitual zêlo, achou que seria perigoso chegar muito perto do carro caso o tanque de combustível explodisse. Então, pediu um revólver com o qual deu dois tiros no tanque que, felizmente, provou estar vazio.

A Mercedes então decidiu que sua equipe de pilotos para 1937 seria formada pelos veteranos Caracciola, Lang, Brauchitsch, Seaman e Kautz, como reserva.

A Auto-Union, por sua vez, havia escolhido Rosemeyer, Stuck, Hasse e Muller (o mágico das motocicletas DKW), enquanto a Ferrari Alfa-Romeo teria Nuvolari, Brivio, Farina, Tadini e Pintacuda.





Nesse ínterim, o Departamento de Corridas da Mercedes tinha trabalhado duro e por volta do final de fevereiro o novo Mercedes Grand Prix modelo 1937 fez sua aparição em Monza para testes. Caracciola, Lang, Brauchitsch e Seaman deram várias voltas e pareceram bem satisfeitos com o novo carro, logo ficando claro que a temporada se tornaria um duelo entre os dois times alemães, com a Alfa-Romeo sendo irremediavelmente superada.

Ao contrário do que geralmente se acredita, não houve acordo entre as duas equipes alemãs a respeito de quem venceria, ficando evidente que a rivalidade entre ambas foi possivelmente maior do que seria caso estivessem competindo contra outra nação.

O importante é que a temporada de 1937 produziu algumas das melhores e certamente mais rápidas corridas de automóveis jamais vistas.

(do livro Motor racing with Mercedes-Benz, de George Monkhouse)

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