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Pais e Filhos 28.01.08


A temporada 2008 da Fórmula 1 marcará a estréia do 28º representante brasileiro na categoria: Nelson Angelo Piquet. Diferentemente de outros pilotos, sua chegada vem acompanhada de certa expectativa, dada a sua “linhagem” nobre. Ele será o primeiro filho de um brasileiro campeão a participar de um Grande Prêmio. Além disso, Nelsinho Piquet é o 13º filho de ex-piloto a correr F1, um fato não tão comum até há pouco tempo, mas que se acentuou bastante dos anos 90 para cá. Para se ter uma idéia, até 1990, apenas três filhos de pilotos haviam disputado uma prova na categoria.

Aos dois anos, Nelsinho no cockpit da Williams de seu pai
Tim Parnell, Hans-Joachim Stuck e Teddy Pilette foram os pioneiros, nos anos 60 e 70, mas não obtiveram grande destaque. O alemão, filho de Hans von Stuck, foi o mais bem sucedido, permanecendo na Fórmula 1 por seis anos e conquistando alguns pódios. Mas ficou na sombra do pai, estrela da Auto Union na era pré-F1. Reg Parnell e André Pilette tiveram apenas rápidas passagens pela categoria, mas conseguiram resultados melhores que seus filhos.

Depois de mais de dez anos, uma nova leva de pilotos com pedigree desembarcaria na categoria logo no começo dos anos 90. Os primeiros, entretanto, não chegaram a fazer história. Gary e David Brabham, filhos do tricampeão Jack, correram por equipes pequenas e não conseguiram muito destaque. Dizer que Gary correu de Fórmula 1, aliás, é mero registro estatístico. Com a equipe Life, a mais fraca da categoria na época, o australiano teve sua participação resumida a dois treinos de pré-qualificação. No primeiro, marcou apenas uma volta cronometrada, quase 30 segundos atrás de uma EuroBrun, o carro mais próximo. No segundo, nem uma volta chegou a completar.

O irmão David até que foi mais longe, com duas temporadas: a primeira em 1990 pela moribunda Brabham, fundada por seu pai, mas ironicamente já distante de qualquer glória. A segunda, quatro anos depois, pela malfadada Simtek. Nunca largou em posição melhor que a 21ª e nunca chegou além de 11º. Mesmo no generoso regulamento atual, que distribui pontos a rodo, David jamais teria pontuado.

Em 1992, Christian Fittipaldi estreou na Fórmula 1 pela Minardi, na tentativa de reviver os bons tempos de seu pai Wilson e do tio, Emerson. Campeão da F3000 no ano anterior, chegou bem cotado à principal categoria do automobilismo mundial, mas não vingou. Disputou três campeonatos, marcou alguns pontos, sofreu alguns acidentes – um deles bastante sério em Magny-Cours, no qual fraturou duas vértebras; outro circense mas sem conseqüências em Monza –, mas mudou o foco de sua carreira para os Estados Unidos quando se viu sem opções.



O pequeno Damon observa o bicampeão Graham Hill nos pits
Quem chegou com pinta de estrela e protagonizou um dos maiores fiascos da história recente foi Michael Andretti. Campeão da Indy, filho do lendário Mario Andretti, chegou pela porta da frente, como companheiro de Ayrton Senna na McLaren em 1993. Bateu, rodou, saiu da pista, fez fiasco e foi expurgado por Ron Dennis logo depois de subir ao pódio em Monza. O norte-americano não só não se adaptou à Fórmula 1 como também não fez nenhum esforço para isso. Manteve sua residência na América do Norte, testou muito pouco e voava para os autódromos apenas às vésperas de cada Grande Prêmio. Não tinha como dar certo.

Mas nem só de maus exemplos vive a história dos filhos das pistas. Damon Hill, filho do bicampeão Graham, chegou à categoria um tanto desacreditado em 1992, guiando uma Brabham à beira da falência. Num golpe de sorte, ganhou de presente uma vaga no melhor carro da época quando Nigel Mansell brigou com Frank Williams e fez as malas rumo à América. Como já era piloto de testes da equipe, aproveitou o conhecimento que tinha do carro para fazer uma boa temporada de estréia, com três vitórias consecutivas na reta final do campeonato. No ano seguinte, assumiu a liderança do time após a morte de Ayrton Senna e converteu-se num dos maiores vencedores da década de 90, protagonizando duelos com Michael Schumacher. Damon chegou à F1 tarde, com mais de 30 anos, não tinha a velocidade e a impetuosidade características da juventude, mas sabia extrair o melhor do carro quando as condições lhe eram favoráveis.

Jacques passeia de moto com seu pai, Gilles
E foi assim que conquistou um título mundial, em 1996, quando a Williams sobrou como nunca. Seu adversário naquela temporada foi seu companheiro de equipe, um canadense de sobrenome famoso que estreava na categoria. Jacques Villeneuve, assim como Michael Andretti, era filho de uma lenda do automobilismo, foi campeão nos Estados Unidos e ingressou na Fórmula 1 pela porta da frente. Mas, diferentemente do norte-americano, fez um extenso trabalho de adaptação, guiando a Williams por semanas a fio no autódromo português do Estoril. O resultado veio logo, com o campeonato mundial conquistado em 1997. Assim como Damon Hill, Jacques nunca foi uma unanimidade e não tinha o mesmo talento natural de seu pai, mas conseguiu o feito de dar à família um título mundial, conquista da qual Gilles se viu privado pelo destino.

Outro piloto tragicamente morto que deixou herdeiros foi Manfred Winkelhock, promessa alemã dos anos 80. Seu filho, Manfred, disputou apenas uma prova de Fórmula 1, no ano passado em Nürburgring. Mesmo com uma fraca Spyker, liderou a corrida por algumas voltas graças a uma tática acertada de box. Correndo no DTM atualmente, não há indícios de que deva retornar à categoria, mas pelo menos fez boa figura em sua rápida participação.

Keke e Nico Rosberg nos anos 80
Em 2008 , haverá três herdeiros em atividade na F1, um recorde. Além de Nelsinho Piquet, os companheiros de equipe Williams Nico Rosberg e Kazuki Nakajima trazem nomes conhecidos à categoria. Nico, filho do campeão Keke e campeão da GP2 em 2005, já é um piloto experimentado e inicia sua terceira temporada pela equipe inglesa. Ao que tudo indica, deve ser uma das estrelas do futuro próximo da Fórmula 1. Kazuki, filho do folclórico Satoru Nakajima, disputa sua primeira temporada completa e deve impressionar pela velocidade. O japonês participou de apenas uma prova até agora, no GP do Brasil do ano passado, e fez jus à fama do sobrenome, que virou sinônimo de piloto atrapalhado graças a seu pai. Atropelou um mecânico durante seu segundo pit stop.

Como se vê pela história, sobrenome conhecido não é garantia de destaque na Fórmula 1. Apenas dois pilotos com tais características conseguiram títulos mundiais e apenas dois, atualmente, despontam como promessas. Se Nico e Nelsinho fizerem nas pistas pelo menos metade do que Keke e Nelson fizeram nos anos 80, já temos garantia de um espetáculo de altíssimo nível.

Ivan Capelli

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