Assistia há algumas semanas o programa “Juca Entrevista”, na ESPN Brasil, edição na qual o âncora Juca Kfouri entrevistava Flavio Gomes. Os assuntos corriam soltos, papo vai, papo vem, e eis que uma pergunta do entrevistador me fez prender a respiração. Desafiou o Juca: “Você poderia demonstrar para o telespectador que a Fórmula 1 é mesmo um esporte?”.
Flavio saiu-se com uma boa resposta, elencando as características de uma competição esportiva: tem vencedor, tem segundo colocado, tem regras, os pilotos são atletas, etc. Fez até uma boa analogia com o hipismo: “O montador não está sobre um cavalo? No automobilismo é igual, a diferença é que é uma máquina”. “E são vários cavalos”, eu completaria com minha habitual infâmia. Felizmente, não era o convidado do programa.
Mas a questão em si é muito importante. Ela causa um choque à primeira vista porque é algo que nem passa pela cabeça de quem vive mergulhado no automobilismo. A resposta parece tão óbvia e estamos tão envolvidos em torno do assunto que nem chegamos a questionar isso seriamente. É um esporte e pronto. Mas quando ela surge, nos retira da zona de conforto e nos faz olhar ao redor. O horizonte se amplia, a cabeça dá voltas. E você começa a pensar que imagem o automobilismo está transparecendo para quem não está tão envolvido, para que alguém como Juca Kfouri possa ter chegado a formular tal questão.
E a partir daí, alguns cenários começam a se desenhar. Há o purismo teórico, que defende que o automobilismo não é esporte porque a vitória ou a derrota não dependem apenas do atleta. Ele pode ser o melhor do mundo, mas se não estiver em um bom carro, não vence. Há também a crença de que esporte existe para aprimoramento físico e que as corridas em si não aprimoram o físico de ninguém. Pelo contrário, o “atleta” precisa se preparar por meio de outros esportes para aí sim poder correr. Mas não é sobre este viés que enfoquei meu pensamento, mas sim sobre a seguinte questão: “O que a Fórmula 1 tem feito para que pareça não ser um esporte?”.
A partir desse pensamento, o que vem à mente são muitos fatos desagradáveis. Punições questionáveis, critérios duvidosos, interesses milionários, grandes marcas envolvidas, mais recentemente casos de espionagem... e ainda, o maior dos males: a competição feroz descambada para a total falta de fair play.
A FIFA, no controle do futebol, faz questão de usar o fair play como bandeira. Premia os times mais disciplinados, estimula ações de cordialidade entre os adversários, faz disso parte importante do marketing do futebol. Em qualquer partida isso pode ser notado. Ainda que a contragosto de muitos (inclusive da UEFA), o jogador que não colocar a bola para fora de campo para acelerar o atendimento a um adversário machucado fica malvisto e sujeito a vaias. Recentemente, o Ajax de Amsterdam marcou um gol sem querer no RKC Waalwijk, nessas circunstâncias. Como pedido de desculpas, o time todo ficou paralisado em campo na saída de bola, permitindo que o adversário marcasse um gol e empatasse o jogo. Quantas vezes vimos algo semelhante na Fórmula 1 nos últimos tempos?
Japão 89, Senna e Prost segundos após a batida
Nenhuma, e o que existe são lembranças de Alain Prost espremendo Ayrton Senna na chicane de Suzuka para ser campeão, é Senna devolvendo a gentileza ao jogar o francês para fora no ano seguinte, é Michael Schumacher tirando Damon Hill do GP da Austrália de 1994 e depois tentando repetir o feito sobre Jacques Villeneuve três anos depois, é Fernando Alonso chantageando seu chefe para conseguir privilégios na equipe, são equipes pedindo desclassificação das adversárias nos tribunais, é recurso pra lá, recurso pra cá...
Uma corrente defende que “sempre foi assim”, o que não é verdade e que também não seria um atenuante, caso fosse. Houve um tempo em que o automobilismo e o esporte se reconheciam. E o maior exemplo de fair play da história tem nome e título de nobreza: Sir Stirling Moss.
Conhecido como o “campeão sem título”, Moss na verdade só permaneceu sem título porque quis. E porque sua força de caráter não permitiu. Em 1958, com Vanwall, o britânico disputava o título da temporada com seu compatriota Mike Hawthorn. Durante o GP de Portugal, antepenúltima etapa do campeonato, Hawthorn saiu da pista logo à frente de Moss. Para poder retornar à corrida, empurrou sua Ferrari no sentido contrário à pista. Voltou e concluiu a prova em segundo lugar. Mas os comissários portugueses desclassificaram o ferrarista por ter infringido o regulamento. Andar no sentido contrário sempre foi veementemente proibido.
Hawthorn em Portugal 58
Hawthorn entrou com recurso para recuperar os pontos, mas o resultado dificilmente seria revertido, a menos que surgisse alguma respeitável testemunha de defesa. E ela apareceu. Stirling Moss, curiosamente o maior interessado na desclassificação do piloto da Ferrari, prontificou-se em defendê-lo. Ele estava muito próximo do local do acidente e viu que o colega realmente empurrara o carro no sentido contrário, mas por fora da pista. Assim, uma manobra perfeitamente legal. Moss testemunhou em juízo, Hawthorn foi absolvido e reestabelecido na liderança do campeonato. Foram sete pontos decisivos e que fizeram de Moss vice-campeão pelo quarto ano consecutivo.
Estranho? Anormal? Pode ser, para os padrões atuais. O caso de Stirling Moss é o retrato de uma época em que o mérito valia mais do que a vitória. “De que adianta uma vitória desonrada?”, questiona até hoje Sir Stirling. Você consegue imaginar Michael Schumacher defendendo Damon Hill, ou Fernando Alonso provando a comissários que Lewis Hamilton não tinha culpa por uma manobra considerada ilegal? Houve tempos em que o fio de bigode valia mais que um contrato assinado.
É claro que as coisas não mudaram apenas no automobilismo, o mundo inteiro mudou. Mas a Fórmula 1, como microcosmo do capitalismo global e sua competição selvagem, dá os exemplos mais nítidos de deturpação de valores, arrogância e falta de esportividade que se pode ter. É o esporte que amamos, mas que tem seus graves defeitos e que se apresenta para quem o observa com frieza como qualquer coisa que se possa imaginar. Menos um esporte.