Desde 1985, a Porsche é a marca mais vitoriosa da história da mítica 24 Horas de Le Mans. Naquele ano, ela chegou a dez triunfos e superou a Ferrari, que havia obtido nove vitórias. O recorde foi aumentando nos anos seguintes até chegar a 16 vitórias em 1998.
Nenhuma dessas vitórias, entretanto, foi tão sofrida quanto a obtida em 1977. Naquele ano, a equipe oficial de fábrica, denominada Martini Porsche, inscreveu dois protótipos 936 (idênticos ao que vencera a corrida no ano anterior) para as duplas Jacky Ickx/Henri Pescarolo e Jurgen Barth/Hurley Haywood, além de um 935 (modelo de competição baseado no 911 Turbo) para Rolf Stommelen/Manfred Schurti. Contra a Porsche, os adversários mais fortes estavam em um esquadrão de Renault Alpine (três inscritos pela Renault Sport e dois de equipes particulares) e em dois Mirage-Renault.
Nos treinos, o Renault de Jean-Pierre Jabouille/Derek Bell estabeleceu a pole position, com o Porsche de Ickx/Pescarolo em terceiro. Logo no começo da prova, o Porsche de Barth/Haywood caiu para o 41º lugar, após uma longa parada no box. Mas as coisas pareciam sob controle: a liderança era ocupada por Ickx/Pescarolo e, logo nas primeiras horas, os Renault Alpine começaram a abandonar por problemas diversos.
Ao cair da noite, a Porsche começou a se preocupar. Uma falha na suspensão tirou da prova o 936 de Ickx/Pescarolo e, quase ao mesmo tempo, Stommelen/Schurti pararam por pane no motor. Partiu-se para o plano B: naquela época, o regulamento permitia a inscrição de um mesmo piloto em dois carros de uma mesma equipe. E assim Ickx passou a formar trio com Barth e Haywood, que já vinham recuperando posições.
Começo de prova em Le Mans 1977, o Porsche seguido pelo Renault - Clique para ampliar
O tratamento de “superstar” reservado a Ickx era mais do que merecido. Rapidíssimo e extremamente habilidoso, o belga é até hoje um dos maiores nomes da história das corridas de carros esporte e protótipos, além de ter mostrado suas habilidades na Fórmula 1, onde foi duas vezes vice-campeão. Durante a madrugada, o Porsche 936 foi subindo de posição. Às 9h30 da manhã de domingo (portanto, a seis horas e meia da bandeirada), assumiu a liderança. Tudo parecia ter voltado ao normal.
Parecia, apenas. Faltava menos de uma hora para o final quando o motor do 936 começou a soltar nuvens de fumaça branca. Uma parada no box e descobriu-se que um pistão havia quebrado. Nessa altura, o Porsche estava mais de vinte voltas à frente do o segundo colocado, o Mirage-Renault de Vern Schuppan/Jean-Pierre Jarier. Mesmo que o líder não voltasse à pista, seria impossível ao Mirage descontar a vantagem antes de se completarem as 24 horas. O problema é que, pelo regulamento, o Porsche precisaria dar pelo menos mais uma volta para receber a bandeirada e ser considerado vencedor.
Era impossível saber se o carro completaria mais uma volta com o motor tão seriamente avariado. Poucos minutos antes do final, o motor foi acionado e Barth saiu dos boxes com o turbo desligado. O piloto alemão fez toda a última volta sem passar dos 80 km/h e demorou cerca de dez minutos para percorrer os 13,8 km do circuito - a melhor volta da prova havia sido de Ickx, com 3:36.5. O carro recebeu a bandeirada soltando muita fumaça pelo escapamento, mas a missão estava cumprida: a Porsche, mais uma vez, havia vencido em Le Mans.