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Corridas d’Angola 02.04.08


Largada para a 6 Horas de Nova Lisboa de 1971. Hoje, parece assutador, mas na época Jan Balder considerou o circuito de rua como um dos mais seguros que havia visto.
Falar em automobilismo na África é algo que parece fora da realidade hoje. Daquele continente, praticamente só se lêem nos órgãos de comunicação brasileiros notícias sobre pobreza, guerras civis e terrorismo. De vez em quando, alguma matéria em cadernos e revistas de turismo. Em comum entre umas e outras, a quase ausência de reportagens feitas com uma visão equilibrada e sem recorrer a estereótipos.

É uma pena que seja assim. Para quem gosta de corridas, o continente africano proporciona numerosas referências. Atualmente, a mais forte é o Rali Dakar, cancelado neste ano para evitar ataques terroristas. Anos atrás, seriam o GP da África do Sul de Fórmula 1 e os ralis Safári, no Quênia, e Bandama, na Costa do Marfim, que integravam o Campeonato Mundial de Rali. Os mais atentos lembram que a decisão do Mundial de F1 de 1958 aconteceu em Marrocos, em um circuito nas ruas de Casablanca. E havia corridas nas colônias portuguesas de Moçambique e Angola. Esta última tinha um automobilismo forte o suficiente para se sustentar durante muito tempo com eventos locais. Alguns deles entraram para a lenda do automobilismo português.

A elite de Angola tinha muito mais portugueses que angolanos - e isso se refletia nas listas de inscritos das corridas, com maioria absoluta de portugueses residentes no país. As provas mais importantes tinham presença de “metropolitanos” (como eram chamados os que moravam em Portugal). Em 1971, foi organizada a primeira corrida internacional do país, a “6 Horas de Nova Lisboa”. Depois da independência, Nova Lisboa voltou a ter seu nome original, Huambo.

O BMW de Mário 'Nicha' Cabral/Hans Stuck, vencedor da 6 Horas de Nova Lisboa de 1971.
Jorge Sá, português radicado no Brasil desde 1975, passou boa parte da juventude em Angola e comparecia a todas as corridas que pudesse. “Huambo parava quando acontecia a ‘6 Horas’. Aliás, todas as cidades paravam quando havia alguma prova. Também faziam-se corridas em Lobito, Sá da Bandeira, Moçâmedes, Novo Redondo e Benguela. Eram circuitos de rua demarcados daquela maneira bem básica da época: pneus, fardos de palha e arquibancadas tubulares. Enchiam até não caber mais gente”, recorda Jorge, sem esconder a saudade. “Muitos faziam como eu: viajavam durante horas para assistir às provas. Era uma grande festa.”

As corridas eram parecidas com as que o Brasil tinha nessa mesma época, com protótipos e carros de turismo de diversas marcas e níveis de preparação, todos correndo juntos. “Tinha uns loucos com muita grana”, recorda Jorge Sá. “Havia um Ford GT 40 que era pilotado por um cara chamado Emílio Marta. E muitos Mini Cooper preparados, Austin Healey, Saab, Alfa Romeo GTA.” O próprio Jorge Sá chegou a participar de provas em Lobito. Com um Subaru 1200, fez algumas corridas em 1972 ou 1973 - o ano exato ele não recorda. “Terminei um rali em 10º lugar e fiquei em quarto ou quinto numa prova realizada no circuito.”

O Porsche 907 pilotado por Norman Casari/Jan Balder na 6 Horas de Nova Lisboa de 1972.
Foi nessas corridas que Jorge Sá, como inúmeros portugueses, criou enorme admiração por Mário “Nicha” Cabral, que no final da década de 1950 havia se tornado o primeiro português a correr na F1. “O Nicha era sempre mais rápido que os outros. Fazia as curvas de um jeito muito particular, que ninguém imitava: freava um pouco antes das curvas e, uma vez dentro dela, controlava no acelerador”, descreve.

O livro “Nicha”, escrito por Adelino Diniz e lançado em Portugal, tem um capítulo especial para as corridas de Angola. Uma das passagens mais saborosas rememora a “rivalidade” entre Nicha e António Peixinho, um português que disputou em 1967 a Mil Milhas Brasileiras, em Interlagos, pelo Team Palma. Nicha era contratado pelo representante local da BMW, enquanto Peixinho defendia o importador da Alfa Romeo. Os proprietários das importadoras, segundo Peixinho, “eram dois meninos ricos que não sabiam guiar, mas queriam ser conhecidos por estar nas corridas de automóveis”.

Ahrens de Novais, com um Porsche 904 GTS, seguido por Nicha Cabral (Lotus Elan) em Luanda, em 1968. Foto tirada do livro 'Nicha'.
Nicha e Peixinho tinham cada um sua torcida e a suposta rivalidade alimentava o interesse pelas corridas. “Suposta” porque, na verdade, os dois pilotos eram grandes amigos. Promocionalmente, porém, tornara-se conveniente alimentar em Angola a idéia de que os dois pilotos eram inimigos ferrenhos. “Até trocávamos frases desagradáveis na imprensa. (...) Entretanto, eu e o Nicha divertíamo-nos na corrida e, depois, à noite, íamos jantar os dois às escondidas!”

Os brasileiros também marcaram presença em Angola. Jan Balder e Norman Casari participaram duas vezes das 6 Horas de Nova Lisboa. Todas as despesas de transporte e estadia eram pagas pelo Sporting Clube de Huambo, organizador da prova. Em 1971, com um Lola T70 do próprio Casari, a presença da dupla limitou-se a quatro voltas nos treinos: o motor travou, bloqueando o eixo traseiro e quase causando um acidente. “Saí reto pela área de escape e por muita sorte não bati em nada”, lembra Balder em seu livro “Bastidores do automobilismo brasileiro”. Na oficina, o mecânico da dupla, Manoel, abriu o motor e descobriu uma biela torta. Não havia outra para substituição. “No desespero, fomos até uma rádio local para comunicar nosso problema, na tentativa de conseguir uma biela. Voltamos para a oficina e presenciamos uma cena fantástica: uma fila de pessoas com bielas na mão, mostrando, uma a uma, as peças ao Manoel, que gentilmente agradecia o esforço de todos os que queriam ajudar a dupla brasileira e torcer por ela. Apareceram bielas de todos os tipos e tamanhos, mas nenhuma de Chevrolet V8.”

Rivais e amigos: António Peixinho, com Alfa Romeo GTA, seguido por Nicha Cabral, com BMW 2002 Ti, no circuito de rua de Luanda. Foto do livro 'Nicha'.
Balder e Casari decidiram fazer de tudo para alinhar no grid, movidos não apenas pela vontade de correr, mas também pelo desejo de retribuir a atenção que recebiam do Sporting Clube de Huambo. Primeiro, foram até o setor de manutenção de uma fábrica de cerveja para tentar desentortar a biela. Sem chances: o aço estava totalmente destemperado e sequer ameaçava voltar ao lugar. Sem poder contar com o Lola, os dois pilotos decidiram tentar alugar um carro. Alguém lembrou-se de um Ford GT 40 que não estava inscrito naquela corrida. “Era madrugada e acordamos o proprietário para negociar o aluguel. Nossas economias davam justo e saímos animados para a casa do diretor de prova, Armando de Lacerda. Ele saiu de pijama, sentou conosco no jardim de sua casa e comentou com lágrimas nos olhos: ‘Vocês são bárbaros e não desistem mesmo. Mas infelizmente as inscrições se encerraram e não posso aceitar um carro não inscrito. Preciso obedecer às normas da FIA.’”

No caminho de volta ao hotel, alta madrugada, a derradeira tentativa: Balder e Casari viram um Porsche 911 numerado e inscrito para a “6 Horas”. “Acordamos o dono e ele ficou bravo pelo incômodo. Nem quis saber de papo. Estávamos definitivamente fora da corrida”, relata Balder. Casari contentou-se em pilotar o carro-madrinha e Balder, câmera fotográfica em punho, ficou assistindo à corrida. De volta ao Brasil, escreveu uma reportagem de duas páginas para a revista “Auto Esporte”.

Largada da corrida de inauguração do Autódromo Internacional de Luanda, em 1972. Foto do livro 'Nicha'.
A vitória nessa corrida foi do BMW de Nicha Cabral/Hans Stuck. Balder conheceu Stuck nessa viagem e deu boas risadas ao lado do piloto alemão. Juntos, foram a uma discoteca. Mesmo sem falar uma palavra de português, Stuck “deu em cima” de todas as belas garotas negras que freqüentavam o lugar. Norman Casari fez programas diferentes: recém-casado com a atriz Tânia Scher, aproveitou a viagem para curtir uma lua-de-mel.

Em 1972, Balder e Casari foram novamente convidados para disputar a 6 Horas de Nova Lisboa. Estavam sem carro (o Lola T70 havia sido destruído por um incêndio no ano anterior, durante um treino em Interlagos), mas os organizadores alugaram um Porsche 907 da equipe suíça Wicky Racing Team. Seu proprietário, o suíço André Wicky, participaria da corrida também como piloto, em outro Porsche, modelo 908.

No primeiro treino, Casari deu algumas voltas para se ambientar ao traçado e, para espanto de todos, estabeleceu um incrível recorde de volta. “Os cronometristas erraram nosso tempo em 10 segundos”, esclarece Balder. Logo em seguida, André Wicky pediu uma reunião. “Ele se entusiasmou tanto que queria mudar as cláusulas do nosso contrato para ficar com o prêmio de chegada, caso houvesse. Respondi que o direito do prêmio era do Automóvel Clube de Huambo, que havia alugado o carro.” No segundo treino, Balder/Casari melhoraram seu tempo real e conquistaram o quinto lugar no grid, entre 20 carros inscritos.

Imagem rara: o Lola T70 de Jan Balder/Norman Casari em uma das quatro voltas percorridas nos treinos para a 6 Horas de Nova Lisboa de 1971. Foto do arquivo de Armando de Lacerda, publicada no fórum do www.autosport.pt.
Na volta de apresentação, o pneu traseiro vazou e a equipe o encheu com um produto de vedação, novidade na época. Casari manteve o quinto lugar e depois cedeu o volante a Balder. “Com quase metade da prova, começou a jorrar óleo no pára-brisa. A luz de pressão começou a acender e parei no box. O reparo foi feito com uma cola no radiador, e era difícil acreditar que vedasse naquele calor. Mas o motor resistia e continuei na corrida, tentando recuperar a quinta posição”, conta Balder. A corrida dos brasileiros acabou quando um pneu traseiro furado provocou uma batida em uma guia. Balder conseguiu se arrastar até o box, mas não havia conserto possível. “O pior é que o volante da direção girou na minha mão e meu dedo virou uma bola. Doía bastante”, lembra o piloto.

Ainda em 1972, foram inaugurados dois autódromos em Angola: o Internacional de Luanda e o de Benguela. Ambos construídos segundo os padrões mais modernos da época - o primeiro teve suas obras visitadas por Emerson Fittipaldi. Funcionaram até 1975, ano em que vieram a independência e, junto, a guerra civil, causada pela eclosão do conflito entre o MPLA (Movimento Popular pela Libertação de Angola), de esquerda, e a Unita (União Nacional pela Independência Total de Angola), apoiada pelos Estados Unidos e África do Sul. Um acordo de paz foi assinado em 1991 e eleições foram realizadas em 1992. O MPLA saiu vencedor, elegendo o presidente José Eduardo dos Santos. Derrotado nas urnas, o líder da Unita, Jonas Savimbi, promoveu ações de guerrilha e provocou nova guerra civil. A paz só seria alcançada em 2002, com a morte de Savimbi (em uma emboscada preparada pelo exército angolano) e a transformação da Unita em partido político.

E o automobilismo, como ficou? Os últimos relatos dão conta de que os autódromos estão abandonados ou sucateados. Mas uma busca na internet revela atividades recentes com carros, motos e karts. As corridas voltaram, mas por enquanto não há sinal de que haja alguma movimentação para recolocar Angola na rota do automobilismo internacional - até porque o país tem assuntos bem mais importantes a resolver.





Traçado do Autódromo Internacional de Luanda, projetado pelo brasileiro Ayrton Cornelsen e inaugurado em 1972.
A “culpa” desta coluna é de duas pessoas. Um é Jorge Sá, companheiro de coberturas do Porsche GT3 Cup Challenge Brasil. O outro é Eduardo Guimarães, titular do blog Cidadania.com (edu.guim.blog.uol.com.br) e criador do Movimento dos Sem-Mídia - cujo objetivo é desmascarar as manipulações levadas a cabo pelos veículos de comunicação brasileiros e dar voz aos que não se sentem representados pela chamada “mídia comercial”. Em fevereiro, Eduardo fez uma viagem de negócios a Angola e colocou em seu blog uma série de textos e fotos sobre o país. Vale a pena lê-los.

Da mistura dos relatos destes rapazes - um a quem conheço pessoalmente, outro a quem admiro via blogosfera -, nasceu a idéia desta coluna. Aos dois, meu agradecimento pela sugestão involuntária.

Visite o blog do Pandini: www.pandinigp.blogspot.com

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