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| » » » 11.02.08 |
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| Não confie em memória de piloto |
11.02.08 |
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Em dezembro próximo, completarei 20 anos de cobertura jornalística de automobilismo. Naquele final de 1988, entrei pela primeira vez em um autódromo imbuído da função de jornalista. Acompanhado/orientado pelo mestre Luiz Carlos Lima, fui a Interlagos para cobrir duas competições: o Campeonato Brasileiro de Kart Sênior, no kartódromo, e a final do Brasileiro de Stock Car, no autódromo.
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| As cores do Fittipaldi, aqui em sua estréia, Argentina 75 |
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Uma das primeiras lições que aprendi - na prática e também aconselhado pelo Luiz - foi “não confie em memória de piloto”. Logo nas primeiras entrevistas que fiz, percebi uma tendência alarmante a ouvir dados e datas que simplesmente não batiam com a realidade. Na época, isso me chocou. Depois, passei a entender melhor as coisas. Para os pilotos, um dia no autódromo é algo como um dia no escritório. Aos olhos do público, a corrida é um acontecimento marcante e memorável; para um piloto, é uma rotina de trabalho, que pode ou não ficar guardada na memória - isto é algo que varia de pessoa para pessoa. Pode parecer absurdo, mas é muito comum jornalistas e fãs lembrarem mais das carreiras dos pilotos do que eles próprios.
Conheci alguns pilotos cuja memória é bastante confiável. Raul Boesel, Chico Serra, Ingo Hoffmann, André Ribeiro e Gil de Ferran estão entre os que raramente cometem enganos ao comentar detalhes de suas carreiras. Wilsinho Fittipaldi chega perto disso, mas às vezes dá seus escorregões. Em 2000, entrevistei-o para escrever uma reportagem para a revista “Auto Esporte” sobre o destino dos carros construídos pela equipe Fittipaldi. A conversa aconteceu por telefone - eu em São Paulo, ele nos Estados Unidos, onde acompanhava o filho Christian na abertura da temporada da Fórmula Indy. Entre muitas outras coisas, todas respondidas com precisão, perguntei-lhe por qual razão a equipe mudou a cor de seus carros de prateado para amarelo.
- Foi por causa da entrada da entrada da Skol como patrocinadora - respondeu Wilsinho.
- Mas estou perguntando antes disso, quando a Copersucar ainda era patrocinadora - retruquei, pensando que não havia me expressado bem. A resposta foi inacreditável:
- Nunca teve Copersucar amarelo. Só mudou com a chegada da Skol.
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| Com Emerson, na Inglaterra 77 |
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Pensei em fazê-lo ver que houve Copersucar amarelo, sim. Mas, como se tratava de uma entrevista por telefone, ainda por cima ligação internacional, preferi seguir adiante e fazer outras perguntas. Mais tarde, não pude deixar de pensar no quanto pode ser perigoso confiar integralmente na fonte, por mais abalizada que ela seja. Na época, eu era professor de jornalismo em uma faculdade de São Bernardo do Campo e usei isso como exemplo para meus alunos. (A resposta à minha pergunta foi dada depois por Sid Mosca, o artista responsável pela pintura dos carros da Fittipaldi. A mudança do prata para o amarelo teve como objetivo dar mais destaque ao carro da equipe brasileira nas imagens de televisão.)
O caso acima ilustra uma simples confusão de memória. Mas existem pilotos que exageram seus feitos. Alguns, inclusive nomes consagrados, distribuem currículos “turbinados” com títulos e vitórias simplesmente inexistentes. Durante muito tempo, uma jogada bastante comum foi inventar campeonatos regionais a partir de provas de campeonatos brasileiros: o cidadão se apresenta como “campeão paulista”, “campeão carioca” ou “campeão do torneio Rio-São Paulo” de uma categoria qualquer, aproveitando o fato de ter somado mais pontos nas provas disputadas nessas praças - ainda que tais torneios jamais tenham existido de fato.
Tudo isso veio à minha cabeça ao ler a carta de um leitor do GPtotal, Thomas Rodrigo Carvalho Ribeiro, perguntando sobre um piloto chamado José Manoel Camacho. Rodrigo “ouviu falar” que Camacho correu na Nascar em 1999 e foi companheiro de equipe de Keke Rosberg na Fórmula 1 em 1980.
Bem, conheci pessoalmente o simpático José Manoel Camacho. Em 1989, ele disputava o Campeonato Paulista de Fórmula Super 1600 (uma espécie de “Fórmula Livre” aberta a monopostos de Fórmula Ford e de categorias extintas como Fórmula 2 Brasil, Fórmula Fiat e até Fórmula Super-Vê) e o Campeonato Brasileiro de Fórmula Ford. Corria em ambos com o mesmo carro, um JQ. No Paulista, Camacho conquistou alguns terceiros e quartos lugares, mas era muito raro as corridas da Super 1600 terem mais que dez ou doze carros - alguns pré-históricos, ou extremamente mal cuidados, ou ambos. Na Fórmula Ford, Camacho andava entre os últimos colocados. Além de correr por uma equipe pequena e ser mais velho que a média dos pilotos, enfrentou naquele ano jovens talentosos como Tom Stefani (o campeão da temporada), Rubens Barrichello, André Ribeiro, Pedro Paulo Diniz e outros.
Dois anos depois, em 1991, eu estava em Guaporé para cobrir a última corrida da temporada de Fórmula Ford para o Jornal da Tarde. Na época, o “JT” não circulava aos domingos, de maneira que no sábado eu desfrutava de uma relativa tranqüilidade, pois não precisaria escrever nem mandar matéria.
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| Com o patrocínio na Skol, na Áustria 80 |
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O ônibus que levaria os jornalistas ao hotel só sairia do autódromo no final da tarde. Depois do treino classificatório, fiz as entrevistas de praxe, circulei pelos boxes e só depois voltei para a sala de imprensa, onde os colegas terminavam seus trabalhos. Fiquei conversando com o pessoal até ter minha atenção despertada por um papel que pendia de uma das máquinas de escrever. Nele, li o título: “O último da Fórmula Ford já correu na Fórmula 1”. “O último”, no caso, era Camacho, que havia feito o pior tempo entre os 22 ou 23 pilotos que participariam da corrida.
O autor do texto era um competente repórter de esportes amadores, daqueles que conhecem profundamente seu métier. Prefiro omitir seu nome verdadeiro e chamá-lo, apenas para facilitar a narrativa, de José. Eu o havia conhecido naquela viagem e descobri que ele gostava de automobilismo, acompanhava as corridas, mas não tinha intimidade com o meio.
Ao ler o título da matéria, fiquei na dúvida entre “meter minha colher” ou ficar quieto no meu canto. Com alguma relutância, acabei pedindo a José para ler seu texto. Achei que ele recusaria: havíamos nos conhecido naqueles dias, eu era de um veículo concorrente e o texto ainda não havia sido enviado para o jornal no qual ele trabalhava. Mas José confiou em mim e consentiu a leitura.
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| Com Keke Rosberg, no Brasil 81 |
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Poucas vezes fiquei tão estarrecido ao ler um texto sobre automobilismo. Camacho contou a José que havia estreado na Fórmula 1 em 1980, pela equipe Lola, e que naquele mesmo ano correu na Fittipaldi ao lado de Keke Rosberg. Deixou as pistas após sofrer um grave acidente no GP da Alemanha e ficar 41 dias hospitalizado (nessa altura, não pude deixar de notar a semelhança com a história de Niki Lauda). Cereja do bolo: segundo Camacho, a vaga na “equipe Lola que competiu na F1 em 1980” fora conseguida por meio de um... curso de pilotagem. A história prosseguia: depois de se recuperar do “grave acidente ocorrido no GP da Alemanha de 1980”, Camacho escolheu a Fórmula Ford para voltar a correr. Queixou-se da falta de patrocínio, da impossibilidade de preparar melhor seu carro e até da falta de motivação para melhorar a forma física diante da “obrigação” de correr em condições tão precárias.
José procurava um personagem interessante entre os pilotos e, ao entrevistar Camacho, ouviu a história acima. Qual jornalista deixaria de publicá-la? O problema é que, nesse caso, a fonte traiu pesadamente o interlocutor - e somente o próprio Camacho poderia esclarecer se fez isso por lapso de memória, por maldade ou por ser muito brincalhão. Expliquei a José que, fora o nome do piloto, poucas coisas ali correspondiam aos fatos. Argumentei: “Nenhuma equipe Lola correu na F1 em 1980. Naquele ano, a equipe Fittipaldi teve somente Emerson e Keke Rosberg como pilotos, e nenhum outro. Além disso, não aconteceu nenhum acidente grave no GP da Alemanha de 1980”.
Naqueles tempos pré-internet, a fonte de consulta mais utilizada pelos jornalistas para dirimir dúvidas sobre estatísticas e resultados de Fórmula 1 era o conhecido Marlboro Guide, um opúsculo com cerca de 1000 páginas, chamado de “Marlborão” por alguns colegas e de “Bíblia” por outros. Todas as redações tinham o seu. José pareceu não acreditar muito nas minhas ponderações e resistiu a meu conselho de jogar fora aquele texto. Entendi perfeitamente sua posição: quem poderia garantir que minha intenção não era sabotar seu trabalho? Sugeri que ele ligasse para a redação e pedisse a algum colega para consultar o “Marlborão”. Foi o que ele fez e, evidentemente, ninguém encontrou José Manoel Camacho - nem na equipe Lola (que, repito, não existia na temporada de 1980), nem na Fittipaldi. Também não havia qualquer registro de acidente grave no GP da Alemanha.
Meu colega ficou puto da vida e pediu que eu fosse com ele ao box de Camacho. Queria que eu contestasse, de bate-pronto, qualquer outra ficção que viesse a ser contada. José expôs, um a um, todos os “buracos” contidos na história. Camacho não se deu por vencido: “corrigiu” suas declarações informando que correra pela Lola e sofrera o acidente na Alemanha, mas correndo de Fórmula 3000. Eu, que até então havia ficado quieto, perguntei: “Isso foi em 1980?”. “Sim!”, foi a resposta.
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| Camacho e seu JQ de Fórmula Ford, em foto publicada no Anuário Veloz 88 89 |
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Fiz um sinal para José, nos despedimos do piloto e, assim que saímos do box, ouvi a pergunta, feita em tom esperançoso de quem ainda acreditava que a matéria poderia ser salva: “E aí?”. “E aí nada”, respondi. “Ele disse que o acidente aconteceu na F3000 em 1980, mas a F3000 só foi criada em 1985. Esquece esse cara”. Foi o que José fez - e pelo jeito um monte de gente também, porque eu nunca mais ouvi falar de José Manoel Camacho. Daí a minha surpresa ao ler a carta do leitor, perguntando sobre a “participação” de Camacho na F1 e na Nascar.
No dia em que escrevo esta coluna, 7 de fevereiro de 2008, o site de buscas Google registra três ocorrências para o termo “José Manoel Camacho”. Uma delas é a própria pergunta de Thomas Rodrigo publicada no GPtotal. Mesmo assim, faço o convite: se alguém tiver registro irrefutável da participação de José Manoel Camacho no Campeonato Mundial de Fórmula 1, por favor entre em contato com o GPtotal. Teremos prazer em publicá-la. Mas atenção: só vale a apresentação in loco de documentos e fotos originais.
Luiz Alberto Pandini
Visite o blog do Pandini: www.pandinigp.blogspot.com
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