Carros ou mulheres? Se o pedido de escolha fosse dirigido ao ator estadunidense Steve McQueen, provavelmente a resposta seria “carros”. Não que ele não gostasse de mulheres: casou-se três vezes em seus 50 anos de vida. Mas, para McQueen, as máquinas e as corridas eram o que havia de mais importante. Provavelmente, mais até do que o cinema.
Em 1970, Steve McQueen já era um astro do cinema e um dos atores mais bem pagos da época. Naquele ano, obteve seu resultado mais expressivo em uma prova internacional. Pilotando seu próprio Porsche 908/2 em parceria com Peter Revson, terminou em segundo lugar na 12 Horas de Sebring, prova válida pelo Campeonato Mundial de Marcas. Resultado surpreendente, já que o 908/2 teria poucas chances de disputar a vitória com os Porsche 917, Ferrari 512S e Alfa Romeo T33/3. Uma série de incidentes, porém, quase deu a vitória à dupla McQueen/Revson. Eles só não ganharam porque dias antes o ator havia contundido o pé esquerdo em uma corrida de motocross e as dores eram muito fortes. Em conseqüência, Revson pilotou durante 9 das 12 horas de corrida. À beira do esgotamento físico e com um carro bem menos potente, foi ultrapassado por Mario Andretti, que dividia uma Ferrari com Ignazio Giunti e Nino Vaccarella, na última volta. Naquele mesmo ano de 1970, McQueen venceria duas corridas com o 908/2, em Phoenix e Holtville.
McQueen e Revson em Sebring 70
Ainda em 1970, a Solar Productions, produtora de filmes pertencente ao próprio McQueen, inscreveu o 908/2 na 24 Horas de Le Mans. A pintura branca de Sebring deu lugar deu lugar a uma decoração em azul escuro e a carenagem foi alterada para que fossem adaptadas três câmeras, duas apontadas para a frente e uma para trás. Pilotado por Herbert Linge e Jonathan Williams, este carro tinha uma única função na corrida: captar imagens para o filme “Le Mans”, produzido, dirigido e estrelado pelo próprio McQueen. Este pretendia participar com um Porsche 917K da John Wyer Automotive (a famosa equipe patrocinada pela Gulf) em dupla com ninguém menos que Jackie Stewart. Mas a seguradora de McQueen vetou: achou que ele estava indo longe demais em seu destemor. Le Mans era considerada uma corrida extremamente perigosa (o acidente da edição de 1955, em que morreram mais de 80 pessoas, ainda era uma lembrança mais ou menos recente) e a seguradora considerou que um eventual acidente de McQueen resultaria em um altíssimo valor a ser pago, dada sua condição de estrela de cinema em pleno auge.
O Porsche 908 de Linge e Williams usado nas filmagens de Le Mans
Pressionado também pela Warner, pela qual era contratado como ator, McQueen contentou-se em acompanhar a corrida e fazer as cenas nos boxes. Em “Le Mans”, McQueen interpreta o estadunidense Michael Delaney, que pilotava justamente os 917K da equipe de John Wyer. Seu maior rival no filme é um piloto alemão da Ferrari, Erich Stahler (interpretado por Siegfried Hauch). Mesmo sem ser tão bom quanto “Grand Prix”, outro clássico de Hollywood ambientado em corridas de automóveis, “Le Mans” vale por retratar uma época fascinante das corridas de esporte-protótipos.
Terence Stephen McQueen escapou por pouco da marginalidade. Ainda jovem, passou uma temporada em um reformatório. Aos 17 anos, engajou-se na Marinha, onde ficou durante dois anos. Saiu e sobreviveu como porteiro e mecânico. Chegou a ganhar a vida aliciando mulheres para trabalhar em um bordel. Foi descoberto para o cinema em 1955, quando tinha 25 anos (nasceu em 24 de março de 1930 em Beech Grove, no estado de Indiana) e trabalhava como frentista em um posto de gasolina. Daí em diante, fez vários filmes de sucesso: “Sete homens e um destino” (1960), “Fugindo do inferno” (1962), “Bullitt” (1968), “Papillon” (1973) e “Inferno na torre” (1974).
O Porsche pilotado por McQueen Na corrida de verdade, ele quebrou
McQueen tinha vários carros e motos em casa - de todos os tipos, desde potentes carros esporte e de competição até um simples buggy com motor VW. A paixão pelas máquinas provocou o fim de seus dois primeiros casamentos. Em 1956, McQueen levou uma multa por excesso de velocidade na viagem de lua-de-mel com sua primeira mulher, Neile Adams. Neile separou-se de McQueen em 1970, pouco depois do término das filmagens de “Le Mans”. Entre 1973 e 1976, o ator viveu com Ali McGraw. E estava com Bárbara Minty quando morreu em 7 de novembro de 1980, de um tipo raro de câncer no pulmão. Vinte anos antes, havia definido suas prioridades com a seguinte frase: “Prefiro passar uma manhã com Stirling Moss do que uma noite com Marilyn Monroe”. Para Steve McQueen, as corridas eram tudo.
Versão original, com informações que não entraram na edição final, de texto publicado na revista Clubnews número 14 (dezembro 2003-Janeiro e Fevereiro 2004). Clubnews é a revista do Porsche Club Brasil e da Stuttgart Sportcar, importadora oficial da marca. Veja outras edições em www.porsche.com.br).