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| » » » 29.10.07 |
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| Bons papos: Boesel e Serra |
29.10.07 |
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| Chico Serra, Fittipaldi F8-Cosworth, Monaco 1982 |
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Estive em Interlagos durante todo o final de semana do GP do Brasil de Fórmula 1, mas para mim o contato visual com a categoria se resumiu ao último treino livre de sexta-feira e ao classificatório de sábado. Ocupado com os trabalhos de divulgação do Porsche GT3 Cup Challenge Brasil, uma das categorias que fizeram preliminar com a F1 (a outra foi o Maserati Trofeo), passei o resto do tempo correndo para cima e para baixo fazendo entrevistas, colhendo dados para a cobertura da prova para a revista oficial da Porsche, a Clubnews, e colocando em dia o papo com os amigos que sempre aparecem nessas horas.
Se eu vi a F1? Sim, pelo melhor lugar: a TV, ao lado de meu filho Gabriel, que - apesar de torcer por Alonso - vibrou tanto quanto eu com a conquista de Kimi Raikkonen. Quem quiser saber minhas razões para a torcida por Raikkonen pode conferi-las aqui (http://pandinigp.blogspot.com/2007/10/toro-pelo-gorila.html#links) e aqui (http://pandinigp.blogspot.com/2007/08/este-o-campeo-mundial-de-2007.html#links).
Curti muito o final de semana. A corrida da Porsche (http://porsche.com.br/gt3cup/index.php) antecedeu a F1 e foi um aperitivo e tanto para o público que já lotava Interlagos. Uma disputa sensacional entre os brasileiros Ricardo Baptista e Tom Valle e o francês Olivier Maximin foi transmitida ao vivo pela Rádio Band News (cujo som era ouvido nas arquibancadas) e, minutos mais tarde, em TV pela SporTV. Baptista, atual campeão da temporada, andou um bom tempo na frente de Maximin e Valle, resistindo aos fortes ataques dos dois, até receber um leve toque na traseira na Curva do Laranja e cair para terceiro. Meia volta depois, a três do final, Valle tentou ultrapassar Maximin no S do Senna e ambos colidiram, deixando a vitória para Baptista. Fiz as entrevistas e fui direto para a casa de minha mãe, onde estava o Gabriel. Lá, enviei release e fotos da corrida.
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| Boesel, GP do Brasil de 1982, March 821-Cosworth |
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No paddock das categorias preliminares, a trabalho, estavam dois brasileiros que correram na Fórmula 1 na mesma época: Raul Boesel, diretor esportivo do Porsche GT3 Cup, e Chico Serra, que exerce o mesmo cargo no Maserati Trofeo. Em um dos raros momentos “calmos” do final de semana, sentamos os três para uma enterevista. Eu queria saber suas impressões sobre a decisão da temporada de 2007 e as diferenças da categoria em relação ao começo da década de 1980.
Chico correu na F1 entre 1981 e 1983, cumprindo suas primeiras temporadas na Fittipaldi e fazendo meio ano na Arrows, até que uma polpuda verba de patrocínio levou a equipe a optar pelo belga Thierry Boutsen. Boesel, por sua vez, correu na March em 1982 e na Ligier em 1983. Os carros pouco competitivos que pilotaram impediram que eles conseguissem resultados à altura de seus talentos, mas abriram portas para conquistas em outras categorias: Boesel foi campeão mundial de Esporte-Protótipos em 1987, pela Jaguar, e Serra conquistou o tricampeonato brasileiro de Stock Car (1999-2000-2001).
Enquanto procurávamos um local bucólico e silencioso para o bate-papo (acreditem, não foi difícil conseguir), Raul e Chico conversaram e deram risadas sobre um episódio que foi ao ar no Jornal Nacional, na sexta-feira que antecedeu o GP do Canadá de 1982: uma briga em que eles trocaram socos e pontapés. Chico tinha certeza de que Boesel o havia atrapalhado de propósito naquela que seria sua melhor volta do final de semana - sem ela, o piloto da Fittipaldi não conseguiu se classificar para a largada. Boesel, por sua vez, afirmou: “Se fiz isso, foi sem intenção. Não é do meu feitio”. Eram amigos antes disso - e logo voltaram a ser depois.
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| Panda, Serra e Boesel em Interlagos |
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“Vi esse negócio há poucas semanas. Dei muita risada...”, disse Chico. Reação idêntica à de Boesel: “São coisas que acontecem, e que temos que passar por cima e voltar às boas”. (Quem quiser conferior, pode clicar aqui:http://br.youtube.com/watch?v=Mx4681a9DVI).
Em seguida, começou o papo “sério”, feito todo antes da corrida de domingo. Portanto, algumas especulações já foram superadas, mas não deixam de ser interessantes.
Em quem vocês apostam para o título e por quê?
Chico Serra – Aposto em Hamilton, Alonso ou Raikkonen (risos). Falando sério, acho que ganha o Hamilton. Além de ter feito uma ótima temporada, tem a vantagem na pontuação e está em posição cômoda. Para mim, é o franco favorito. Mas sempre há a possibilidade de o Alonso “errar uma freada”... E aí o Kimi vence o campeonato.
Raul Boesel – Tenho a mesma opinião que o Chico quanto ao favoritismo do Hamilton, mas gostaria que o Alonso vencesse. A McLaren favoreceu o Hamilton e algumas punições aplicadas a outros pilotos foram obscuras, muito mal explicadas.
CS – O Alonso mostrou muita força. Tanto se manteve forte que está disputando o título. Discordo dessa análise típica dos torcedores, de que o Hamilton “cravou” no Alonso. O Hamilton é um fenômeno e acho que seu título seria mérito dele, e não um demérito para o Alonso.
E quanto ao Kimi?
RB – Ele começou ganhando, mas decepcionou um pouco na primeira metade da temporada. Está na disputa pelo título por circunstâncias, não por performance pura.
CS – O Kimi demorou para se entrosar na Ferrari. Depois, ele veio muito bem. Além disso, a Ferrari “pisou na bola” em algumas estratégias. Certamente a equipe sentiu falta do Ross Brawn e do Schumacher. Menos do Schumacher como piloto e mais dele como elemento centralizador, motivador. A Ferrari não teria feito tantas trapalhadas se o Ross Brawn estivesse lá.
Como vocês vêem a categoria hoje? Qual é a comparação inevitável que vocês fazem com a época em que correram lá?
CS – Tecnicamente, a Fórmula 1 é incomparável com qualquer outra categoria. O que existe de melhor no automobilismo está nela: pilotos, equipes, motores, pneus, tecnologia, patrocinadores... Sempre foi assim. O Raul correu anos na Indy, foi campeão mundial de protótipos, e eu fiz uma corrida em cada uma dessas categorias. Tenho certeza de que ele concorda comigo (NdR: Boesel, nesse momento, acena positivamente com a cabeça.) A evolução que os carros tiveram é fantástica. Mas hoje estive no paddock da F1 e detestei o que vi. Todos, sem exceção, são muito estrelas. Até os mecânicos, normalmente pessoas facílimas de conversar, se acham do outro mundo.
RB – A Fórmula 1 mudou muito, até em função da audiência. No começo da década de 1980, a audiência de F1 na TV era concentrada na Europa, América do Sul e Estados Unidos. Hoje, ela tem presença forte na Ásia e em alguns países de outros continentes. Isso traz muito mais investimentos, com tudo o que isso tem de bom e de ruim.
CS – É isso mesmo. Na nosssa época, uma equipe razoável de F1 tinha orçamentos de US$ 5 milhões a US$ 10 milhões. Hoje, a Ferrari, equipe de ponta, gasta mais ou menos US$ 800 milhões por ano. Tem piloto de testes com salário anual de US$ 3 milhões...
O que chama minha atenção é que muita gente acha que a F1 de - digamos assim - “antigamente” era mais equilibrada. Mas na época de vocês era comum a diferença entre o pole position e o último colocado do grid atingir faixas de de cinco, oito, às vezes mais de dez segundos. Nos últimos cinco, seis anos, várias vezes foram vistas diferenças de dois ou três segundos entre a pole de uma Ferrari e a última colocação de uma Minardi...
CS – É verdade. Isso tem explicação: hoje, qualquer equipe tem telemetria e acesso à eletrônica. Isso permite chegar rapidamente às melhores soluções e ajuda a tornar os desempenhos muito mais próximos. Antes, era tudo no olhômetro e a equipe tinha que ter o gênio da vez para desenhar o carro certo. Isso não acontece mais.
RB – E antigamente todo o desenho do carro era responsabilidade de uma única pessoa, o projetista. Hoje, as equipes trabalham com profissionais específicos para desenhar cada peça.
E o caso de espionagem entre Ferrari e McLaren? Pergunto especialmente ao Chico, que trabalhou com o Ron Dennis na F3 e na F2 (OBS: Chico era piloto da Project Four Racing, equipe de Dennis nas categorias de base. Vem daí o “P4” aplicado aos modelos da McLaren após o “M” do nome da própria equipe). Ele seria capaz de, deliberadamente, roubar idéias de outra equipe?
CS – Acho que não, porque a chance de isso vir à tona seria muito grande e o Ron não “daria a cara para bater”. A coisa começou porque o cara da Ferrari (Nigel Stepney) queria ser promovido. Como não foi, começou a passar informações à McLaren. Depois que o caso ganhou corpo, o Ron colocou o carro dele à disposição da FIA para análise.
RB – A verdade é que espionagem, de um modo ou de outro, sempre teve. As equipes sempre pediam para os fotógrafos fazerem imagens dos pontos-chave de outros carros. No caso da McLaren, foi uma oportunidade muito rara. As informações caíram nas mãos deles e devem ter pensado: “Vamos ao menos dar uma olhada, ver o que estão fazendo de diferente”. É uma outra situação. Antes, os boxes eram bem menores que hoje e os carros ficavam expostos durante todo o final de semana. Hoje, ficam cobertos e protegidos, até por seguranças...
E sobre um suposto favoritismo da McLaren ao Hamilton? Vocês acreditam nisso?
CS – Em termos de equipamento, não. Qualquer equipe tem condições de fornecer o mesmo material a seus dois pilotos. O Rubinho e o Massa sempre tiveram o mesmo equipamento que o Schumacher. A pendência por um ou outro fica por conta das cabeças pensantes da equipe, e essas prioridades é que podem fazer a diferença.
RB – Eu discordo um pouco do Chico neste aspecto. Sempre pode haver favorecimento em algo que quem está de fora não tem como saber do que se trata. Basta ver a história da calibragem dos pneus do Alonso no Japão e na China: deixaram o carro dele dois décimos mais lento nos treinos e acabaram com as corridas dele.
Para terminar: qual é a melhor recordação que vocês têm de seus tempos da F1?
Nesse momento, Chico se levanta e pega a cadeira, como se fosse bater com ela em Raul, relembrando a briga de 1982. Este dá risada e os dois saem andando, conversando sobre outros assuntos.
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