Eu me lembro como se fosse hoje. Sábado, 8 de maio de 1982. Naqueles tempos, os treinos classificatórios para os GPs ainda não eram transmitidos ao vivo. O público “comum” - onde eu me inseria, com meus 14 anos incompletos - precisava esperar o programa de esportes da hora do almoço ou o jornal do horário nobre para saber quem largaria na pole position e como havia sido o desempenho dos pilotos brasileiros.
Gilles Villeneuve saindo dos boxes no dia 8 de maio de 1982.
Por tudo isso, manhãs de vésperas de GP eram propícias para ir à praia, se o clima permitisse. E foi o que fiz naquele sábado ensolarado de 8 de maio. Ao voltar para casa, já perto da hora do almoço e do programa de esportes, minha irmã falou: “Tenho uma péssima notícia para você. O Gilles Villeneuve sofreu um acidente grave e está clinicamente morto”.
Eu nunca havia ouvido falar em "clinicamente morto". Durante algum tempo, alimentei a ilusão de que ele poderia sobreviver. O programa de esportes da TV deu a notícia, mas não tinha imagem do acidente. Precisaria confirmar com Reginaldo Leme, mas creio que a fita ainda não havia chegado ao local de onde seria transmitido o sinal para a emissora de TV aqui no Brasil. Fiquei atento à TV durante as horas seguintes até que, já no final da tarde, a programação foi interrompida para que entrasse o plantão informativo. Gilles estava morto. Junto com a notícia, a imagem do acidente, mostrando o corpo do canadense sendo ejetado de sua Ferrari.
Chorei. Eu torcia por Nelson Piquet, mas também por Gilles. E, desde que havia começado a gostar de corridas, nunca havia experimentado uma sensação de perda tão grande. Mas jamais cogitei parar de assistir aos GPs, nem passou pela minha cabeça uma bobagem do tipo “sem Gilles, a Fórmula 1 acabou, não tem mais graça, não vou mais ver”.
Em 1992, dez anos depois, eu já era jornalista formado e cobria automobilismo no Jornal da Tarde. Sugeri ao editor de esportes, José Eduardo de Carvalho, uma reportagem especial sobre os dez anos da morte de Gilles Villeneuve, a ser publicada na sexta-feira, 8 de maio. Edu deu sinal verde e deixei a matéria pronta com dois dias de antecedência: minha folga cairia na quinta-feira, dia 7, e nesse dia eu estava em Interlagos para aulas práticas do curso de pilotagem da Alpie Racing School.
Houve um momento em que a liberação da pista sofreu um atraso repentino. Ficamos todos no box, dentro do cockpit. Algum dos alunos-pilotos, entre brincando e falando sério, reclamou da demora. Bem humorado, o comissário responsável respondeu: “Relaxa, cara. Faz que nem o Piquet: nessas horas ele até dorme aí dentro...”.
Piquet em Indianapolis em 1992.
Terminada a aula prática, fui à sede da Alpie Racing School, perto do autódromo, e fiquei um bom tempo conversando com Aldo Piedade, ex-piloto e dono da escola. Mencionei o ocorrido na pista e Aldo lembrou-se de uma corrida de Super-Vê que havia presenciado, com uma bela disputa entre Piquet e Alfredo Guaraná. “Era bonito ver os dois guiando, duas tocadas muito técnicas”, descrevia Aldo.
De lá, liguei para a redação da “Folha de S. Paulo”. Conversei com a Alessandra Alves, que naquele dia trabalhava normalmente, e comecei a contar empolgado como havia sido a aula prática. A certa altura, ela me interrompeu:
- Pelo jeito, você ainda não está sabendo...
- Sabendo do quê?
Somente nesse momento fui informado de que Nelson Piquet havia esmigalhado as pernas ao bater no muro de Indianapolis durante os treinos livres para a 500 Milhas. Naquele momento, o jornalista profissional sumiu: passei algumas horas tão triste quanto o adolescente de dez anos antes.
No dia seguinte, 8 de maio, viajei a Porto Alegre para cobrir uma etapa do Campeonato Sul-Americano de Fórmula 3 em Tarumã. Não cheguei a ir para a redação e por isso comprei o “Jornal da Tarde” no aeroporto. Evidentemente, minha matéria sobre Gilles Villeneuve não estava lá. Foi “derrubada”, como se diz no jargão jornalístico, para abrir espaço para a cobertura do acidente de Piquet.
Tudo isso fez as datas 7 e 8 de maio terem uma conotação nada agradável para mim. Mas nada que me faça sair chorando ou fazendo homenagens por aí. Já atravessei muitos 7 e 8 de maio como se fosse um dia qualquer. Acontecimentos como os de 1982 e 1992 fazem parte da vida, mas nos últimos anos descobri pasmo que nem todo mundo aprende a lidar com eles.
A idolatria a Gilles Villeneuve atravessava as fronteiras do Canadá e da Itália, onde ele era adorado não apenas por guiar para a Ferrari, mas também pelo estilo exuberante (muitas vezes irresponsável, reconheço hoje) de pilotar. Mesmo no Brasil, Gilles tinha tantos fãs que nas chamadas para a transmissão da corrida seguinte, em Mônaco, o locutor lembrava ser um GP “cujo último vencedor foi Gilles Villeneuve”.
Algumas pessoas, principalmente as que não viveram aquela época, não compreendam a razão de Gilles ter sido tão popular em todo o mundo. Sugiro a leitura do Especial do GPtotal, escrito em 2002 (por ocasião dos 20 anos da morte de Villeneuve), e assistir a alguns vídeos no Youtube, como este.