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Home » Colunas » Luiz Alberto Pandini » 28.07.06
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Prisão, Depredações e Cabeçadas 28.07.06
A história a seguir foi publicada na primeira edição do "Boletim (de Ocorrência) Stock Car". Inspirado no "Red Bulletin" da equipe Red Bull de Fórmula 1 ? veja mais no blog www.pandinigp.blogspot.com, nota "Red Bulletin la, Boletim (de Ocorrência) Stock Car aqui, de 5 de julho).

Por questões de espaço, o texto publicado na revista teve alguns cortes. Celebrando o início da parceria entre o GPtotal e o Boletim (de Ocorrência) Stock Car, publicamos abaixo a versão na íntegra e sem cortes. (LAP)


Antônio Carlos Avallone, sem capacete, leva seu carro para o grid. A confusão ia começar.
Categoria top do automobilismo nacional. Fórmula 1 brasileira. Caminho para a Nascar. Quinta melhor categoria de turismo do mundo. Durante seus 27 anos de existência, a Stock Car foi classificada e comparada de diversas maneiras, quase sempre elogiosas. Mas momentos bizarros e até de baixaria pura também fizeram parte da história da Stock.

Nos primeiros anos, a Stock foi animada por corridas empolgantes, espetáculos de pilotagem, folclores diversos e até manifestações de amizade e camaradagem. Como a bondade da raça humana tem seus limites, houve também rivalidades exacerbadas, tentativas de sabotagem e acusações de formação de "complôs". Boicote também fez parte do cardápio: em 1979, vários pilotos retiraram suas inscrições na etapa de Cascavel. Sobraram cinco carros e, para que a corrida acontecesse, foram admitidas duas inscrições de última hora ? sendo uma delas a de um Opala de rua, original de fábrica, equipado com teto de vinil, faróis de milha e ar condicionado.

A imprensa repercutia e até os sisudos "jornalões" paulistanos e cariocas abriam grandes espaços para o automobilismo nacional. Na TV, o espaço também era privilegiado. Em 1979, a Stock era noticiada no "Fantástico"; no ano seguinte, a Rede Bandeirantes passou a mostrar o VT das provas no domingo à noite, e a partir de 1981 as transmissões passaram a acontecer ao vivo - algo poucas vezes visto no automobilismo nacional até então. E foi pela transmissão ao vivo que alguns milhares de telespectadores acompanharam as confusões de uma prova realizada em Interlagos, em junho de 1981.

Além da Stock, a programação incluía uma prova de Turismo 5000, categoria paulista criada naquele mesmo ano para abrigar sorvedouros de combustível como Maverick, Dodge e Galaxie. A "crise do petróleo" de 1973 fez desabar o valor desses carrões: hoje disputados a peso de ouro por colecionadores, em 1981 eles eram vendidos a preços ridiculamente baixos, mesmo que estivessem em perfeito estado de conservação. Isso motivou a criação de uma categoria regional só para eles ? e foi um sucesso.

Auge da confusão: Avallone (à esquerda, com o macacão aberto) discute com os policiais.
Antônio Carlos Avallone, um veterano piloto, construtor de carros de corrida e de réplicas de carros esporte, organizador de corridas, advogado, jornalista e ex-deputado federal (sim, ele realmente já havia feito tudo isso em sua vida), voltara a correr no ano anterior na Stock e foi um dos primeiros a aderir à Turismo 5000. Era um dos nomes mais importantes do automobilismo nacional, mas naquele domingo parecia ter acordado com o diabo no corpo. Chegou a Interlagos e, sabe-se lá por qual razão, discutiu com um segurança ao entrar nos boxes. Em seguida, sentou-se em seu Opala e alinhou na última fila do grid da Stock, deixando nos boxes o Dodge Charger R/T que pilotaria mais tarde na corrida da Turismo 5000.

Transmissão no ar, carros prontos para partir, um fiscal se aproxima de Avallone e avisa que ele não poderia largar porque... não estava inscrito na corrida. Avallone não teve dúvidas: "costurou" o grid (era quase tão grande quanto os de hoje) e, ante espectadores e telespectadores perplexos, atravessou o Opala na frente de todos: "Então, ninguém vai largar!".

Confusão instalada, muitas discussões, público reagindo com protestos, assobios e vaias. Orlando Casanova, presidente da então Federação Paulista de Automobilismo (atual Federação de Automobilismo de São Paulo), sugere: "Deixem ele correr e depois resolvemos isso. Não podemos atrasar a largada, tem TV ao vivo...". Avallone volta para o fundo do grid e, aparentemente, só então Casanova é informado de que o causador daquele sauceiro não estava inscrito na corrida. Diante disso, Casanova ordena a retirada de Avallone do grid. Fiscais voltam ao carro de Avallone, que novamente atravessa o carro na frente de todos os concorrentes para impedir a largada. Mais desordem, até que Avallone finalmente leva o Opala aos boxes.

A corrida começa e, quando os líderes estão completando a primeira volta, Avallone sai dos boxes. É rapidamente alcançado pelo pelotão e acaba atrapalhando todo mundo. Um piloto, Sidney Alves, deixa a corrida de lado e passa a bater no carro de Avallone, até atirá-lo contra um guard-rail. Com seus carros bastante danificados, Avallone e Sidney entram nos boxes ? o primeiro sob vaias, o segundo sob aplausos. Carmine Maida, presidente do CTDN (Conselho Técnico Desportivo Nacional), acompanhado por um policial militar, dá voz de prisão ao piloto, que não se intimida: "Quem tem que ir preso é você!". O policial, aturdido, simplesmente não sabe a qual pedido de prisão deve atender e pede humildemente que os dois cheguem a uma conclusão. Finalmente, Avallone entra em um camburão e é levado para uma delegacia. Dias depois, a Federação anuncia sua suspensão por seis meses. No box, ficaram o Opala e o Dodge, depredados pelos vândalos que sempre aparecem nessas horas.

Acabou? Não - esqueceu-se que a corrida continuava? Uma disputa pela liderança entre Denísio Casarini (um dos melhores motociclistas do Brasil, recém-convertido à Stock Car) e Waltemir "Bolão" Spinelli (piloto folclórico, na época bastante próximo de banqueiros do jogo do bicho) foi terminar nos boxes, depois da corrida. "Bolão" atingiu o nariz de Denísio com uma cabeçada, violenta a ponto de a vítima ter que baixar no hospital.

Reinaldo Campello, vencedor da corrida, à frente de Ingo Hoffmann.
A esta altura, talvez você esteja perguntando quem ganhou a corrida. Os baderneiros ofuscaram a vitória de Reinaldo Campello - cujo talento ao volante era proporcional à capacidade de conseguir bons patrocínios, de promover a categoria e, também, à obsessão de fazer o regulamento ser cumprido nos mínimos detalhes, mesmo que isto causasse transtornos, brigas e intrigas. Naquele dia, entretanto, Campello esteve calmo, discreto e afastado das polêmicas. Só não foi um coadjuvante porque, afinal de contas, venceu a corrida.



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