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Espernearam à toa. 29.03.06
Barrichello e Schumacher no GP da Áustria de 2002, antes da inversão de posições.
Parece que já faz muito tempo, mas não está tão longe assim. Nas cinco primeiras corridas de 2002 - a última temporada de F 1 disputada antes que a doença das regras insanas contaminasse os dirigentes da FIA e os chefes das equipes -, Rubens Barrichello conseguiu terminar apenas uma, em Imola, em segundo lugar. Nas demais, abandonou uma por acidente (Austrália, em que foi atingido por trás por Ralf Schumacher) e três por falhas mecânicas. Para tornar o cenário ainda mais desfavorável a Barrichello, seu companheiro na Ferrari, Michael Schumacher, venceu quatro daquelas cinco corridas.

O GPtotal, ainda em seus primeiros meses de existência, recebeu nessa época dezenas de cartas, praticamente todas na linha de chamar Barrichello de "Barriquebra" e criticando-o por "não saber poupar o equipamento". O brasileiro era tratado por todos como um verdadeiro braço-duro, uma vergonha para a imagem do Brasil perante o mundo. Enquanto isso, aqui no GPtotal, eu e Eduardo Correa, na época os únicos colunistas fixos do site, defendíamos Barrichello e considerávamos que ele vivia, talvez, seu melhor momento como piloto. Havia abandonado a postura de "menino chorão" e vinha sendo tão rápido quanto Schumacher. Eram pouquíssimos os que concordavam conosco.

Aí, veio o famoso GP da Áustria em que a Ferrari obrigou Barrichello a respeitar o contrato que havia assinado e atendesse às ordens da equipe - o que, naquela corrida, significava dar passagem a Schumacher e entregar-lhe a vitória. Foi o suficiente para que Barrichello passasse a ser defendido pelos mesmos torcedores que o haviam execrado nos meses anteriores. De "quebrador de carro", Barrichello virou subitamente um injustiçado - e a Ferrari tornou-se vilã da história para sempre, ao menos para essas pessoas. Teorias conspiratórias a respeito de que a Ferrari "sacaneava" Barrichello ganharam força: a equipe não apenas favorecia o alemão como ainda por cima dava material de segunda para o brasileiro - era isto o que certos torcedores apregoavam.

(Ressalto que nunca concordei com essas teorias e na época defendi o direito da Ferrari de tomar a atitude mais conveniente para seus interesses, inclusive no caso da Áustria. Releio as colunas que escrevi na 1a quinzena de maio de 2002 - elas ainda estão no ar, bastando clicar no link acima - e constato que não mudaria uma vírgula sequer.)

No ano seguinte, 2003, mais gritaria. A quebra da suspensão da Ferrari de Barrichello no GP da Hungria provocou reações iradas, algumas absolutamente irracionais. Era uma quebra tipicamente causada por uma situação mais comum do que se pensa: o piloto, em vez de passar por cima da zebra, bate nela com a lateral do pneu, muito provavelmente em função de uma saída de traseira. Nesse caso, o impacto é absorvido pelos componentes internos da suspensão, que podem - dependendo da intensidade do choque - entrar em colapso.

Houve quem esclarecesse isto, mas poucos deram ouvidos ou ao menos ponderaram a explicação. Prevaleceu a histeria insuflada pelo locutor de TV, que prometia até "cobrar explicações da Fiat" - dona da Ferrari na Itália, mas cuja filial brasileira não tem qualquer ingerência sobre a marca no Brasil. Nos dias seguintes, a Ferrari divulgou comunicado oficial informando o óbvio (ou seja, que a suspensão havia quebrado por ter sido submetida a esforços não usuais algumas voltas antes). Os histéricos de plantão reagiram: para eles, a Ferrari estava "acusando Barrichello" pela quebra da suspensão - algo que em momento algum foi feito.

As duas histórias acima ilustram à perfeição a ladainha predominante durante os seis anos em que Barrichello pilotou para a Ferrari. A postura muitas vezes equivocada do brasileiro (sobre isso, sugiro ler minha coluna "O real valor de Barrichello, de 3 de agosto do ano passado) e as informações deturpadas oferecidas por parte da mídia resultaram em uma indignação contra "as sacanagens da Ferrari para favorecer o alemão".

O que é que está havendo agora?
Corta para o começo de 2006. Após os primeiros testes na Honda, Barrichello dá entrevistas dizendo que vai lutar para ser campeão do mundo. Que a Honda lhe dá tudo o que precisa. Surgem ainda notícias de que os japoneses vêem nas solicitações de Barrichello uma semelhança muito grande com as que eram feitas por Ayrton Senna. Enfim, muitas promessas e expectativas de grandes desempenhos - as mesmas feitas em 1995, 2000, 2001, 2003 e 2004.

Em Sakhir, no Bahrain, Barrichello dá uma entrevista exclusiva ao jornalista Fábio Seixas, da "Folha de S. Paulo", publicada no dia 11 de março. Somente os dois na sala. A certa altura, Seixas pergunta:

- Em português claro: você foi sacaneado na Ferrari?

- Não - responde Barrichello. Eles sempre me deram equipamento igual. Eu nunca vi o cara (Schumacher) usar uma peça que eu não tivesse. A única coisa é que eles estavam muito mais preparados para o Michael. Ele podia ficar tranqüilo porque a atenção chegava. Ele nunca teve que ir atrás. Eu tinha que ir buscar. Só isso. Nunca fui sacaneado. (Os grifos são meus.)

Durante seis anos, algumas pessoas se descabelaram, se indignaram, se entupiram de raiva e frustração, refutaram qualquer explicação contrária às suas crenças... por nada. Ou melhor: por acreditarem piamente que automobilismo só é nobre quando os brasileiros são os melhores, e só não vencem quando existe alguma conspiração diabólica. Foi assim com a Copa de 1998, foi assim com Barrichello na Ferrari.

Bastou uma entrevista para Barrichello mostrar que todas essas pessoas espernearam à toa.





O desempenho discreto de Barrichello nas duas primeiras corridas de 2006 me pegou de surpresa. Antes da corrida de Bahrain, escrevi em meu blog que o brasileiro teria um bom ano e que, se Button ganhar dele na comparação de desempenhos, "será por estreita margem".

Até agora, os fatos estão longe das minhas previsões. Barrichello admitiu abertamente estar enfrentando problemas de adaptação com os pneus, com o controle de tração, com sabe Deus mais o quê - isso depois de rodar o equivalente a 22 GPs nos dois meses de testes de pré-temporada.

Barrichello já não pode se escorar na "muleta" de correr na mesma equipe do melhor piloto do mundo, nem na de ser claramente segundo piloto da Ferrari (fato, aliás, que ele só admitiu quando não havia outro jeito). Ou ele mobiliza toda sua força interior para se reerguer, ou poderá passar para a história com uma má imagem que, pela competência ao volante, não mereceria.

(LAP)

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