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O Beatle que amava corridas 08.03.06

A capa do LP de 1979. Há quem jure que uma foto do asfalto de Interlagos entrou na composição da imagem.
"O mais famoso fã de Fórmula 1." Assim George Harrison é apresentado na edição de fevereiro da revista inglesa "F1 Racing". A revista reproduz uma entrevista concedida ao jornalista inglês Chris Hockley em 1979. Um documento que captou de maneira excepcional a paixão de George pelas corridas.

George Harrison foi o primeiro Beatle a vir ao Brasil - e o fez não para cantar, mas para assistir ao GP do Brasil naquele mesmo ano de 1979, em Interlagos. O cantor e guitarrista curtiu alguns dias de praia e sol como hóspede de Emerson Fittipaldi na casa que o bicampeão tinha em Guarujá.

A paixão por automobilismo e motociclismo nasceu quando George era criança. Seu pai o levava para assistir corridas no circuito de Aintree, que ficava próximo a Liverpool e sediou alguns GPs da Inglaterra até 1963.
O lado A do compacto: fotos de pilotos.[clique em ampliar]
George tornou-se fã do piloto inglês Geoff Duke, seis vezes campeão mundial nas categorias 500 e 350 entre 1950 e 1955. Foi em Aintree que George assistiu em 1955, com 12 anos de idade, ao seu primeiro GP de Fórmula 1. "Simplesmente gostei", afirmou. "Sempre que havia alguma corrida eu ia para Aintree. Depois, comecei a me envolver com os Beatles, mas continuei sendo um grande fã de automobilismo. Durante a fase dos 'Fab Four', eu ia a Mônaco especialmente para ver os GPs."

Curioso é imaginar George Harrison como um fã "normal", que fotografava tudo com uma câmera barata e escrevia para as equipes pedindo material para colecionar. Pois foi exatamente assim que ele passou sua adolescência. Organizou tudo em álbuns e preservou-os com todo o cuidado até deixar a casa de seus pais.
Lado B: homenagem a Gunnar Nilsson.[clique para ampliar]
Isso aconteceu em 1960, quando George tinha 17 anos e já tocava com John Lennon, Paul McCartney e Pete Best (que em 1962 seria substituído por Ringo Starr). "Eu tinha fotos BRM, Connaught, Vanwall, todas essas coisas. Tenho certeza de que tudo isso está em algum lugar do sótão da casa do meu pai", afirmava George na entrevista publicada na F1 Racing.

Em 1977, George teve a oportunidade de pilotar um Fórmula 1 contemporâneo. O guitarrista acompanhou seu amigo de Barry Sheene, campeão mundial de motociclismo na categoria 500 cm³ em 1976 e 1977 e que testaria um Surtees TS 19 em Brands Hatch. Encerrado o teste, Sheene insistiu com John Surtees que deixasse George dar algumas voltas no carro. George deu algumas voltas no Mercedes de Sheene para conhecer o traçado e em seguida
George Harrison pilotando um Lotus de 1961 no circuito de Donington, em 1979.
assumiu o cockpit do TS 19 usando capacete e macacão emprestados por Surtees e Sheene. Um resumo de suas lembranças: "Não era um carro competitivo. Mas para mim, que nunca havia pilotado, era fantástico! Não andei realmente rápido. Minha primeira preocupação ao sair do box era não deixar o motor apagar. Foi difícil: era muito tênue a diferença entre [acelerar o suficiente para] não deixar o motor apagar e [acelerar demais a ponto de] dar uma rodada. Ao mesmo tempo, eu pensava: 'Como venta aqui...' Só então lembrei de abaixar a viseira! Foi uma sensação ótima".

GP da Inglaterra, 1999: com Mario Illien, da Mercedes-Benz, e Emerson Fittipaldi.
Nessa entrevista, George comenta a visita que fizera poucos meses antes ao Brasil: "Usei o GP como desculpa para ir ao Brasil, simplesmente porque eu nunca havia estado lá. Queria apenas ver como era e, quem sabe, passar alguns dias com Emerson Fittipaldi na praia. E eu realmente gostei do Brasil. Interlagos é um circuito fantástico. É um dos poucos do mundo em que você vê praticamente 90 por cento da pista em um único lugar." (Nota do colunista: evidentemente, George se referia ao traçado original de Interlagos, com quase 8 km de extensão.
George Harrison no GP da Inglaterra de 1977, em Silverstone.
A reforma que deixou o circuito com o traçado atual foi iniciada em novembro de 1989.) Em seguida, Chris Hockley perguntou qual era a pista que George mais gostava. "Falando apenas como espectador, Interlagos é uma ótima pista. Também gostei de Jarama, Paul Ricard e Dijon."

George compareceu a dezenas de corridas de Fórmula 1 e de Fórmula Indy (onde quase sempre era visto ao lado de Emerson Fittipaldi) até os últimos meses de sua vida. Em junho de 2001, esteve em Montreal para assistir ao GP do Canadá - provavelmente o
George Harrison no GP da Inglaterra de 1977, em Silverstone.
último a que compareceu. Cinco meses mais tarde, no dia 30 de novembro, George morreu após uma longa batalha contra um câncer no cérebro.




A visita de George Harrison ao Brasil se deu em moldes que dificilmente seriam vistos nos dias de hoje com os "superstars" em atividade. Ele simplesmente veio e foi ao autódromo. Nenhum esquema especial de divulgação,
GP de Mônaco, 1966: George e sua mulher, Patty, com Jim Clark.
nenhuma entrevista coletiva agendada. Um dos jornalistas que o entrevistaram foi Castilho de Andrade, do Jornal da Tarde. Em sua coluna publicada no GPtotal em 13/01/2005, Castilho conta boas histórias sobre aquela que seria a única visita de George Harrison ao Brasil.



Há quem jure que o asfalto de Interlagos foi usado como fundo para compor a foto da capa do disco "George Harrison", identificado por muitos fãs de corridas como "Faster" -
Surtees TS 19 (aqui, com Vern Schuppan na Holanda, em 1977): o carro que Harrison pilotou em Brands Hatch..
na verdade, uma bela música que homenageia os pilotos de Fórmula 1.

Como nunca consegui confirmação disso, sempre repeti a informação mais na base da lenda do que como verdade. E parece que é mesmo lenda. "George Harrison" foi lançado nos Estados Unidos em 9 de fevereiro de 1979 - apenas cinco dias depois do GP do Brasil daquele ano. Em todo caso, não fechei opinião sobre o assunto: pode ser que uma foto de Interlagos realmente tenha sido usada, mas ela dificilmente teria sido feita durante o final de semana da corrida de 1979.

A música "Faster" foi lançada também em compacto simples, e este é uma peça de colecionador que eu gostaria de ter. A capa mostra George caminhando com Jackie Stewart em algum paddock qualquer. E o vinil é uma verdadeira obra de arte: o lado A, com "Faster", tem retratos de grandes pilotos de Fórmula 1; o B, com a música "Your love is forever", tem uma foto do Lotus de Gunnar
A capa do compacto: na foto, George Harrison e Jackie Stewart. [clique para ampliar]
Nilsson em 1977 - uma homenagem ao piloto sueco morto de câncer (por fúnebre coincidência, a mesma doença que matou George) em outubro de 1978.

No final do ano passado, recebemos do amigo Romeu Nardini (um dos leitores pioneiros do GPtotal: acompanha nossas colunas desde os primeiros dias do site, em 2001) um verdadeiro presente de Natal: o link para o vídeo da música "Faster". Agradeci ao Romeu na época e faço-o de novo aqui. O link é http://media.putfile.com/Faster46.



Encerrando (por hoje) o assunto "Beatles": recentemente, coloquei no meu blog (www.pandinigp.blogspot.com) uma foto dos Fab Four se divertindo com um autorama. Vale a pena dar uma olhada.

Um abraço e bom GP de Bahrain a todos. (LAP)
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