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Pioneiro em duas rodas 10.02.06
Uma das primeiras corridas de Giannini em Interlagos, na década de 1960. Repare no estado do asfalto.
Tive há algum tempo a oportunidade de conversar com um dos primeiros pilotos brasileiros que disputaram um Grande Prêmio válido pelo Campeonato Mundial de Motociclismo. Seu nome é Luiz Celso Giannini, paulistano nascido em 18 de julho de 1947.

Giannini começou a andar de moto aos 13 anos de idade, com uma Monareta comprada em sociedade com o irmão. Depois, trocou-a por uma Mondial 50 cm³ e em seguida passou para uma Silpo 150 cm³. Fez várias corridas em Interlagos e também em diversos circuitos de rua em cidades do estado de São Paulo. “Lembro de uma em Santos em que uma das referências de traçado era uma mancha de óleo em um ponto de táxi”.

Em 1970, Giannini e Adu Celso (leia coluna publicada sobre ele em 16 de fevereiro) partiram para um desafio que nenhum brasileiro – ao menos que se tenha notícia – havia encarado até então: disputar um Grande Prêmio válido pelo Campeonato Mundial de Motociclismo. Não seria uma tarefa fácil. Desde 1954, a CBM (Confederação Brasileira de Motociclismo) estava suspensa pela FIM (Federação Internacional de Motociclismo) devido às falhas de organização do “GP do IV Centenário de São Paulo”, em Interlagos. Contando com a boa vontade de um dirigente espanhol da FIM, Nicolas del Valle, os dois brasileiros puderam se filiar à federação da Holanda e se inscrever nas corridas européias.

Na década de 1960, recebendo o troféu por uma vitória em Interlagos.
“Só decidimos correr na Europa porque o motociclismo estava capengando no Brasil. Durante anos, organizou-se apenas uma ou outra corrida a cada temporada”, explica Giannini. “Chegamos lá e não tínhamos a mínima idéia do que iríamos encontrar.” Hoje, tais palavras parecem exagero. Mas lembre-se que em 1970 a divulgação do Mundial de Motovelocidade era bem menor que a de hoje e restrita à Europa, apesar de países de outros continentes terem recebido GPs em anos anteriores. No Brasil, não havia sequer revistas especializadas em motociclismo.

Na Holanda, Adu e Giannini conseguiram contato com a Yamaha e compraram suas motos. Uma ajuda preciosa partiu de Jan W. F. van Veen, um holandês radicado no Brasil que atuava como diretor técnico da CBM. Ele escreveu as cartas para as autoridades esportivas e pediu à sua filha, que morava na Holanda, que ajudasse os dois pilotos brasileiros no que fosse possível.

“Tínhamos três Yamaha TD”, recorda Giannini. “O Adu corria em duas categorias, 250 cm³ e 350 cm³. Eu só corria na 250. Era uma das melhores motos da categoria na época e desenvolvia 60 cv de potência. Colocávamos as três motos em uma Kombi e íamos para os circuitos.” Uma das primeiras corridas dos dois brasileiros aconteceu em Zandvoort, na Holanda, exatamente o circuito onde eles costumavam treinar. Adu venceu na 250 e Giannini terminou em quinto lugar. “Minha moto tinha um probleminha qualquer no virabrequim e a carburação saía do ponto. Não tínhamos mecânicos: nós fechávamos nosso box e íamos para a largada.” Para ganhar experiência, eles participaram de várias corridas de campeonatos nacionais antes de encarar o Mundial.

Luiz Celso Giannini e sua Yamaha TD 250 em Interlagos, em 1971. A máquina é identica à que ele usou na Europa.
Giannini fez três GPs. O primeiro foi o da Finlândia, em Imatra, um perigoso circuito formado por ruas e estradas. Depois veio o GP do Ulster (Irlanda do Norte), também uma pista de estrada, cujo traçado incluía uma passagem sobre trilhos de trem. E depois viria o GP da Tchecoslováquia, em Brno, na época um circuito de estrada com 23 km de extensão.

“Dei duas voltas no treino e fiquei com o último lugar no grid. Nem tive como memorizar a pista”, recorda Giannini. As condições do piso tornavam as coisas ainda mais dramáticas, especialmente para um piloto estreante: “Havia muito óleo diesel derramado no asfalto e ainda por cima havia uma infinidade de faixas brancas pintadas no chão”. Adu terminou em 15° lugar e Giannini foi o 18° na corrida da 250.

Giannini e a Yamaha TD 250 em uma prova de rua no Brasil.
A carreira internacional de Giannini terminou naquele mesmo ano. Em setembro, haveria uma prova internacional no circuito de rua de Hengeloo, na Holanda. Somente Adu estava inscrito, mas Giannini acompanhou o colega. “O Adu começou a corrida em terceiro lugar. Na quarta volta, não passou mais. Me avisaram que ele havia levado um tombo e fui para o hospital. Ele caiu sentado e comprimiu três vértebras”. Enquanto Adu se restabelecia, Giannini preparou a volta dos dois ao Brasil, embalando motos e bagagens. A intenção era aproveitar a experiência e retornar à Europa em 1972. “O Adu fez isso logo no começo do ano. Eu ia voltar alguns meses depois, mas acabei ficando por aqui. Comecei a correr de automóvel, com um Opala que pertencia ao Carlos Alberto Sgarbi. Terminei em quarto lugar no Torneio Independência, criado para pilotos estreantes e novatos”.

O Polar de Giannini (à frente) durante uma corrida de Fórmula Super-Vê em Interlagos, em julho de 1975.
Em 1975, Giannini começou a correr na Fórmula Super Vê, na época a categoria mais competitiva do automobilismo brasileiro. Percebeu rapidamente que não teria possibilidades contra equipes bem mais ricas e fez em julho daquele ano sua última corrida. Nunca mais voltou às pistas. Hoje, aos 58 anos, Giannini cuida de uma distribuidora de autopeças, a Auto Americano, fundada por sua família há mais de 50 anos e localizada no centro de São Paulo.





Não há registro de que algum brasileiro tenha disputado algum GP do campeonato mundial de motos antes de Adu e Giannini. Sabe-se, porém, que um grupo de pilotos brasileiros disputou na década de 1950 uma prova internacional, a 100 Milhas Argentinas, em Buenos Aires, e que um paulista, Caio Marcondes Ferreira, foi o vencedor. Esta história foi devidamente preservada pelo dirigente-mor do motociclismo nacional, Eloy Gogliano, morto em 1998 e que tinha Caio Marcondes como um ídolo.





Luiz Celso Giannini em seu escritório em São Paulo. A foto foi tirada no final de 2004.
Acho que já contei esta história, mas não custa repeti-la. o primeiro brasileiro a disputar uma corrida de motocicletas no exterior foi... Alberto Santos Dumont. Ele mesmo, o inventor do avião.

Eu já sabia que Santos Dumont (ou Santos-Dumont, como ele assinava) era entusiasta não apenas de aviões, mas de qualquer tipo de máquina. Ainda nos primeiros anos do século 20, ele comprou um De Dion e participou de algumas corridas, o que faz dele, muito provavelmente, o primeiro brasileiro a disputar uma corrida de automóveis no exterior.

Santos Dumont foi também o primeiro brasileiro a correr de motocicleta em solo estrangeiro. E da maneira mais bizarra: ele comprou a máquina, mas não sabia pilotá-la. Tomou umas aulinhas rápidas sabe-se lá com quem, e não é difícil imaginar que estas aulas certamente tinham muito mais a ver com o funcionamento da máquina do que com técnicas de pilotagem. O resultado não poderia ter sido outro: a participação de Santos Dumont foi encerrada com um belíssimo tombo. Fico devendo, pois não consegui achar em lugar nenhum, informações como o local dessa corrida, o ano em que ela aconteceu e a marca da moto comprada por Santos Dumont.





Depois do Flavio Gomes e da Alessandra Alves, é a minha vez de colocar um blog no ar. O endereço é www.pandinigp.blogspot.com. O automobilismo estará presente, é claro, mas outros temas também serão colocados no ar. Aguardo a visita de vocês! (LAP)

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