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| » » » 12.12.05 |
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| Travessuras do Troglodita |
12.12.05 |
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Antes de 2000, ele ainda costumava ser lembrado como “o último campeão mundial pela Ferrari”. Depois que Michael Schumacher tirou a equipe italiana da fila e iniciou sua série de cinco títulos mundiais consecutivos, nem isso. Mas o sul-africano Jody Scheckter, campeão mundial de Fórmula 1 em 1979, parece ser aquele tipo de pessoa que nunca deu bola para a fama ou para o que se pensasse a respeito dele.
Scheckter estreou na Fórmula 1 no GP dos Estados Unidos, última corrida de 1972, com o terceiro carro da McLaren – sim, isso era permitido naqueles tempos. Chegou a andar em terceiro lugar e certamente terminaria entre os seis primeiros se não tivesse problemas mecânicos. Nessa época, Scheckter fazia seu nome na Europa, com vitórias na Fórmula 2, e nos Estados Unidos, onde corria na Can-Am e na Fórmula 5000. No ano seguinte, ele prosseguiria nas duas categorias estadunidenses e, quando não houvesse coincidência de datas, disputaria GPs de Fórmula 1, ainda com o terceiro McLaren.
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| Scheckter à frente de Emerson no GP da França de 1973. A disputa entre os dois terminou em acidente. |
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Foram apenas cinco GPs, suficientes para que Scheckter mostrasse rapidez e agressividade absolutas, aliadas a um atrevimento que poucos novatos de hoje, mesmo os mais boquirrotos, ousariam ter. Isso, mais a origem africana, foi um prato cheio para que ele ganhasse o apelido “Troglodita”. Scheckter fez sua primeira corrida “em casa”, na África do Sul, e chegou a liderar a prova. Depois da corrida, soltou o verbo contra o primeiro piloto da equipe, Denis Hulme, que o segurou nas primeiras voltas.
Isso não seria nada perto do que viria alguns meses mais tarde. Devido aos compromissos nas categorias dos Estados Unidos, Scheckter só voltou ao McLaren em julho, para o GP da França, em Paul Ricard. Largou na primeira fila, assumiu a liderança na largada e, a partir da volta 21, passou a ser atacado por ninguém menos que Emerson Fittipaldi – o campeão mundial reinante.
O brasileiro tentou a ultrapassagem de todas as maneiras e percebeu que só conseguiria com uma manobra agressiva. Arriscou e perdeu: colocou de lado em uma curva de baixa velocidade, mas Scheckter fez sua tomada normalmente, como se não houvesse ninguém ali. O acidente foi inevitável e gerou muita polêmica, com Emerson acusando Scheckter de pilotagem perigosa. Este ouviu tudo calado, mas não se intimidou ao responder: “Eu tinha duas opções: bater sozinho ou entrar por dentro e batermos juntos. Só que eu já havia começado a fazer a curva e não tive dúvidas em manter meu traçado normal”.
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| Corrida de Fórmula 2 no circuito de Chrystal Palace, em 1972. Scheckter e seu McLaren venceram, à frente do Surtees de Mike Hailwood. |
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Na corrida seguinte, em Silverstone, Scheckter iniciou um dos maiores acidentes que a Fórmula 1 já viu. Na segunda volta, ele rodou na curva Woodcote, que antecede a reta dos boxes e na época era feita praticamente a toda velocidade, já que não havia chicane nem curvas sinuosas antecedendo-a. O McLaren ficou parado, atravessado na pista, e recebeu várias das batidas que se seguiram. Mais de dez carros bateram e nove ficaram totalmente destruídos. Scheckter defendeu-se: “Eu não posso ser considerado culpado de um acidente só porque rodei”. Depois disso, Scheckter só voltaria à F 1 no final do ano, no GP do Canadá. Colidiu com François Cevert, que depois da prova, com o pé machucado, tentou agredir o sul-africano a cabeçadas.
Curiosamente, Ken Tyrrell já havia percebido em Scheckter um talento a ser lapidado. Com a aposentadoria de Jackie Stewart, Cevert seria promovido a primeiro piloto da Tyrrell e Scheckter seria seu companheiro na equipe. A morte de Cevert nos treinos para o GP dos Estados Unidos provocou uma mudança dramática na Tyrrell: devido ao contrato de patrocínio com a Elf, estatal petrolífera francesa, a equipe precisaria obrigatoriamente ter um piloto francês. O problema é que, entre os mais experientes, nenhum estava disponível. Ken Tyrrell iniciou a temporada de 1974 com Scheckter e Patrick Depailler, que juntos tinham sete GPs disputados.
Os dois novatos, no entanto, aprenderam muito rápido do que se poderia imaginar. Scheckter venceu dois GPs e chegou à última corrida da temporada com possibilidades matemáticas de tirar o título de Emerson ou de Clay Regazzoni, que estavam empatados na liderança. Depailler teve menos resultados, mas seus desempenhos foram muito bons e sua reputação cresceu ainda mais com a conquista do título europeu de Fórmula 2.
Em 1976, Scheckter entrou para a história por ter sido o primeiro (seria o único) piloto a vencer um GP de Fórmula 1 pilotando um carro com seis rodas – no caso, o Tyrrell P34. Mas a harmoniosa parceria Scheckter-Depailler estava chegando ao fim. Para 1977, o sul-africano decidiu trocar a Tyrrell pela recém-formada equipe Wolf. O novo time surpreendeu ao vencer na corrida de estréia, o GP da Argentina de 1977, e dar a seu piloto o vice-campeonato mundial naquela temporada.
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| Com o Porsche 917/10 da Vasek Polak no campeonato Can-Am em 1973. |
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No final desse mesmo ano, aconteceu a primeira conversa entre Scheckter e o comendador Enzo Ferrari. Os boatos levaram a uma curiosa explicação de Scheckter: “Todo homem de negócios sérios sempre ouve a proposta feita por outro homem de negócios sério”. O fato é que, já em meados de 1978, a Ferrari anunciou a contratação do sul-africano para formar dupla com Gilles Villeneuve para a temporada seguinte. E Scheckter não escondia suas pretensões: “Quero ser campeão mundial e a Ferrari tem o melhor carro e a melhor equipe para isso”.
Inicialmente ofuscado pela exuberância do estilo de pilotagem de Villeneuve, Scheckter mostrou ao longo da temporada que seu estilo “troglodita” era coisa do passado. Eficiente e rápido, apostou na regularidade para chegar ao título de uma temporada bastante competitiva. O título de 1979, porém, foi seguido por uma temporada sofrível em 1980, ano em que a Ferrari teve os piores resultados de sua história na Fórmula 1. Scheckter marcou apenas dois pontos no campeonato e não se classificou para a largada no GP do Canadá. Logo no começo do ano, ele percebeu que a conquista de um título mundial lhe era suficiente: “É como escalar o Everest: você chega lá em cima, mas depois tem que descer. E nem sempre tem ânimo para subir de novo”, comparou. Não foi surpresa quando, ainda no meio da temporada, Scheckter anunciou que pararia de correr no final do ano.
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| Com o Tyrrell P34 de seis rodas, vitória no GP da Suécia de 1976. |
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Durante quase vinte anos, pouco se ouviu falar em seu nome. Ainda no começo da década de 1980, Scheckter mudou-se de Mônaco para os Estados Unidos, onde abriu uma empresa de segurança patrimonial. Só voltou a morar na Europa – mais precisamente na Inglaterra – no final dos anos 90, quando seus filhos, Toby e Tomas, resolveram começar a correr. Toby não foi muito longe, mas Tomas tem uma carreira tão colorida e recheada de histórias quanto o pai. Foi o principal adversário de Antônio Pizzonia na F 3 inglesa, em 2000, e no final desse mesmo ano foi contratado como piloto de testes da Jaguar na F 1. Foi demitido após cinco meses: a polícia inglesa flagrou-o em pleno ato sexual com uma prostituta dentro de um carro parado na rua. Esse carro era o Jaguar que a fábrica havia emprestado para seu uso pessoal.
Sem lugar na Fórmula 1, Tomas passou em 2002 para a IRL, onde está até hoje. Em comum com o pai, três coisas: a rapidez, a propensão a acidentes que Jody tinha no começo da carreira e o capacete pintado nas cores da bandeira sul-africana.
Minha simpatia por Jody Scheckter nasceu quase ao mesmo tempo que meu interesse por corridas. Na década de 70, a revista Quatro Rodas reproduzia, em versão resumida, os depoimentos de Scheckter à “Autosport” inglesa. Quase sempre havia alguma história engraçada ou curiosa, e eu passei a gostar do sul-africano – a ponto de eu sequer lamentar que Gilles Villeneuve tivesse perdido para ele o título mundial de 1979.
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| Estréia vitoriosa da equipe Wolf no GP da Argentina de 1977. No final do ano, Scheckter foi vice-campeão. |
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Outro dia encontrei alguns desses depoimentos – alguns na versão “original”, outros na “traduzida”. Sua descrição do GP da África do Sul de 1975 é imperdível. Scheckter destruiu seu carro titular, sem possibilidade de conserto, ao bater forte no primeiro dia de treinos. Na manhã da corrida, foi para a pista de helicóptero e a porta da aeronave abriu em pleno vôo. No treino de aquecimento, o motor do Tyrrell quebrou. Na corrida, porém, tudo deu certo e Scheckter venceu a prova. O depoimento terminava com uma referência ao companheiro Depailler: “Patrick disse que já tem planos traçados para vencer o GP da França. Ele vai dar uma tremenda batida com o carro titular nos treinos, fundir o motor do reserva na manhã da corrida e ir para o autódromo em um helicóptero com a porta mal fechada”.
Sobre o GP de Long Beach de 1976, Scheckter narra uma corrida cheia de percalços, incluindo um vazamento no tanque de combustível que fez encharcar seu macacão com gasolina. Seguiu em frente até parar no meio da pista por problemas com a suspensão de seu Tyrrell. Saiu rapidamente do cockpit e deu um espetáculo inusitado: despiu o macacão e ficou apenas de cueca – no meio do circuito de rua. “A gasolina estava queimando a parte mais importante da minha anatomia”, justificou-se. “Não pensei em mais nada. O que eu queria era tirar a roupa.”
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| A dupla da Ferrari em 1979 e 1980: Scheckter e Villeneuve. |
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Também impagável é a descrição dos bastidores do GP da França no mesmo ano, em que Scheckter terminou em quinto com o motor fazendo, segundo ele mesmo, “um barulho que mais parecia o de uma lata cheia de pedras”. A narrativa ilustra como era diferente o ambiente nos boxes há quase trinta anos:
“No sábado aconteceu uma corrida de bicicletas de uma volta pelo circuito para os pilotos, desorganizada por um fabricante local. Eu digo desorganizada porque foi assim que pareceu ser. Ninguém sabia muito sobre ela antes. Eu estava andando pelos boxes e alguém disse “Ei, entre na corrida de bicicletas”. Respondi que não, porque estava vestindo jeans e camisa esporte. Um espectador tirou seu calção e disse “Aqui, vista este”. Dei-lhe em troca meu jeans e lá fui eu. Bem, quase.
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| Scheckter no GP da Itália de 1979, a caminho da vitória e do título mundial. |
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“O pneu traseiro da minha bicicleta estava quase vazio e enquanto eu estava enchendo deram a largada – me deixando na linha, bombeando ar. Uma desvantagem que eu pude descontar rapidamente. Encostei em Emerson e dei-lhe um grande puxão segurando seu banco, atrasando-o e passando à sua frente. Ele disse alguma coisa em português que não pareceu muito educado. Então fiz a mesma coisa com Clay, cuja reação foi idêntica.
“No momento em que chegamos na reta oposta, o lugar estava tomado por gente, carros e motos – parecia a Volta da França. Recordei da minha desvantagem na largada e me dei o direito de descontá-la. Então me segurei em uma garota que passava por ali, pilotando uma moto Yamaha 125 cm³. Ela realmente não guiava bem: errava marchas e balançava para todos os lados. No final, terminei em terceiro, para alegria da minha assistente motociclista. Acho que, se ela pilotasse melhor, nós poderíamos ter vencido!
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| Tomas Scheckter, que corre na IRL. Pai e filho decoraram seus capacetes inspirados pelas bandeiras sul-africanas de suas respectivas épocas. |
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“Os desorganizadores me disseram que eu havia sido o terceiro e que eu havia ganho 300. Parecia haver alguma confusão a respeito do que é que eu havia ganho 300. Poderia ser libras esterlinas, francos franceses ou bicicletas. Acho que só vou saber se eles um dia me entregarem. Jacky Ickx, que é um verdadeiro ás sobre duas rodas, venceu a coisa e ganhou 1000 (libras, francos ou bicicletas – apague o que não for aplicável).”
Ian Scheckter, irmão de Jody, foi uma das estrelas do campeonato sul-africano de Fórmula 1 na década de 70 e disputou alguns GPs do Mundial em 1975 e 1976. Em 1977, foi companheiro de Alex Dias Ribeiro na equipe March. Ian e Alex tiveram suas carreiras destruídas pela falta de competitividade dos carros. Hoje, Alex vive em São Paulo e é presidente da entidade Atletas de Cristo. Ian, em compensação, nunca se recuperou do mal que a March causou à sua reputação. As notícias mais recentes a seu respeito dão conta que ele vive isolado em alguma chácara ou fazenda na África do Sul.
A partir do dia 20 de dezembro, o GPtotal entra em recesso de final de ano para que todos os colunistas, fotógrafos, webmasters, produtores, acionistas, copeiras, faxineiras, recepcionistas, seguranças, profissionais dos departamentos jurídico e financeiro e da consultoria de recursos humanos possam aproveitar merecidas férias. Estaremos de volta no dia 9 de janeiro de 2006.
(LAP)
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