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Dez anos atrás 19.09.05
Barrichello, o Jordan-Peugeot e a pintura de capacete evocando Senna no GP do Brasil de 1995. Foto: Forix.
O tempo passa... Para mim, parece que foi há poucos meses que estive nos autódromos de Interlagos e Buenos Aires para aquelas que foram minhas últimas coberturas ao vivo de GPs de Fórmula 1. Mas isso aconteceu há dez anos - na verdade, "dez e meio", já que em 1995 a etapa brasileira aconteceu no dia 26 de março. Duas semanas depois, no dia 9 de abril, eu estava em Buenos Aires para cobrir o GP da Argentina, que voltava ao calendário depois de 14 anos afastado. As reportagens foram publicadas na revista Grid, da qual eu era editor.
Se for considerado somente o que aconteceu entre o momento em que acendeu a luz verde (aquela foi a última temporada em que foram usados os semáforos de luz vermelha e luz verde) e a bandeirada quadriculada, nenhuma dessas duas corridas podem ser consideradas especialmente memoráveis. Em Interlagos, Michael Schumacher ganhou depois que Damon Hill, líder durante quase metade da prova, rodou ao sair do "S do Senna" - oficialmente por quebra do câmbio, supostamente por quebra da suspensão traseira esquerda. Em Buenos Aires, Hill venceu sem muitas dificuldades, dando a impressão de que era favorito ao título - foi a minha aposta na reportagem que escrevi para a Grid. O desenrolar da temporada mostrou que eu deveria ter esperado antes de dar meu palpite.

Durante algumas semanas, Berger liderou o campeonato de 1995, mesmo terminando sempre uma volta atrás do vencedor. Foto: Forix.
Os acontecimentos fora da pista, porém, renderam muitas histórias. Horas depois do encerramento da corrida de Interlagos, a FIA anunciou as desclassificações de Schumacher e de David Coulthard (segundo colocado) por irregularidades no combustível - Benetton e Williams usavam motores Renault e combustíveis Elf. Com isso, a vitória passou para a Ferrari de Gerhard Berger, terceiro colocado e que havia terminado a corrida uma volta atrás dos dois. Na Argentina, Berger terminou a corrida em sexto lugar, também uma volta atrás. Tornou-se provavelmente o único piloto a liderar um campeonato de Fórmula 1 somente terminando corridas com uma volta de atraso em relação ao vencedor. Na semana seguinte à corrida de Buenos Aires, porém, a FIA anunciou a reclassificação de Schumacher e Coulthard na corrida de Interlagos. Manteve a punição às equipes, que ficaram sem os pontos no Mundial de Construtores.

Dessas duas corridas, a lembrança mais forte que tenho é da diferença de ambiente entre ambas. Interlagos recebia pela primeira vez a Fórmula 1 após a morte de Ayrton Senna. Naturalmente, um certo baixo astral predominava nos boxes e nas arquibancadas. O clima nublado, cinzento e eventualmente chuvoso nos três dias de treinos e corrida também contribuiu para isso. Apostava-se em um eventual bom resultado de Rubens Barrichello, que vinha até prometendo pódio e chegou a pintar o capacete com as cores do de Senna (leia mais na minha coluna "O Real Valor de Barrichello"). Mas logo no primeiro dia de treinos ficou claro que Barrichello não teria qualquer chance de vitória. Para piorar, ele foi constantemente mais lento que seu companheiro na Jordan, Eddie Irvine. Os outros brasileiros inscritos, Pedro Diniz e Roberto Moreno, podiam no máximo sonhar em chegar ao final da prova com os carros da estreante Forti Corse. Quando os carros começaram a andar, surgiu mais um motivo para a torcida suspirar de saudade: cada passagem de Mark Blundell fazia lembrar de Senna na McLaren, devido à combinação da pintura "Marlboro" do carro com o capacete amarelo de Blundell. O mesmo efeito era percebido nas imagens de TV.

Duas semanas depois, na Argentina, o astral era completamente diferente. O país voltava a receber a Fórmula 1 depois de 14 anos e por todos os lados havia alguma coisa sobre a corrida. Eu e Wagner Gonzalez, correspondente de F 1 da Grid, chegamos com alguns dias de antecedência, alugamos um Fiat Uno e fomos a Balcarce, cidade natal de Juan Manuel Fangio, para visitar o museu que tem seu nome.

Em Balcarce, visitamos o "Museo Juan Manuel Fangio" (em breve falarei sobre isso aqui no GPtotal) e demos algumas voltas no autódromo local (batizado, claro, de "Juan Manuel Fangio") e, com a ajuda do administrador do museu, conseguimos visitar "Toto", único dos irmãos de Fangio que acompanhou-o assiduamente às corridas. Embasbacados, Wagner e eu constatamos que aquela casa era a mesma onde Fangio e Toto moraram até a juventude. Frases como "Juan e eu dormíamos aqui neste quarto" e "Juan e eu preparávamos o carro nesta garagem" pontuaram todo o encontro. E tome histórias... Já de noite, Toto e sua elegante esposa, cujo nome não me recordo, serviram um lanche frugal, durante o qual o irmão de Fangio falou sobre as limitações da idade: "Não posso tomar gelado por causa da minha saúde", explicava. Logo depois, a esposa se afastou e Toto completou, dando uma maliciosa piscada de olho: "Mas de vez em quando tomo uma taça de champanhe para brindar 'con las chicas'"...

De volta a Buenos Aires, iniciamos a cobertura do GP propriamente dito. As condições meteorológicas estavam ainda piores do que em São Paulo. Choveu em todos os dias de treino (naqueles tempos, havia uma sessão extra na quinta-feira quando GP era realizado em circuito que não tivesse recebido a Fórmula 1 no ano anterior), mas isso não afugentou o público. As arquibancadas ficaram lotadas em todos os dias, mesmo sem a presença de um piloto argentino na lista de inscritos. Lamento, apenas um: Fangio já estava com a saúde muito debilitada e não poderia comparecer ao autódromo. O pentacampeão morreria três meses depois.

Em compensação, a Marlboro, principal patrocinadora da corrida, resolveu bancar a vinda de uma Ferrari do ano anterior para que Carlos Reutemann, ex-piloto da equipe italiana e em 1995 já convertido à carreira política (era governador da província de Santa Fé), desse algumas voltas pela pista. Na quinta-feira, Reutemann deu suas primeiras aceleradas logo depois do último treino da Fórmula 1. Havia pilotado um F 1 pela última vez em 1982, e disputara sua última corrida (o Rali da Argentina, válido pelo Campeonato Mundial, no qual ficara em terceiro lugar) em 1985.

"Foi como se o tempo não tivesse passado", escrevi na Grid, ainda arrepiado com o que havia visto. Em poucas voltas pela pista encharcada, Reutemann mostrou-se totalmente à vontade, a ponto de colocar o carro de lado em algumas curvas. Alguém se deu o trabalho de cronometrar estas voltas e constatou que a melhor delas (2:11.440) daria o 11º tempo entre os 18 carros que haviam participado da sessão de treinos encerrada minutos antes de Reutemann entrar na pista. No domingo, ele deu algumas voltas antes da largada, na última delas empunhando uma bandeira da Argentina.

Em Buenos Aires, Reutemann andando na Ferrari de 1994: emoção para todos e risadas para quem entendeu a bricadeira nos boxes. Foto: Miguel Costa Jr.
No meio desse momento de pura nostalgia, uma brincadeira de bom gosto. Um mecânico da McLaren providenciou uma placa de box com o nome "REUT" em cima e "JONES" embaixo. Pelo menos na sala de imprensa, poucos dos presentes entenderam a brincadeira, que remontava a 1981. No GP do Brasil, Reutemann havia desobedecido à ordem da Williams de ceder a vitória a seu companheiro Alan Jones, e na corrida seguinte, disputada justamente na Argentina, várias equipes ficavam mostrando para o público placas com o nome de Jones acima do de Reutemann. Wilsinho Fittipaldi foi contra essa provocação, que considerou desnecessária, e mostrou à torcida argentina uma placa com o nome de Reutemann em cima. A equipe Fittipaldi ganhou imediatamente o apoio de toda a torcida argentina.

Interlagos terá corrida com os Porsche 911 do GT3 Cup Challenge Brasil. Foto: Miguel Costa Jr.
Foram esses os dois últimos GPs de F 1 aos quais compareci. Nesta semana, estarei em Interlagos de quinta-feira a sábado para trabalhar na divulgação do Porsche GT3 Cup Challenge Brasil, uma das categorias preliminares do GP. A corrida dos Porsche acontecerá no sábado à tarde, logo depois dos treinos da Fórmula 1. Terei o domingo livre para escrever a coluna sobre o GP propriamente dito - ela deverá estar no ar no final da tarde do próprio domingo. Ico e Edu estarão lá todos os dias e ao longo da próxima semana relatarão sobre o que viram em Interlagos. Até lá!

Daqueles tempos, guardo muitas boas lembranças.
(LAP)
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