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| » » » 26.08.05 |
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| Cadê o vencedor? |
26.08.05 |
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O que é óbvio para alguns não é para outros. O recente "Friends" em que o leitor Leonardo Gabriel listou todos os GPs oficiais em que o vencedor terminou com uma ou mais voltas de vantagem sobre o segundo colocado suscitou manifestações díspares entre os demais leitores. Houve quem escrevesse nervoso, dizendo que este ou aquele piloto só havia ganhado por uma volta de vantagem por esta ou aquela razão.
Mas o trabalho do Leonardo era claro: a proposta foi listar as corridas nas quais a vantagem do vencedor sobre o segundo colocado foi igual ou superior a uma volta, sem descrever razões ou méritos. Aliás, basta pensar um pouco para concluir que vencer um GP de Fórmula 1 com uma ou duas voltas de vantagem é resultado, quase sempre, de alguma circunstância excepcional. Corridas de F 1 são relativamente curtas e dificilmente um piloto dá volta em seu adversário mais próximo em condições "normais".
O GP da Inglaterra de 1975, vencido por Emerson Fittipaldi, terminou antes do previsto devido a um acidente coletivo provocado por uma chuva repentina, e no qual se envolveram 12 carros - praticamente todos os demais pilotos que estavam na pista. Apenas Emerson e mais dois ou três concorrentes, todos com uma ou mais voltas de atraso, chegaram a ver o aviso de bandeira vermelha interrompendo a corrida. Isso explica a volta de vantagem sobre José Carlos Pace, segundo colocado e um dos doze que bateram.
Sem forçar muito a memória, lembro também do GP da Austrália de 1995, que Damon Hill venceu com duas voltas de vantagem sobre Olivier Panis. Isso aconteceu porque todos os demais carros de ponta haviam abandonado e o Ligier de Panis, um carro bom o suficiente apenas para pontuar, ainda teve problemas que fizeram o francês completar as últimas voltas com o motor soltando fumaça e dando a impressão de que iria quebrar de vez a qualquer momento.
Uma dos mais memoráveis entre os GPs que terminaram com o vencedor sendo o único a completar o total previsto de voltas foi o de Mônaco de 1982. O leitor Allan Guimarães lembrou-se dele e pediu maiores detalhes, que vou descrever adiante. Essa corrida, monótona e sem grandes atrativos durante 72 voltas, dificilmente entraria para a história por qualquer motivo que fosse. Nas últimas quatro, porém, tudo mudou radicalmente.
Uma publicação da época ironizou: "O primeiro sinal de anormalidade foi o fato de que nenhum piloto bateu na curva Saint Devote logo após a largada". O pole position René Arnoux manteve sua posição na largada e Alain Prost, depois de umas poucas voltas andando em terceiro, pulou para segundo, a certa distância de seu companheiro na equipe Renault. Depois de 14 voltas na liderança, Arnoux rodou ao sair do primeiro "S" da Piscina e o motor apagou. Prost, que vinha a certa distância, assumiu o primeiro lugar, já com uma vantagem confortável sobre o Brabham de Riccardo Patrese, segundo colocado, que era seguido por um grupo formado por Didier Pironi (Ferrari), Andrea de Cesaris (Alfa Romeo), Keke Rosberg (Williams) e Michele Alboreto (Tyrrell). Todos perto uns dos outros, mas sem nenhuma disputa por posição. Já na parte final da corrida, a 15 voltas ou menos para a bandeirada, Rosberg e Alboreto abandonaram.
O sol, presente no momento da largada, começou a ser encoberto por nuvens escuras. O tempo foi fechando e, faltando umas seis voltas para a bandeirada (ou seja, quando Prost estava na 70ª volta), uma garoa fina começou a cair. Nada que tornasse necessária a troca por pneus de chuva, pois a pista sequer ficou molhada, mas foi o suficiente para diminuir a aderência. Aqui e ali, podia-se ver pilotos controlando saídas de traseira.
A vantagem de Prost sobre Patrese não era grande a ponto de ele poder diminuir significativamente o ritmo, mas era tranqüila. Bastaria não errar e a vitória seria sua. Mas ele errou.
Primeiro, foi excessivamente ousado em uma ultrapassagem sobre a Lotus retardatária de Elio de Angelis, chegando a tocar rodas com o italiano na curva Saint Devote. Seu erro fatal, porém, aconteceu quando ele já havia completado 73 das 76 voltas da corrida. Ao sair da chicane, o Renault escorregou, virou para a direita e bateu de frente no guard-rail. A violência do choque jogou o carro para trás, com força suficiente para cruzar a pista, bater de traseira e sair rodando, até parar mais adiante. Prost saiu mancando do Renault e sentou-se no guard-rail, certamente lamentando a vitória perdida.
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| Riccardo Patrese - Monaco 1982. |
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Patrese, segundo colocado, assumiu a liderança. Passou pelo Renault destruído, contornou a Tabac, depois a piscina e em seguida a Rascasse, entrando na reta dos boxes e 74 voltas. Fez a Saint Devote, passou pelo cassino e completou a curva Mirabeau. Já na descida, ao virar o volante para fazer a Loews, a traseira do Brabham escorregou para a direita e Patrese rodou, passando por cima da guia interna e rolando, com o motor apagado, em direção ao guard-rail externo. O retardatário Marc Surer, da Arrows, vinha atrás e conseguiu desviar, passando por Patrese antes mesmo que ele estagnasse. Vários outros carros passaram até que os comissários puderam entrar na pista e empurrar Patrese para tirá-lo da posição perigosa. O italiano aproveitou o trecho em descida e fez o motor pegar "no tranco". Voltou à corrida bastante atrasado, andando lentamente, sem saber sequer em qual posição estava. Sabia apenas que havia perdido várias posições.
A liderança havia passado para Pironi, que desde a metade da prova estava correndo com o bico do carro semidestruído devido a uma colisão com um retardatário. Pironi completou a volta 75 fazendo sinais frenéticos para que a prova fosse encerrada. Fez todo o trajeto até o túnel e, quando estava lá dentro, o carro parou. As razões são controversas: algumas fontes confiáveis indicam falta de combustível, e outras fontes igualmente confiáveis dão conta de um problema elétrico. Seja como for, a liderança passaria a Andrea de Cesaris. Mas, quando uma câmera de TV finalmente o localizou, o Alfa Romeo já estava parado ao lado da pista, sem combustível. O piloto já havia até deixado o cockpit.
Faltava apenas uma volta para a bandeirada. A cronometragem já era feita eletronicamente, mas ninguém sabia dizer exatamente quem havia assumido a liderança. O fato de os possíveis líderes terem abandonando um a um e na mesma volta aumentava a confusão, já que apenas carros com uma ou mais voltas de atraso em relação a Pironi passavam pelos sensores da cronometragem. Derek Daly, que antes de todos esses acontecimentos era o quinto colocado, poderia ser o líder. Mas a essa altura ele andava lentamente, pois havia batido de traseira, perdido o aerofólio e danificado a caixa de câmbio. Logo depois, o carro travou: os danos no câmbio fizeram com que todo o óleo do sistema de transmissão vazasse rapidamente.
Fazendo rapidamente as contas, percebeu-se que Patrese seria o vencedor se completasse mais uma volta. Nem o italiano sabia disso: ele passou pela linha de chegada e fez seu nome aparecer no primeiro lugar, com 76 voltas percorridas, mas nem sabia disso - na época, não havia comunicação por rádio entre a equipe e o piloto quando este estava na pista. Em seguida, surgiram as duas Lotus, cada uma completando 75 voltas - o mesmo número atingido pela Ferrari de Pironi e a Alfa de de Cesaris. Isso fez muita gente, inclusive os organizadores, imaginarem que Mansell e de Angelis seriam classificados, respectivamente, em segundo e terceiro lugares.
Pironi continuava no túnel, parado ao lado de seu carro, e foi informado por um bandeirinha que Patrese havia vencido a prova. O italiano, que fazia a volta de desaceleração, parou para dar carona a Pironi, que alojou o capacete na saída do radiador, sentou-se na lateral e se segurou no santantônio do Brabham para não cair. Ainda dentro do carro, Patrese ouviu de Pironi a seguinte frase: "Parabéns pela vitória!"
O incrédulo Patrese desceu do carro ainda com dúvidas sobre a veracidade da informação. Uma foto publicada no anuário "Automobile Year" mostra o italiano instantes depois de sair do carro, sorridente, com os braços abertos em um gesto típico de quem pergunta "Mas como é que pode?" Patrese foi para o pódio junto com Mansell e De Angelis, mas antes que a cerimônia começasse chegou o resultado oficial da prova: quatro pilotos haviam completado 75 voltas (uma a menos que Patrese), mas os tempos de cada um indicavam Pironi em segundo lugar, à frente de De Cesaris, Mansell e De Angelis. Pironi e De Cesaris subiram ao pódio, mas Mansell e De Angelis chegaram a sair em algumas fotos. Daly, com 74 voltas, classificou-se em sexto, à frente de Prost (73), Brian Henton, da Tyrrell (72), Surer (70) e Alboreto (69). Dez pilotos classificados, mas apenas metade deles rodava no momento da bandeirada.
LAP
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