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| » » » 03.08.05 |
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| O real valor de Barrichello |
03.08.05 |
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Não poderia ser diferente. Bastou ser noticiada a saída de Rubens Barrichello da Ferrari e sua transferência para a BAR (esta última ainda não oficializada, mas prestes a ser anunciada) para que todos se entregassem a reflexões sobre o futuro do brasileiro e as razões da mudança.
Os mais otimistas acham que Barrichello poderá finalmente lutar pelo título mundial. Outros crêem que Barrichello será mais feliz pelo simples fato de não ter mais Michael Schumacher a seu lado, além de estar livre para lutar por vitórias. Isso, é claro, se tiver um carro competitivo nas mãos. Neste ano, a BAR sequer está repetindo os bons desempenhos de 2004, quando tirou proveito dos problemas da McLaren, da Williams e da Renault para ocupar o espaço de segunda melhor equipe do ano.
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| Barrichello em 2000, ano de sua primeira vitória na F 1: resultados que poucos alcançaram. |
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Em qualquer país, Barrichello seria considerado um piloto de sucesso. Não é qualquer um que chega a nove vitórias e dois vice-campeonatos de Fórmula 1. Desde sua estréia na categoria, em 1993, Barrichello viu chegar à categoria um punhado de conterrâneos considerados grandes promessas, jovens muito talentosos nos quais grandes expectativas foram depositadas. Praticamente nenhum deles vingou. Mesmo Felipe Massa, anunciado pela Ferrari como substituto de Barrichello, ainda desperta desconfiança entre torcedores e até entre jornalistas especializados.
Discordo totalmente quando ouço frases do tipo “Barrichello não guia nada”, “deveria se aposentar”, “envergonha o Brasil”. São considerações típicas de quem acha que todo brasileiro que chega à Fórmula 1 deve igualar ou superar as façanhas (e os números de títulos e vitórias) de Emerson Fittipaldi, Nelson Piquet e Ayrton Senna. Quem diz isso não tem a menor idéia do quanto é difícil chegar a um campeonato de elite e lá permanecer durante mais de dez anos por méritos próprios. Pessoas assim enxergam o mundo de maneira bipolar: on ou off, preto ou branco, bem-sucedido ou fracassado, gênio ou incapaz. Para elas, não existem matizes ou meios-termos. Cobram dos outros um nível de sucesso que muitas vezes não conseguem para si mesmas.
Por tudo o que já fez, Barrichello tem um lugar merecido entre os pilotos mais importantes da história do automobilismo brasileiro. O fato de estar em um patamar abaixo do de campeões como Emerson, Piquet e Senna não tira seus méritos. Um dia, talvez depois que o Brasil atravessar um longo período sem vitórias na Fórmula 1, os torcedores darão a Barrichello o devido valor. Nem mais, nem menos.
O grande problema de Barrichello não é o seu desempenho nas pistas, mas suas atitudes (ou as de pessoas que já trabalharam para ele) e declarações quando está fora do cockpit.
Em 1994, Barrichello, com a anuência de pessoas que então trabalhavam para ele e o apoio de setores da mídia, abraçou a causa de ser o sucessor de Ayrton Senna. Isso, logo de saída, diminuía a grandeza de qualquer feito que fosse alcançado no futuro, além de gerar uma pressão insuportável por parte da torcida carente de um novo ídolo carismático e vencedor.
Na pré-temporada de 1995, após os primeiros testes com o Jordan-Peugeot, Barrichello declarava ter expectativa de vencer naquele ano sua primeira corrida. No GP do Brasil (o primeiro da temporada e o primeiro a ser disputado no País depois da morte de Senna), adaptou ao lay-out de seu capacete o desenho do capacete de Senna. Só que Barrichello foi mal em todos os treinos e também na corrida, inclusive sendo mais lento que seu companheiro de equipe, Eddie Irvine. Pressionado por todos os lados e com a missão auto-imposta e declarada aos quatro ventos de suceder Senna, transformou-se naquele momento preciso em motivo nacional de chacota. Situação que persiste até hoje – não pelos resultados, mas pelo acúmulo de atitudes imaturas e declarações infelizes, além da contínua criação de expectativas que nunca se concretizaram.
A transferência para a Ferrari ilustra à perfeição a maneira como Barrichello administra sua imagem. Ninguém jamais duvidou que ele foi para a equipe italiana com a missão clara de ser segundo piloto. No entanto, uma de suas primeiras declarações depois de anunciada sua contratação foi a de que a equipe daria o mesmo tratamento aos dois pilotos e que se considerava “piloto 1B”. Em vez de admitir logo e de maneira madura o status que por contrato tinha (tem) na equipe, Barrichello criou expectativa com algo que ele sabia (ou no mínimo deveria saber) não ser verdadeiro.
Há até hoje quem considere Barrichello um “coitadinho” por se submeter à condição de segundo piloto de Schumacher. Qualquer reclamação de Barrichello ou de seus torcedores quanto a isso é totalmente infundada. Primeiro, porque o piloto certamente leu os contatos que assinou e sabia quais eram as condições existentes para guiar pela Ferrari. Não consta que alguém tenha apontado um “três-oitão” para a cabeça de Barrichello e dito algo como “assine aí ou morre!”.
Segundo, porque a ida para a Ferrari propiciou resultados que Barrichello jamais teria condições de obter em qualquer outra equipe que tivesse portas abertas para ele no período 2000-2005. No final de 1999, muitos jornalistas (eu entre eles) achavam que Barrichello deveria permanecer na Stewart (que seria transformada em Jaguar a partir do ano seguinte) e colher os frutos da evolução que a equipe vinha demonstrando ao longo de 1999. Hoje, passados seis anos e com a Jaguar fora da F 1 depois de risíveis desempenhos, todos sabem o que teria acontecido com a carreira de Barrichello se ele tivesse seguido esse raciocínio.
Acertaram em cheio os analistas e torcedores que viram na rebeldia pós-Mônaco um sinal de que Barrichello estava de saída da Ferrari. Nossos amigos do www.grandepremio.com.br revelam que o acerto com a BAR foi feito exatamente lá, na semana que antecedeu a corrida. A frase “Não considero mais Schumacher meu companheiro de equipe” não era apenas uma figura de retórica, mas um fato real a partir de 2006.
Na segunda-feira, 1° de agosto, Barrichello deu mais uma de suas declarações infelizes. Tentando desviar o assunto de sua transferência para a BAR, ele resolveu reclamar de Nelson Piquet, que deu a notícia ao jornalista Livio Oricchio: "Por que Piquet tem de vir com essas histórias? Ele faria melhor se preocupando com seu filho na GP2. Que, por sinal, não está indo muito bem".
Barrichello, evidentemente, quis aproveitar a oportunidade para revidar aos comentários (quase sempre críticos) que Piquet faz a seu respeito. É verdade que Piquet não foi exatamente cavalheiro ao dizer que “o Burrinho assinou com a BAR por dois anos”, um batidíssimo trocadilho com o nome do piloto. Só que Barrichello, ao revidar, errou grosseiramente o alvo. Sem argumentos para atirar diretamente em Piquet, resolveu mirar em Nelsinho – que realmente não está fazendo uma temporada inesquecível na GP2, mas nada tem a ver com a história.
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| O patrocínio da Arisco no Jordan de 1994. No final do ano, o antigo patrocinador de Barrichello teria uma amarga decepção. |
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O contencioso entre Rubens Barrichello e Nelson Piquet remonta ao final de 1994. Foi nessa época que Barrichello, em (mais uma) atitude controvertida, trocou o patrocínio da Arisco pelo da Pepsi. Piquet, na época também patrocinado pela Arisco, teve a mesma percepção que outros observadores: Barrichello e/ou certas pessoas que trabalhavam com ele tinham uma, digamos assim, tendência imediatista que os fazia se preocupar muito com o dinheiro a ser ganho em curto prazo, mesmo que isso significasse dar as costas ao patrocinador que durante mais de dez anos apoiou Barrichello, levando-o no colo até a Fórmula 1.
Foi nessa época que tais pessoas, com a cumplicidade de certos órgãos da mídia, ainda “vendiam” Barrichello como sucessor de Ayrton Senna. Em março de 1995, logo após o GP do Brasil de F 1, o castelo de cartas já havia desmoronado. Castigo divino, praga de patrocinador traído ou apenas uma infeliz coincidência?
LAP
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