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Home » Colunas » Luiz Alberto Pandini » 29.07.05
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Adeus, fumaça (ou “A praga do politicamente correto”) 29.07.05
A coluna já estava escrita quando o www.grandepremio.com.br divulgou a notícia abaixo:

Dúvidas sobre a legislação da União Européia levaram o governo inglês a liberar BAR, Renault e Jordan a divulgarem os logos das empresas tabagistas que as patrocinam neste fim de semana do GP da Hungria. As equipes terão um esclarecimento da lei em alguns dias, apenas.

De acordo com o site "Autosport-Atlas", a questão principal é saber se a lei que proíbe a propaganda de qualquer marca de cigarro tem efeito no começo ou no fim de 31 de julho, domingo, dia da corrida em Budapeste. Uma interpretação também dava conta de que as equipes estariam agindo ilegalmente caso estampassem os patrocínios fora da UE porque as imagens seriam transmitidas para a Grã-Bretanha.

A McLaren é a única equipe que vai trocar de patrocínio neste fim de semana: sai a West e entra a Johnnie Walker. A dúvida havia levado, por exemplo, a BAR a levar três tipos de layout para Hungaroring.



A McLaren de Alexander Wurz nos treinos de sexta-feira na Hungria: correndo pela última vez com o patrocínio da West.
Uma era da Fórmula 1 começa a se encerrar neste final de semana. Segundo informações do Grande Prêmio (www.grandepremio.com.br), 31 de julho de 2005 – o dia do GP da Hungria – é a data marcada para a entrada em vigor de uma lei européia que proíbe publicidade da indústria tabagista. No mesmo dia, passa a valer também uma lei britânica que proíbe empresas com sede em seu território de mostrar nomes ou logotipos de cigarros, mesmo quando as imagens são geradas em outros países. “Nem mesmo no Japão ou na Malásia os times poderão usar suas pinturas originais”, esclarece o texto do Grande Prêmio.

Na prática, isso torna inviável as equipes sediadas na Inglaterra e patrocinadas por cigarros (leia-se BAR, Jordan e Renault) correr em qualquer lugar do mundo ostentando nomes ou logotipos de cigarro nas carenagens. A McLaren também seria afetada, mas neste final de semana acaba o contrato de patrocínio com a Imperial Tobacco, proprietária da marca West. A Ferrari não entra na dança por ter sede na Itália. A lei vale também para as equipes do Mundial de MotoGP, que também terá corrida neste final de semana (GP da Alemanha, em Sachsenring). Mas, ao contrário do que acontece na F 1, as equipes de MotoGP sediadas na Inglaterra são minoria.

O patrocínio de cigarros gera polêmica praticamente desde que começou. Ainda em 1968, quando a Lotus passou a correr com as cores do Gold Leaf, houve resistências de emissoras de TV britânicas em exibir as corridas. Em 1973, a Alemanha tornou-se o primeiro país a proibir as equipes de ostentarem as marcas de cigarro nas carenagens – Lotus e BRM tiveram que eliminar as inscrições John Player Special e Marlboro, respectivamente. Anos depois, outros países começaram a seguir as mesmas diretrizes – mas a Alemanha, sabe-se lá por qual razão, afrouxou a legislação e de alguns anos para cá voltou a permitir os nomes de cigarro nos carros, capacetes, macacões e roupas das equipes. 

As leis francesas são ainda mais radicais. Já há algum tempo, jornais e revistas são obrigados a apagar os nomes de cigarros em toda e qualquer fotografia de carro ou moto de corrida publicada em suas páginas. Estive na França em junho e aproveitei para comprar exemplares das revistas “Auto Hebdo” e “Moto Revue”, que infelizmente não vêm mais para o Brasil. Deu tristeza ver estas excelentes publicações tendo que estragar suas fotos para apagar os nomes de cigarros. Nem original a medida é: há mais de 50 anos, sem computador nem fotoshop, trabalho parecido era feito na antiga União Soviética. A diferença é que os “expurgos” promovidos por Stalin promoviam não apenas a eliminação física de dissidentes e adversários políticos, mas também de qualquer referência a eles em textos e imagens. Antigas fotografias eram modificadas com a substituição de Trotski por um vaso de plantas ou simplesmente por um espaço vazio.

A eliminação total do patrocínio de cigarros no automobilismo está prevista para 2007, mas ainda há pendências a serem resolvidas. De minha parte, acho que muita hipocrisia envolve o assunto. Sem entrar na discussão dos males que o fumo pode causar à saúde, seria interessante saber qual razão leva os governos a continuarem permitindo sua venda. Os tributos pagos pela indústria de tabaco podem ser uma boa resposta. Repete-se à exaustão que os altos impostos são uma maneira de compensar o gasto social provocado pelo tratamento de doenças provocadas pelo tabagismo... Bem, basta ir a qualquer hospital público para constatar que, pelo menos no Brasil, somente uma ínfima parte dos impostos do cigarro (e também da CPMF, e de vários outros impostos) é efetivamente aplicado no sistema de saúde. Para onde vai o resto?

A hipocrisia aparece também no fato de que não há campanhas parecidas contra o alcoolismo. Bebidas alcoólicas também vendidas legalmente mas, quando consumidas em excesso (e às vezes nem mesmo em excesso), podem causar danos muito piores e mais imediatos que o cigarro. Alguém aí conhece casos de famílias desagregadas porque o pai ou a mãe negligenciaram o trabalho e a criação dos filhos por fumar um maço de cigarros por dia? Ou de acidentes automobilísticos causados por alguém que fumou demais e ficou sem condições de dirigir? (Refiro-me, evidentemente, aos cigarros vendidos normalmente em bares e padarias; não entram nesta consideração aqueles bastonetes artesanais de fumos pouco ortodoxos, que nossos leitores mais fiéis juram serem consumidos regularmente pelo Tite.)

Sem espaço para o tabaco, é muito provável que a Fórmula 1 seja invadida por patrocínios de bebidas alcoólicas. A McLaren, por exemplo, acertou há meses que o logotipo do uísque Johnnie Walker seria aplicado nas carenagens imediatamente após a saída do nome dos cigarros West. Daqui algum tempo, os governos talvez passem a proibir também a propaganda de bebidas alcoólicas. E depois bastará aguardar a próxima “providência da moda”. Talvez passem a proibir a propaganda de alimentos com gordura trans, o novo vilão da vida saudável, de acordo com o que li nas folhas distribuídas nos últimos dias pela minha aldeia. 

Por enquanto, fiquemos apenas com o cigarro. Veja, pelas fotos abaixo, quanto da história da Fórmula 1 está associada ao patrocínio de cigarros. E antes que alguém pense coisas erradas a meu respeito: não sou anti-comunista, parei de fumar há anos e aprecio tremendamente um vinho, uma cachaça e uma cerveja – com moderação, como recomendam nas propagandas.    LAP


Graham Hill em 1968, defendendo as cores do Gold Leaf Team Lotus. Foi a primeira vez que o patrocinador uniu seu nome ao da equipe.


Mônaco, 1970: Jo Siffert torna-se o primeiro piloto a correr com patrocínio da Marlboro (o logotipo, pequeno, está na lateral do bico, entre a asa dianteira e o braço da suspensão).


O Lotus de Emerson Fittipaldi em 1972. O preto e dourado dos cigarros John Player tornou-se clássico.


Em 1972, a BRM (aqui, Howden Ganley na Argentina) tornou-se a primeira equipe a correr com as cores da Marlboro. Depois, a marca patrocinou a McLaren, a Williams, a Alfa Romeo e a Ferrari, além de colocar seu logotipo nos macacões e capacetes de mais de 100 pilotos.


BRM e Lotus no GP da Alemanha de 1973, o primeiro em que as equipes foram obrigadas a tirar os nomes dos cigarros das carenagens.


Alex Dias Ribeiro e seu March em 1977. Dispensado de apagar o nome do cigarro na Alemanha, já que a marca não era vendida na Europa.


Jody Scheckter e sua Ferrari em 1979. Nos últimos trinta anos, ele foi o único campeão mundial que nunca teve patrocínio de cigarros.


Outra imagem clássica: Jacques Laffite e o Ligier nas cores da Gitanes.


A Ferrari, muito provavelmente, será a última equipe de F 1 a correr com patrocínio de cigarros.


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