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Para esquecer Indianapolis 11.07.05
A Yamaha "retrô" de Colin Edwards: sucesso entre os saudosistas.
Logo depois do tragicômico Grande Prêmio dos Estados Unidos de Fórmula 1, surgiram diferentes idéias para compensar o público pagante pelo fiasco da prova. Foi sugerido, por exemplo, que o ingresso de 2005 valesse também para o GP dos EUA de 2006. A pura e simples devolução do dinheiro dos ingressos está em andamento e alguns espectadores foram além: entraram na justiça exigindo ressarcimento pelos gastos de deslocamento até Indianapolis. Em outra frente, os organizadores da Champ Car (o atual nome daquela categoria que alguns aqui no Brasil insistem em chamar de “Fórmula Mundial”) anunciaram que o ingresso de Indianapolis valeria na corrida a ser realizada em Cleveland dali a algumas semanas.

Nada disso, porém, teria efeito tão positivo quanto presentear os espectadores presentes a Indianapolis com ingressos para a etapa estadunidense do Mundial de MotoGP, disputada ontem (10 de julho) em Laguna Seca. Creio que todos os processos seriam esquecidos e que no dia seguinte choveriam cartas de agradecimento nos escritórios dos responsáveis por tão simpática medida. Mas é claro que isso jamais seria feito, pois seria enorme o risco de boa parte dos contemplados se voltar para as motos e abandonar de vez a Fórmula 1.

O norte-americano Nicky Hayden e sua Honda: levando a torcida estadunidense ao delírio.
A MotoGP é a prova de que um campeonato de elite pode ter ambiente amigável, manifestações nostálgicas e participação do público, sem prejuízo para o profissionalismo, o retorno aos patrocinadores e o interesse dos fabricantes. Prova também que, mesmo com o domínio de um único piloto, as corridas podem ser muito emocionantes. 

Os dirigentes da FIM (Federação Internacional de Motociclismo), por sua vez, colaboram mantendo os regulamentos estáveis, sem criar regras estúpidas a cada final de temporada com o pretexto de “resgatar o equilíbrio e diminuir de custos”. Sim, amigos: a MotoGP, felizmente, não tem dirigentes iguais aos da FIA (espero que isso se mantenha por muito tempo, quiçá para sempre). Do contrário, é provável que os regulamentos técnico e desportivo já tivessem sido alterados vezes sem conta, a fim de brecar a série de vitórias e títulos do italiano Valentino Rossi. 

Se houvesse na FIM o tipo de mentalidade predominante na FIA, uma equipe como a Suzuki não poderia fazer o que fez em Laguna Seca, onde correu com o patrocínio da Red Bull e uma nova pintura em suas motos – um acordo favorável tanto para a equipe, que reforçou o “caixa” para a temporada, quanto para o patrocinador, que pôde expor sua marca em um mercado importante. 

O pódio em Laguna Seca: sob medida para agradar ao público local.
Também em Laguna Seca, a Yamaha (patrocinadora da corrida e que bancou uma reforma de US$ 2 milhões para que o circuito pudesse receber a MotoGP) fez uma grande festa em comemoração a seus 50 anos de existência. Fez uma emocionante homenagem aos pilotos que defenderam seu nome nas pistas e sua equipe principal apareceu com um visual retrô, tanto nas motos quanto nas roupas dos mecânicos e dos pilotos. A cigarreira Altadis, proprietária da marca Gauloises, consentiu em não ter seu nome pintado nas motos, possibilitando que elas fossem pintadas no grafismo amarelo, preto e branco usado nas motos de competição inscritas pela Yamaha USA nas décadas de 1970 e 1980. A pintura foi consagrada pelos títulos mundiais de Kenny Roberts entre 1978 e 1980 e marcou época para toda uma geração de fãs de corridas de motos – algo como o preto e dourado da John Player Special nos carros da Lotus. O retorno foi imenso: não faltaram reportagens sobre a Yamaha durante os dias que antecederam o GP. 

Como se não bastasse, quem esteve em Laguna Seca assistiu a uma dobradinha de pilotos “da casa”, com Nicky Hayden obtendo sua primeira vitória no Mundial, à frente do compatriota Colin Edwards e do astro Valentino Rossi – estes dois últimos ao guidão das Yamaha “retrô”. No pódio, uma amostra do tratamento que a MotoGP destina a seus antigos campeões – e aos não tão antigos assim: os troféus foram entregues por ex-campeões mundiais, como Eddie Lawson e Kevin Schwantz. O público, em todos os momentos, delirou e sacudiu com vontade as bandeiras dos Estados Unidos. Se a MotoGP tinha alguma necessidade de agradar ao público dos EUA, a oportunidade foi muito bem aproveitada.

A Yamaha de Kenny Roberts na década de 1970.
Agora voltemos à Fórmula 1. Com exceção de Alain Prost, que esteve no pódio no GP da França, não lembro de nenhum episódio recente de ex-campeão mundial sendo convidado para entregar um troféu no pódio ou recebendo algum tipo de homenagem. Os patrocinadores, por sua vez, são tratados mais como penetras do que como responsáveis pelo dinheiro que faz girar a roda da fortuna. A Red Bull foi reduzida a RBR nas identificações oficiais das transmissões. Procedimento incompreensível quando se sabe que, se não fosse a empresa austríaca de bebidas energéticas, a F 1 teria neste ano uma equipe a menos: não havia outro interessado em comprar o espólio da Jaguar. (Aqui no Brasil, alguma mente “brilhante” da Rede Globo entrou na onda e determinou que locutores, comentaristas e apresentadores de telejornais usem o “RBR” e não o verdadeiro nome da equipe. Deve ser o mesmo sujeito que obriga os colegas jornalistas da casa a substituir nomes e marcas por expressões como “fabricante japonês” ou “pneus franceses”.) 

Outro exemplo de como a F 1 maltrata seus patrocinadores ocorreu no GP da China de F 1 de 2004. Naquela ocasião, a BAR pretendia pintar seus carros nas cores do cigarro 555, bem mais conhecido naquele país do que os Lucky Strike cuja identidade visual foi a base para a pintura da BAR. A FIA não permitiu: autorizou o azul e amarelo do 555 somente no terceiro carro, de Anthony Davidson, que fazia os testes de sexta-feira. Os carros de Jenson Button e Takuma Sato tiveram que correr com as cores originais, apenas com a inscrição 555 no lugar do tradicional Lucky Strike. Razões para isso? Remontam a 1998, ano em que a FIA baixou uma série de “rígidas normas” sobre a decoração dos carros – por coincidência, mirando na própria BAR, que tinha a intenção de aproveitar a promoção gerada pela participação na F 1 pintando cada carro de uma cor diferente e eventualmente mudando-as em determinados GPs. É o tipo de regra que não traz benefício algum nem serve para alguma coisa de prático, a não ser manifestar o poder de quem as outorga. 

Regulamentos estúpidos, dirigentes que tratam patrocinadores como se fossem “persona non grata”, desprezo pelos torcedores e pela própria história. É com procedimentos assim que a Fórmula 1 vai perdendo seu poder de atração junto a público, fabricantes e patrocinadores. 





Enfim, uma atuação convincente de Montoya na McLaren.
Ah, sim, teve GP de F 1 em Silverstone... Merece elogios a atuação nota dez de Juan Pablo Montoya, que já estava devendo uma corrida à altura de seu talento e do carro que tem. E merece nota zero a regra que faz um piloto perder dez posições no grid de largada quando precisa trocar de motor nos treinos. Por causa dessa imbecilidade, os espectadores perderam pelo segundo GP seguido a chance de ver Kimi Raikkonen desafiando Fernando Alonso na pista. 

Criada para “diminuir custos e conseqüentemente favorecer a competitividade da F 1” (palavras da FIA), a regra que proíbe trocas de motores a cada duas corridas ajudou tremendamente o talentoso piloto espanhol a abrir boa vantagem de pontos sobre o não menos talentoso finlandês. Para a McLaren, a “economia” (no final das contas inexistente, porque em caso de quebra novos motores são colocados de qualquer maneira) vai custar tremendamente mais caro na forma da possível perda de um campeonato. 

Um último comentário. Ninguém duvida que Raikkonen é um piloto muito rápido e talentoso. Mas, tanto na França quanto na Inglaterra, chamou minha atenção o fato de que o finlandês, depois de fazer uma ou outra ultrapassagem nas primeiras voltas, empacou atrás de carros mais lentos, em posições como oitavo ou décimo lugar, e depois subiu de posição graças a voltas rápidas e com pista livre entre pit stops. Estou estranhando o silêncio dos humoristas, que nas mesmas circunstâncias costumam dizer que um determinado piloto “não sabe fazer ultrapassagens”. 

Boa semana a todos. LAP
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