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Home » Colunas » Luiz Alberto Pandini » 01.07.05
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Cavalheiros 01.07.05
Tom Kristensen teve a torcida de Ickx.
Foi uma pena que a 24 Horas de Le Mans deste ano tivesse acontecido justamente no mesmo final de semana do GP dos Estados Unidos. Os bisonhos fatos ocorridos em Indianapolis acabaram ofuscando uma histórica edição da 24 Horas de Le Mans. 

Além da sétima vitória do dinamarquês Tom Kristensen – novo recorde para a mítica prova francesa –, a corrida passou a ter um recorde também entre os automóveis vitoriosos: o modelo Audi R8 tornou-se o mais vitorioso da história da corrida, com cinco vitórias entre 2000 e 2005 (só perdeu em 2003, para os Bentley EXP Speed 8). Entre as marcas, a Porsche continua recordista absoluta com 16 vitórias. Como se não bastasse, o brasileiro Thomas Erdos fez parte do trio vencedor da categoria LMP2, onde correm os protótipos menos potentes.

E como reagiu o belga Jacky Ickx ao perder o cetro de piloto mais vitorioso na história de Le Mans? Respondo esta pergunta reproduzindo parte de uma notícia publciada no site www.speedonline.com.br, do meu amigo Jorge Kraucher: 

Jacky Ickx, à direita. Ao lado dele está Vic Elford, outro piloto lendário.
“Instantes antes do início da corrida, no sábado, o celular de Kristensen tocou. Do outro lado da linha estava ninguém menos que o belga Jacky Ickx, que até então dividia com Tom os méritos de ter vencido seis vezes a tradicional disputa em Le Mans. ‘Ele disse que estaria torcendo por mim. O Jacky é único, tem um ótimo caráter e é o ‘Mister Le Mans’. Não vejo a hora de reencontrá-lo”, disse Kristensen após a corrida.”

Surpreendente? Não, se recorrermos a outros recordistas que um dia tiveram suas marcas superadas – e até a um que não viveu o suficiente para ver isto acontecer.

Fangio e Senna em encontro de 1991.
Ainda há poucos dias, revirava alguns arquivos em casa quando encontrei com uma reportagem publicada em junho de 1992 no jornal “Folha de S. Paulo” e escrita por nossa colunista Alessandra Alves. Juan Manuel Fangio esteve no Brasil e concedeu entrevista coletiva no Nacional Clube, em São Paulo. Na ocasião, declarou que achava que seu recorde de cinco títulos, estabelecido em 1957, não duraria muito tempo. Prosseguiu dizendo que considerava Ayrton Senna como sendo o piloto que iria superar sua marca e arrematou: “Quem sabe assim eu descanso um pouco do ‘mito Fangio’”.

O recorde de cinco títulos seria igualado em 2002, por Michael Schumacher – que ainda conquistou outros dois títulos nos anos seguintes. Fangio havia morrido em 1995. Relendo a coluna que escrevi em 21 de julho de 2002 (o dia da conquista do quinto título do alemão), deparo com as seguintes palavras:

Schumacher no pódio do GP da Bélgica de 1992, sua primeira vitória na F 1.
“O destino quis que os cinco títulos de Fangio fossem igualados por Schumacher e não por Senna. Se estivesse vivo, Fangio, com todo seu cavalheirismo, simpatia e humildade, certamente já teria cumprimentado Schumacher pela conquista de hoje.” Registrei também as palavras do jornalista argentino Eduardo Ruiz, da Fox Sports Latinoamerica, aos colegas do www.grandepremio.com.br: “Tivemos que esperar 50 anos para que alguém repetisse o feito de Fangio, o que não é pouco tempo. Schumacher é um grande piloto e nos sentimos orgulhosos na Argentina de que Juan Manuel Fangio seja uma referência para todos”.

Jackie Stewart cumprimentou Prost ao ser superado pelo francês.
E Schumacher sobre essa história toda? “Repito o que já disse várias vezes: não é justo nos comparar. O que os pilotos faziam naquela época era demais. Eles guiavam carros perigosos em pistas precárias, eu talvez não conseguiria fazer o mesmo. Fangio construiu uma carreira inacreditável.’”

Os exemplos não acabam por aí. Jackie Stewart foi um dos primeiros a cumprimentar Alain Prost quando o francês venceu o GP de Portugal de 1987. Naquele dia, Prost chegou à sua 28ª vitória na F 1, superando o antigo recorde de Stewart. Prost reagiu de maneira parecida à do escocês em 2001, quando seu recorde de 51 vitórias foi superado por Schumacher. 

Para os torcedores, determinados momentos são a celebração de um acontecimento único, puramente emocional, quase sempre vivido em um momento de lazer. Para os esportistas, esses mesmos momentos são igualmente emocionantes e importantes, mas acontecem depois que é atravessado todo um período de rotina profissional. Talvez por esta razão os esportistas normalmente tenham reações bem mais serenas, ponderadas e maduras que as de seus próprios torcedores.
Prost deu ao recorde de 1987 a mesma importância de um título.
LAP
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