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Eu avisei 19.06.05
Regulamento de merda dá nisso.

A frase acima é o título da minha coluna anterior. Aludia principalmente às insanas regras que atualmente regem o item “pneus” na Fórmula 1. E poderia tranqüilamente ser usada novamente para falar deste histórico GP dos Estados Unidos. 

Sim, o GP dos Estados Unidos foi uma corrida histórica – só que pelo aspecto negativo. Nunca, em 56 temporadas, a Fórmula 1 havia escancarado tão claramente uma crise. Nem durante o acidentado GP da Espanha de 1975, em que os níveis de segurança foram em muito desrespeitados, nem durante os GPs da Espanha de 1980, África do Sul de 1981 e San Marino de 1982 – boicotados e/ou anulados devido a brigas políticas causadas por disputas técnicas, políticas e financeiras.

O público protesta
Como amante do automobilismo, foi triste ver o público vaiar o espetáculo e apontar o polegar para baixo. Foi estarrecedor ver pessoas se enfezando a ponto de atirar latas e garrafas na pista, agindo como certos selvagens desqualificados que infestam as piores torcidas organizadas do futebol brasileiro. E foi espantosa a rapidez com que eles encontraram meios de se manifestar contra a corrida de seis carros que aconteceu em Indianapolis. Logo nas primeiras voltas, surgiu uma faixa com a inscrição “Black flag this!” (em tradução não literal, “usem a bandeira preta e acabem com essa palhaçada de uma vez”) e um cartaz com um recado curto e grosso: “$ back” (em bom português, “devolvam nosso dinheiro”).

Mas, ao mesmo tempo, delirei de satisfação ao ver a enrascada em que a Fórmula 1 se meteu por culpa da prepotência de quem a dirige. Lembrei que desde outubro de 2002 venho avisando que a categoria está enveredando por um caminho completamente equivocado na busca por competitividade e custos menores. Se minhas colunas tivessem alguma repercussão junto à FIA ou às equipes, eu poderia esfregar na cara deles uma expressão como “eu avisei”. Ninguém poderia me acusar de omissão, de conivência ou de participação ativa na elaboração desses regulamentos estúpidos, idiotas, absurdos e ineficazes que vem sendo aplicados de 2003 para cá. 

Este era o grid completo no momento da largada.
O que aconteceu em Indianapolis não me surpreendeu. Em algum momento, o fundo do poço chegaria. Mas confesso que as proporções foram bem mais dantescas do que eu poderia imaginar. Seis carros largando e catorze entrando no box após a volta de apresentação. Tudo porque um regulamento estúpido faz uma série de restrições absurdas em um item primordial para a segurança, que são os pneus.

Mais irônico ainda é que estas regras cretinas foram oficializadas a partir de uma sugestão feita pela Michelin, justamente a fabricante que se viu diante da iminência de um desastre em Indianapolis. E aí se viu um show de incoerências: a Michelin queria que, para a corrida, suas equipes usassem pneus diferentes daqueles que haviam sido usados nos treinos – um flagrante desrespeito ao regulamento. Depois, queria construir uma chicane antes da “curva 13” (no traçado original de Indianapolis, a curva 1), que leva à reta de chegada. Cerca de uma hora antes da corrida, chegou-se a começar a montar essa chicane, de acordo com o relato do repórter Fábio Seixas à Rádio Bandeirantes. Nesse caso, os pilotos largariam para a corrida tendo que percorrer uma chicane que seria conhecida de todos apenas após as duas ou três voltas de alinhamento e mais uma de aquecimento. Impossível imaginar algo mais ridículo e amadorístico.

A Ferrari na pista, as equipes de Michelin a caminho dos boxes
A Ferrari, contra quem praticamente todas as demais equipes se voltaram nos últimos anos, foi contra e a chicane improvisada não saiu da idéia. E foi aí que a Michelin orientou suas equipes a recolherem os carros aos boxes após a volta de apresentação. Algumas pessoas, como Paul Stoddart, da Minardi, acusaram a equipe italiana de ter “jogado a favor de seus interesses e contra o esporte”. 

Não, meus amigos, não foi nada disso. A Ferrari nada mais fez do que usar o bom senso. A FIA, sensatamente, fez com que o regulamento fosse cumprido. Ele é uma merda? É, mas desrespeitá-lo porque um fabricante de pneus não se preparou adequadamente para uma corrida seria pior ainda. A Ferrari não tinha nenhuma razão para facilitar o jogo a seus adversários. Existem dois fornecedores de pneus na F 1, e a Ferrari não tem culpa de ser uma das três equipes que correm com pneus fornecidos pelo fabricante (Bridgestone) que fez a avaliação correta das necessidades e características de Indianapolis. 

Venho repetindo desde outubro de 2002, com uma ou outra variação, que o regulamento da Fórmula 1 é uma merda. Foi quando a FIA, desesperada com o domínio da Ferrari, resolveu começar a fazer experiências desastrosas com a categoria, via mudanças de regras técnicas e desportivas. Desde essa época, venho repetindo que o caminho era errado e poderia levar a Fórmula 1 a um terrível descrédito. Hoje, tudo isso se confirmou – e justamente nos Estados Unidos, onde a Fórmula 1 tanto vinha se esforçando para ter alguma popularidade e credibilidade. 

Bem feito para todos eles.




A Rede Globo, mais uma vez, demonstrou total falta de respeito por seus telespectadores. Mostrou os primeiros 40 ou 45 minutos de corrida, interrompeu a transmissão para passar o jogo Brasil x México, e em momento algum a emissora teve a gentileza de esclarecer se passaria um resumo da prova depois do jogo, se passaria um compacto em outro horário, ou se não faria nada. Má-fé idêntica à que vimos no GP da Bélgica do ano passado, que coincidiu com a final do vôlei masculino na Olimpíada de Atenas: em vez de informar o telespectador, coloca-o na mais absoluta treva, esperando que ele fique na frente da televisão (e aumente os índices de audiência) à espera daquilo que realmente lhe interessa.

Priorizar o futebol ao automobilismo é perfeitamente compreensível diante dos números de audiência proporcionados por um e outro. O que não dá é para concordar com a atitude desonesta e desrespeitosa tomada por algum grupo de pulhas e biltres que, em sua vilania e torpeza, pretendem manter o maior número possível de telespectadores como reféns de suas decisões mesquinhas em nome dos “índices de audiência”.

Não caio mais nessa depois da lição do ano passado. Saí normalmente para almoçar com minha família e só vi a primeira parte da corrida porque estava em um restaurante com televisão. O poder de manipulação da Globo é imenso, mas tem seus limites. E esses limites podem ser determinados por nós, não por eles.




No pódio, a expressão de Schumacher dispensa maiores explicações.
No meio de tudo isso, aconteceu uma corrida com dois carros da Ferrari, dois da Jordan e dois da Minardi. Terminaram exatamente nesta ordem, salvando um pouco (bem pouco) da reputação da Fórmula 1. Enquanto almoçava e via aquilo, comentei com minha mulher: imagine se as duas Ferrari quebram ou se ninguém termina a corrida?

Na pista, Schumacher só deixou de liderar por causa de um demorado primeiro pit stop. Depois, voltou à liderança em uma manobra que causou certa polêmica, até Barrichello declarar: “Peguei sujeira e não tive como frear”. Segundo ele, a equipe pediu-lhe que “reduzisse os giros”. Sua cara no pódio e o fato de não ter cumprimentado Schumacher deixam aberta a hipótese, bastante provável, de a equipe ter mandado que eles mantivessem as respectivas posições. 

Tão patética quanto a própria corrida foi a declaração de Barrichello: “Sou só um brasileirinho contra esse mundo todo”. Frase sob medida para agradar àquele tipo de torcedor que acha que F 1 é um esporte feito unicamente para glorificar brasileiros, e que vira uma farsa quando este roteiro não é seguido. Lamentável.




Um viva para Tiago Monteiro, que aproveitou as circunstâncias para conseguir o primeiro pódio de um piloto português na Fórmula 1. Sua comemoração no pódio foi absolutamente genuína, tanto quanto a consternação de Michael Schumacher e a contrariedade de Rubens Barrichello.




Toda essa podridão, infelizmente, acabou ofuscando as boas notícias do final de semana.

Nosso companheiro Ricardo Divila trabalhou como engenheiro-chefe da equipe Pescarolo Motorsport na 24 Horas de Le Mans. Os dois carros largaram na primeira fila e lideraram com tranqüilidade durante algum tempo, até que um problema mecânico (ainda não tenho maiores detalhes a respeito) provocou um atraso considerável. Ganhou o Audi R8 do dinamarquês Tom Kristensen, do finlandês Jirki Jarvi Lehto e do alemão Marco Werner, com o Pescarolo-Judd de Emmanuel Collard, Jean-Christophe Boullion e Erik Comas (todos franceses) em segundo lugar, e outro Audi R8, de Frank Biela/Emanuele Pirro/Allan McNish, em terceiro. Foi a sétima vitória de Kristensen em Le Mans (a sexta seguida), superando o recorde histórico do belga Jacky Ickx. Pirro, por sua vez, conseguiu o recorde de sete subidas consecutivas ao pódio, incluindo aí três vitórias.

Houve também uma vitória brasileira: Thomas Erdos, a quem dediquei uma coluna há poucas semanas, foi um dos pilotos que dirigiram o Lola-MG vencedor da classe LM2 (os protótipos com motores de menor cilindrada). Seus companheiros foram os britânicos Mike Newton e Warren Hughes. 




Eu tinha a intenção de usar esta coluna para analisar o pacote de medidas que a FIA pretende baixar para a F 1 a partir de 2008. Os acontecimentos, porém, fizeram com que eu deixasse essa análise para uma próxima oportunidade. De imediato, afirmo que acho boas várias das idéias propostas. Outras poderiam ir para a mesma lata de lixo em que, espero, seja jogado o atual regulamento.




Mais notícias sobre todos esses acontecimentos podem ser lidas nos sites parceiros www.grandepremio.com.br e www.f1naweb.com.br. Abraços,

LAP
Veja o comentário do Edu sobre o GP dos EUA
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