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Home » Colunas » Luiz Alberto Pandini » 02.05.05
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O dia em que Schumacher voltou ao kart 02.05.05
Você consegue imaginar um campeão mundial de Fórmula 1 voltando ao kart? Não para uma brincadeira ou uma corrida promocional, mas “voltar ao kart” mesmo, disputando freadas com pilotos bem mais jovens e que estão com a “mão” total neles? 

O fascínio do kart leva alguns pilotos a considerarem esta hipótese. Ayrton Senna nunca escondeu que sua maior frustração era o fato de nunca ter sido campeão mundial de kart. Ele disputou o Mundial entre 1978 e 1982, e passou perto do título em duas oportunidades: foi vice em 1979 (quando o campeonato foi disputado em Estoril, Portugal) e em 1980 (em Nivelles, na Bélgica). Às vésperas de estrear na Fórmula 1, Senna chegou a garantir que continuaria tentando acrescentar a seu currículo o título mundial de kart. Por razões diversas, não chegou a fazê-lo. A honra de conquistar o título mundial de kart coube a outros três brasileiros: o carioca Guga Ribas, em 1986, e os paulistas Gastão Fráguas, em 1995, e Rubem Carrapatoso, em 1998.

Schumacher na etapa final do Mundial de Kart de 2001
Michael Schumacher nunca se referiu ao título mundial de kart como um grande sonho. Mesmo assim, resolveu encarar as jovens feras do kart quando já era um piloto consagrado. Foi em 2001, ano em que o Mundial foi disputado em dez corridas (cinco rodadas duplas) em vários países. Era a primeira vez que se disputava o Mundial de Kart dessa maneira: historicamente, a competição sempre foi disputada com um único evento. As duas últimas etapas aconteceram no kartódromo de Kerpen, na Alemanha, justamente onde um tal de Michael Schumacher treinava sem parar quando era adolescente. Seu pai, Rolf, trabalhava como administrador do kartódromo.

Creio que você já está imaginando o que aconteceu. Schumacher, que no final de 2001 ainda era “apenas” tetracampeão mundial de Fórmua 1, arranjou um kart especialmente para curtir a satisfação de disputar uma etapa do Mundial de Kart próximo à cidade natal. “Arranjou um kart”, na verdade, é apenas maneira de dizer: ele correu pela equipe Tony Kart SRL, ao lado do estoniano Marko Asmer e substituindo o japonês Takahide Sugiyama, que tinha apenas três pontos marcados no campeonato. 

É fácil ter uma dimensão do interesse que a participação de Schumacher gerou pela corrida. Imaginem seria uma etapa do Mundial de Kart sendo realizada em Interlagos (poderia ser também na Granja Viana ou em Aldeia da Serra) com a participação de um tal de Ayrton Senna. 

Engana-se quem imagina que pilotos consagrados, mesmo com um brilhante passado no kart, “nadem de braçada” diante de kartistas no auge da forma. No final de 1991, Senna organizou uma corrida no kartódromo de sua fazenda, em Tatuí (cobri essa corrida e prometo falar mais sobre ela em uma próxima oportunidade), e teve muito trabalho para terminar em terceiro lugar – o vencedor foi Tony Kanaan. Com Schumacher em Kerpen, não seria diferente – e ele sabia disso. Nos primeiros testes, a balança acusou 148 kg de peso para o conjunto kart-piloto – oito quilos a mais que o limite mínimo permitido. A equipe Tony Kart LCR “aliviou” quatro quilos no equipamento, e o restante ficou por conta de Schumacher: “Fiz uma preparação física draconiana para esta corrida. Perdi 3 quilos em poucas semanas.” 

Liuzzi e Schumacher se encontram em Kerpen
Todo esse cuidado era plenamente justificável. Na Europa e nos Estados Unidos existe uma disputa feroz entre fabricantes de chassis, motores e pneus de kart. Isso leva muitos pilotos a se profissionalizarem nessa modalidade, sem passar para as categorias de automóvel. Vários dos melhores pilotos da história dos mundiais de kart (como o inglês Terry Fullerton, bastante citado por Senna entre os adversários mais duros que teve em sua carreira, e o belga François Goldenstein, quatro vezes campeão mundial na década de 1970) jamais fizeram carreira em categorias de automóvel. Por isso, era plena de sentido a declaração de Schumacher antes da corrida de Kerpen: “Ganhar uma corrida contra os melhores pilotos de kart do mundo é um verdadeiro desafio”. 

A presença de Schumacher era uma atração, mas não ofuscou a disputa pelo título mundial. Liuzzi liderava o campeonato com 156 pontos. Outro italiano, Davide Fore, tinha 125 e era o único que poderia superá-lo. Como o vencedor de cada corrida marcava 25 pontos, Liuzzi precisaria somar 20 pontos (o equivalente a um segundo lugar ou dois quintos) para comemorar o título sem se preocupar com os resultados de Fore. 

A chuva esteve presente durante quase todo o tempo, tanto nas baterias eliminatórias quanto nos treinos classificatórios e nas duas corridas (uma em cada dia). Os 42 pilotos inscritos foram divididos em dois grupos para o treino classificatório, e Schumacher estava incluído no primeiro. Sob chuva, conseguiu o melhor tempo. Mas o segundo grupo treinou com pista seca e, evidentemente, fez tempos melhores, relegando Schumacher ao 22º lugar. 

Os pilotos foram então divididos em três grupos (A, B e C), sendo que cada grupo enfrentaria os outros dois, um de cada vez (A+B, B+C e A+C). O número de pontos perdidos (zero para o vencedor, dois para o segundo colocado, três para o terceiro e assim por diante) definiria o grid de largada para a primeira corrida “verdadeira”, que valeria pontos para o Mundial. Na corrida “A+B”, Schumacher largou em 15º lugar e ganhou dez posições, até que o motor começou a superaquecer por causa de uma pane na bomba de água. O alemão abrandou o ritmo, controlou a temperatura por meio de contínuos ajustes manuais na carburação e preservou seu motor, terminando em 8º. Na corrida dos grupos A e C, Schumacher enroscou-se com o francês Julien Poncelet e terminou em 15º lugar. Os pontos somados deram ao alemão o 16º lugar no grid da primeira corrida.

A disputa entre Liuzzi e Schumacher na primeira corrida. O alemão teve trabalho para conseguir a ultrapassagem.
Tudo estava perdido, certo? Não. Sob chuva, Schumacher retardou a freada para a primeira curva, entrou pelo lado externo... e saiu em quinto lugar. Ganhou 11 posições em duas curvas... Depois, ultrapassou Nico Rosberg (filho de Keke) e aproximou-se de Liuzzi, que estava em terceiro. O italiano não se intimidou e resistiu muito bem à pressão de Schumacher. O alemão finalmente conseguiu a ultrapassagem e se aproximava do segundo colocado, Marco Ardigo, quando saiu da pista ao ter um rolamento de roda quebrado em plena freada, a oito voltas do final. O italiano Sauro Cesetti venceu a prova e Liuzzi garantiu o título, já que Davide Fore sequer chegou a completar a primeira volta.

O resultado da primeira corrida definiu o grid da segunda – com Schumacher largando em 25º lugar. Seu início de corrida foi ainda mais impressionante que o da da primeira corrida: completou a primeira volta em sétimo lugar. Fez duas ultrapassagens e beneficiou-se de um acidente entre dois pilotos que estavam à sua frente para receber a bandeirada em terceiro – e ainda subiria para segundo com a desclassificação de Ardigo, vencedor da prova, por atitude antidesportiva. Os 20 pontos do segundo lugar fizeram Schumacher constar em 21º na classificação final do campeonato. 

Houve um tempo em que os pilotos de Fórmula 1 participavam de corridas de outras categorias (Fórmula 2, Fórmula 5000, Protótipos, Fórmula Indy e, acreditem, ralis em alguns casos). Era a única maneira de ganhar uma quantia razoável de dinheiro. O aumento crescente do profissionalismo, em todas as categorias, tornou isto praticamente impossível nos dias de hoje. A necessidade de “preservar a imagem” também inibiu a participação de pilotos de F 1 em plena atividade em provas de outras categorias. A participação de Schumacher na prova de Kerpen provou que correr contra outros adversários e eventualmente perder não faz mal à imagem de ninguém.
(LAP)

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