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| » » » 22.04.05 |
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| O dia em que Schumacher voltou ao kart |
22.04.05 |
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Se você é daqueles que nunca haviam ouvido falar em Vitantonio Lizzi, o italiano que começou a temporada como terceiro piloto da Red Bull e fará sua estréia oficial no GP de San Marino, prepare-se para conhecê-lo melhor. Os antecedentes do rapaz mostram, no mínimo, que vale a pena prestar atenção nele.
Liuzzi tem 23 anos e começou a correr de kart aos dez. Seu currículo é recheado de títulos e vitórias – uma delas aconteceu em uma corrida internacional disputada no kartódromo de Interlagos, em 1997. Em 2001, fez sua primeira temporada com carros e também a última no kart. Foi vice-campeão alemão de Fórmula Renault e campeão mundial de kart. Passou em seguida para as fórmulas 3 e 3000, sendo campeão desta última no ano passado. Ainda em 2002, fez seu primeiro teste com um Fórmula 1 – um Williams-BMW, no circuito de Valencia, na Espanha.
Este resumo é apenas para evitar que alguém pense algo como “De onde saiu esse Liuzzi? Aposto que vai correr só porque é italiano e a corrida de domingo é em Imola”. Não, não é. O cara, pelo jeito, acelera muito. Na Austrália, em seu primeiro treino oficial para um GP, ele simplesmente terminou com o melhor tempo. É certo que o fato de ser terceiro piloto dispensava a necessidade de poupar pneus e motor, mas isso não tira seus méritos: afinal, ele deixou para trás outros pilotos de teste, alguns deles mais experientes e ao volante de carros melhores que o Red Bull.
Michael Schumacher já tomou canseira de Liuzzi em uma disputa direta. Isso aconteceu em 2001. Naquele ano, o Mundial foi disputado em dez corridas (cinco rodadas duplas). Era uma fórmula nova, já que historicamente a competição sempre foi disputada em um único evento. As duas últimas etapas aconteceram no kartódromo de Kerpen, na Alemanha, justamente onde um tal de Michael Schumacher treinava sem parar quando era adolescente. Seu pai, Rolf, trabalhava como administrador do kartódromo.
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| Liuzzi e Schumacher se encontram em Kerpen |
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Creio que você já está imaginando o que aconteceu. Schumacher, que no final de 2001 ainda era “apenas” tetracampeão mundial, arranjou um kart especialmente para curtir a satisfação de disputar uma etapa do Mundial de Kart próximo à cidade natal. “Arranjou um kart”, na verdade, é apenas maneira de dizer: ele correu pela equipe Tony Kart SRL, ao lado do estoniano Marko Asmer e substituindo o japonês Takahide Sugiyama, que tinha apenas três pontos marcados no campeonato.
É fácil ter uma dimensão do interesse que a participação de Schumacher gerou pela corrida. Imaginem seria uma etapa do Mundial de Kart sendo realizada em Interlagos (poderia ser também na Granja Viana ou em Aldeia da Serra) com a participação de um tal de Ayrton Senna.
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| A disputa entre Liuzzi e Schumacher na primeira corrida. O alemão teve trabalho para conseguir a ultrapassagem. |
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Engana-se quem imagina que pilotos consagrados, mesmo com um brilhante passado no kart, “nadem de braçada” diante de kartistas no auge da forma. No final de 1991, Senna organizou uma corrida no kartódromo de sua fazenda, em Tatuí (cobri essa corrida e prometo falar mais sobre ela em uma próxima oportunidade), e teve muito trabalho para terminar em terceiro lugar – o vencedor foi Tony Kanaan. Com Schumacher em Kerpen, não seria diferente – e ele sabia disso. Nos primeiros testes, a balança acusou 148 kg de peso para o conjunto kart-piloto – oito quilos a mais que o limite mínimo permitido. A equipe Tony Kart LCR “aliviou” quatro quilos no equipamento, e o restante ficou por conta de Schumacher: “Fiz uma preparação física draconiana para esta corrida. Perdi 3 quilos em poucas semanas.”
Todo esse cuidado era plenamente justificável. Na Europa e nos Estados Unidos existe uma disputa feroz entre fabricantes de chassis, motores e pneus de kart. Isso leva muitos pilotos a se profissionalizarem nessa modalidade, sem passar para as categorias de automóvel. Vários dos melhores pilotos da história dos mundiais de kart (como o inglês Terry Fullerton, bastante citado por Senna entre os adversários mais duros que teve em sua carreira, e o belga François Goldenstein, quatro vezes campeão mundial na década de 1970) jamais fizeram carreira em categorias de automóvel. Por isso, era plena de sentido a declaração de Schumacher antes da corrida de Kerpen: “Ganhar uma corrida contra os melhores pilotos de kart do mundo é um verdadeiro desafio”.
A presença de Schumacher era uma atração, mas não ofuscou a disputa pelo título mundial. Liuzzi liderava o campeonato com 156 pontos. Outro italiano, Davide Fore, tinha 125 e era o único que poderia superá-lo. Como o vencedor de cada corrida marcava 25 pontos, Liuzzi precisaria somar 20 pontos (o equivalente a um segundo lugar ou dois quintos) para comemorar o título sem se preocupar com os resultados de Fore.
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| Schumacher na etapa final do Mundial de Kart de 2001 |
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A chuva esteve presente durante quase todo o tempo, tanto nas baterias eliminatórias quanto nos treinos classificatórios e nas duas corridas (uma em cada dia). Os 42 pilotos inscritos foram divididos em dois grupos para o treino classificatório, e Schumacher estava incluído no primeiro. Sob chuva, conseguiu o melhor tempo. Mas o segundo grupo treinou com pista seca e, evidentemente, fez tempos melhores, relegando Schumacher ao 22º lugar.
Os pilotos foram então divididos em três grupos (A, B e C), sendo que cada grupo enfrentaria os outros dois, um de cada vez (A+B, B+C e A+C). O número de pontos perdidos (zero para o vencedor, dois para o segundo colocado, três para o terceiro e assim por diante) definiria o grid de largada para a primeira corrida “verdadeira”, que valeria pontos para o Mundial. Na corrida “A+B”, Schumacher largou em 15º lugar e ganhou dez posições, até que o motor começou a superaquecer por causa de uma pane na bomba de água. O alemão abrandou o ritmo, controlou a temperatura por meio de contínuos ajustes manuais na carburação e preservou seu motor, terminando em 8º. Na corrida dos grupos A e C, Schumacher enroscou-se com o francês Julien Poncelet e terminou em 15º lugar. Os pontos somados deram ao alemão o 16º lugar no grid da primeira corrida.
Tudo estava perdido, certo? Não. Sob chuva, Schumacher retardou a freada para a primeira curva, entrou pelo lado externo... e saiu em quinto lugar. Ganhou 11 posições em duas curvas... Depois, ultrapassou Nico Rosberg (filho de Keke) e aproximou-se de Liuzzi, que estava em terceiro. O italiano não se intimidou e resistiu muito bem à pressão de Schumacher. O alemão finalmente conseguiu a ultrapassagem e se aproximava do segundo colocado, Marco Ardigo, quando saiu da pista ao ter um rolamento de roda quebrado em plena freada, a oito voltas do final. O italiano Sauro Cesetti venceu a prova e Liuzzi garantiu o título, já que Davide Fore sequer chegou a completar a primeira volta.
O resultado da primeira corrida definiu o grid da segunda – com Schumacher largando em 25º lugar. Seu início de corrida foi ainda mais impressionante que o da da primeira corrida: completou a primeira volta em sétimo lugar. Fez duas ultrapassagens e beneficiou-se de um acidente entre dois pilotos que estavam à sua frente para receber a bandeirada em terceiro – e ainda subiria para segundo com a desclassificação de Ardigo, vencedor da prova, por atitude antidesportiva. Os 20 pontos do segundo lugar fizeram Schumacher constar em 21º na classificação final do campeonato.
Houve um tempo em que os pilotos de Fórmula 1 participavam de corridas de outras categorias (Fórmula 2, Fórmula 5000, Protótipos, Fórmula Indy e, acreditem, ralis em alguns casos). Era a única maneira de ganhar uma quantia razoável de dinheiro. O aumento crescente do profissionalismo, em todas as categorias, tornou isto praticamente impossível nos dias de hoje. A necessidade de “preservar a imagem” também inibiu a participação de pilotos de F 1 em plena atividade em provas de outras categorias. A participação de Schumacher na prova de Kerpen provou que correr contra outros adversários e eventualmente perder não faz mal à imagem de ninguém.
(LAP)
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