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| » » » 24.03.05 |
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| A manobra mais bonita que vi na Fórmula 1 |
24.03.05 |
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"A manobra mais bonita que vi na Fórmula 1"
(Jackie Stewart, campeão mundial em 1969, 1971 e 1973)
O vídeo que vocês poderão ver, rever e conferir a partir de hoje no GPtotal mostra um daqueles momentos mágicos em que um piloto une habilidade, coragem, arrojo, sangue-frio e desprendimento. A ultrapassagem de Nelson Piquet sobre Ayrton Senna no GP da Hungria de 1986 é considerada por muitos como a mais bela da história da Fórmula 1 - há até quem diga que foi "a manobra do século".
O GP da Hungria de 1986 foi o primeiro realizado naquele país e o 11º dos 16 que compuseram aquela temporada - na minha opinião, uma das três melhores da história da Fórmula 1 (as outras foram as de 1974 e 1981). Naquela altura, Nigel Mansell liderava o campeonato e tinha Prost, Piquet e Senna em seus calcanhares. Piquet começou a temporada vencendo o GP do Brasil, mas depois entrou em uma fase negativa, em que enfrentou vários problemas mecânicos. Renasceu para a disputa pelo título após vencer o GP da Alemanha, que antecedeu o da Hungria. A etapa húngara, portanto, marcaria o início da fase decisiva do campeonato.
Senna largou na pole position com seu Lotus-Renault. Piquet e seu Williams-Honda completaram a primeira fila verde-amarela. Essa formação havia sido a mesma em outras três corridas daquele ano (Brasil, Espanha e San Marino, as três primeiras do campeonato) e também no GP da Europa, o antepenúltimo de 1985, quando Piquet ainda corria pela Brabham-BMW. Atrás dos brasileiros estavam Prost (McLaren-TAG Porsche) em terceiro e Mansell, companheiro de Piquet na Williams, em quarto.
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| Piquet na Hungria em 1986 |
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Dada a largada, Senna manteve a ponta e Mansell pulou para o segundo lugar. Mas o inglês não resistiu a Piquet, que ultrapassou-o logo na terceira volta e se aproximou rapidamente de Senna. Daí em diante, a disputa pela vitória ficou restrita aos dois brasileiros. Prost ainda tentou uma reação: chegou a ultrapassar Mansell e ocupou o terceiro lugar durante seis voltas, até fazer uma demorada parada no box para sanar uma pane elétrica. Depois de 23 voltas, o francês abandonou em definitivo, com o carro danificado após uma leve colisão com o Ligier-Renault de René Arnoux.
Na 13ª volta, Piquet ultrapassou Senna no final da reta dos boxes e abriu uma pequena distância. Mas todos os pilotos precisariam fazer uma troca de pneus (nessa época, o reabastecimento era proibido). Piquet fez sua parada na 36ª volta, devolvendo a liderança a Senna. O trabalho da Williams demorou mais que o normal e por isso Senna pôde fazer sua parada e voltar à pista ainda em primeiro lugar.
Todos sabem que Hungaroring é uma pista estreita e cheia de curvas ("um circuito de rua sem casas", descreveu o piloto inglês Martin Brundle, que na época defendia a Tyrrell). O único local propício para ultrapassagens era (e continua sendo) o final da reta dos boxes. O problema é que a reta é curta - e, na época, tinha algumas dezenas de metros a menos que hoje. A manobra de pegar o vácuo e tirar para o lado para fazer a ultrapassagem deve ser absolutamente precisa para haver tempo de voltar ao traçado ideal para fazer a tomada da primeira curva.
Senna chegou a fazer zigue-zagues em plena reta para manter a liderança. Na volta 54 (das 76 que a corrida teve), Piquet colocou por dentro e chegou a fazer a ultrapassagem, mas Senna também virou o volante para a direita, posicionando-se no meio da pista - e não no traçado habitual, pelo lado externo. No vídeo, essa manobra fica clara: basta ver que Senna sai completamente da linha mais escura formada pelo acúmulo de borracha dos pneus no asfalto.
Com isso, Piquet ficou espremido no lado direito da pista e sem espaço para recolher e voltar para trás de Senna. Precisou tomar a curva em um traçado completamente fora do habitual. O resultado é que, ainda na entrada da curva, teve que endireitar o volante, deixando as rodas em linha reta para poder frear, e com isso escapou para o lado externo. Senna entrou por dentro e, assim, retomou o primeiro lugar.
Duas voltas depois, Piquet fez nova tentativa, que culminou com uma das manobras mais espetaculares da história da F 1. Piquet ameaçou emparelhar por dentro e Senna, mais uma vez, jogou o carro para a direita, ficando no meio da pista. Piquet deu então seu golpe de mestre: puxou o carro para o traçado externo e deixou para frear o mais tarde que sua sanidade mental e instinto de preservação permitiriam fazê-lo. Ainda na reta, Senna tentou voltar para o traçado externo, mas Piquet já estava a seu lado e o piloto da Lotus ficou onde estava, certo de que recuperaria a posição ao entrar por dentro na curva.
Piquet completou a ultrapassagem no último metro de reta e entrou na curva com o carro de lado, derrapando nas quatro rodas, não deixando espaço para Senna reagir - tudo isso permeado por duas frenagens vigorosas que travaram as rodas e arrancaram fumaça dos pneus. Dali em diante, Piquet não perdeu mais a liderança e ganhou a corrida, deixando Senna em segundo lugar - a terceira dobradinha brasileira na temporada, sempre com Piquet à frente de Senna - e Mansell em terceiro - uma volta atrás dos dois brasileiros.
Depois da corrida, Piquet acusou Senna de não ter sido limpo na segunda tentativa de ultrapassagem: "Ele deixou o lado de fora para mim e eu aceitei, mas aí ele voltou para me espremer no lado esquerdo", reclamou. E emendou: "Depois que fiz a ultrapassagem, mandei-lhe uma bela rosca". Infelizmente, as imagens de TV não permitem identificar se a "rosca" existiu de fato ou se foi apenas uma brincadeira de Piquet.
A manobra de Piquet impressionou não apenas pela habilidade e pelo sangue-frio demonstrados pelo brasileiro, mas também porque na década de 1980 as derrapagens controladas já faziam parte de um passado distante da Fórmula 1. Elas aconteciam com alguma freqüência até meados dos anos 1970. Depois, as suspensões foram ficando cada vez mais rígidas e os carros cada vez mais baixos. Para completar, a evolução da aerodinâmica e dos pneus tornou extremamente tênue a linha que separa uma derrapagem controlada de uma saída de pista. Tecnicamente, portanto, "guiar de lado" deixou de ser apenas perda de tempo e transformou-se em uma temeridade.
Por tudo isso, a ultrapassagem de Piquet rendeu muitos comentários de admiração. "Foi como fazer um looping com um Boeing 747. A manobra mais bonita que já vi na Fórmula 1", declarou o tricampeão mundial Jackie Stewart. "Piquet mostrou que ainda tem a mesma verve e coração grande que o consagraram", publicou a revista brasileira "Auto Esporte". "Uma manobra de pura raça", registrou o anuário "Formula One FOCA Yearbook 1986/1987". "Piquet, em manobra arriscada mas dando um show de controle, passou Senna com o carro todo atravessado (...). Foi realmente uma ultrapassagem obtida 'no braço'", analisou Dedê Gomez no anuário "Motor 3-Fórmula 1 86". "Piquet humilhou Senna na pista", escreveu anos mais tarde Flávio Gomes na "Folha de S. Paulo".
Quem não gostou, é claro, foi Senna, que classificou a manobra de Piquet como "suicida" em entrevista concedida à revista "Quatro Rodas" no final de 1986. Curioso é que certos vídeos e DVDs sobre Senna limitam-se a mostrar apenas a primeira ultrapassagem, em que o então piloto da Lotus deu o "X" no adversário. A manobra em que Piquet passa para a liderança foi simplesmente deixada de lado, dando ao espectador desatento ou desinformado a impressão de que aquela disputa terminou com vitória de Senna. Talvez os responsáveis por tais edições não estejam plenamente seguros de que o culto ao mito resista à informação isenta e correta, sem omissões nem distorções de fatos.
Abraços a todos. (LAP)
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