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| » » » 03.03.05 |
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| Um Porsche, uma estrada de montanha... e nenhum guarda por perto |
03.03.05 |
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| Alguns dos Porsche no hotel, pouco antes do começo da viagem |
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Um Porsche, uma estrada de montanha... e nenhum guarda por perto.
Hoje não vou falar de corrida. Para quê? Todos os leitores do GPtotal já sabem que eu acho o atual regulamento da Fórmula 1 uma merda. (Se você "descobriu" nosso site há pouco tempo, por favor vá se acostumando com essa frase. Eu a usei bastante em 2003, dei uma folga em 2004 e vou requisitá-la regularmente em 2005.)
A Fórmula 1 que um dia me encantou acabou no final de 2002. Foi quando a FIA criou aquele monte de regras estúpidas que começaram a valer a partir de 2003. Para 2005, conseguiram piorar ainda mais a coisa. Limitar o uso de pneus a um único jogo para treinos classificatórios e corrida é o fim da picada. Obrigar os fãs a irem dormir no sábado à noite sem saber qual é o grid de largada me parece um sacrilégio. Ver largar na pole position um piloto que NÃO foi o mais rápido nos treinos - sim, corremos esse risco - é simplesmente ridículo.
Por tudo isso, não sinto qualquer entusiasmo para falar do GP da Austrália. Isso que temos aí não é Fórmula 1. Trata-se de um rebotalho que aproveitou o nome e os carros para fazer um "espetáculo" (passei a odiar essa palavra nos últimos tempos, devido ao sentido a ela atribuído por certo tipo de mídia) repleto de regras sem sentido, que sequer lograram os intentos de seus criadores (aumentar competitividade e baixar custos).
Mas a vida segue, e felizmente ela tem muito mais coisas para oferecer além desta pobre (podre?) categoria que ainda insistimos em chamar de Fórmula 1.
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| Ao volante de um dos melhores carros do mundo. A diversão ia começar logo depois. |
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Em fevereiro, mais precisamente no dia 19, tive um prazeroso compromisso profissional: ir à Espanha para o lançamento dos novos Porsche 911 conversíveis, versões Carrera e Carrera S. Viajei a convite da Porsche AG e da Porsche Latin America, integrando um grupo formado por jornalistas de países da América Latina, Ásia, África, Oceania e Oriente Médio. Programa principal: experimentar os carros em vias expressas e estradas de montanha.
Os jornalistas foram organizados em duplas - piloto e navegador, com eventuais trocas de postos a critério de cada dupla. Meu parceiro de viagem foi Carl-Fredrik Nordström, panamenho de origem sueca. Como de praxe nesses eventos, deveríamos seguir o roteiro preparado especialmente para a ocasião pela própria Porsche. Saindo do hotel, em Alcalá de Guadaira (cidade vizinha a Sevilha), percorria-se cerca de 76 km até chegar ao pé da serra de Zafalgar. Ali começava o trecho de montanha - uma estrada de mão dupla com asfalto impecável, mas estreita a ponto de não ter divisão de faixas para cada sentido. Quando dois carros se cruzavam, era necessário que ambos se posicionassem nas extremidades para que a passagem fosse possível. Não havia acostamento: somente barranco de um lado e precipício do outro - às vezes protegido por um muro baixo de alvenaria, às vezes "decorado" por um arbusto ou outra planta rasteira.
Escrevi no título "um Porsche", mas seria mais correto colocar "dois". Após 63 km de subida, parava-se em um pequeno hotel de Grazalema para almoço e troca de carros: quem saiu com um Carrera passava para um Carrera S, e vice-versa. A viagem de volta era feita descendo a montanha para em seguida entrar novamente nas rodovias.
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| No pé da montanha, pose para a posteridade. |
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Fred e eu começamos a viagem com um Carrera - o carro amarelo nas fotos. Combinamos que ele faria a primeira metade de cada percurso e eu a segunda. Era uma manhã de sol e o céu sem nuvens tinha um dos tons de azul mais bonitos que já vi, mas a temperatura ambiente estava em torno de seis graus centígrados. Saímos do hotel com a capota aberta, mas antes de entrarmos na autoestrada decidimos fechá-la. Isso é feito ao toque de um botão no console, mesmo que o carro esteja em movimento (a até 50 km/h).
Fred guiou 70 km e passou o volante para mim. Pouco depois, começou o trecho de montanha. Eu já havia dirigido Porsche em outras ocasiões, mas agora as circunstâncias eram completamente diferentes: era a primeira vez que eu poderia guiar um carro esporte da maneira como se deve fazer - ou seja, aproveitando ao máximo a aderência e a potência do motor. A estrada estreita desencorajava grandes ousadias, mas era perfeitamente possível "sentir" o carro nas curvas: bastava usar o câmbio para manter a rotação sempre próxima do regime de torque máximo e, assim, usufruir a potência do motor nas acelerações. Claro que, nessas horas, bom senso e experiência são imprescindíveis para preservar o carro e não se expor a acidentes.
Evidentemente, eu escolhia a dedo os locais em que era possível "abusar" mais. E brinquei com Fred: "Por enquanto você pode ficar tranqüilo, os precipícios ainda são pequenos. Quando chegarmos mais em cima, a queda vai ser bem maior..."
Meus amigos, que delícia. A estabilidade do Porsche 911 é inacreditável. Uma série de sistemas eletrônicos corrige todos os parâmetros de funcionamento o tempo todo, praticamente impedindo que um erro do piloto provoque um acidente. Aquilo que alguns "puristas" consideram um estorvo na Fórmula 1 transforma-se em algo extremamente desejável para quem não deseja misturar "emoção" com "riscos" ao pilotar um carro esporte de rua. Desde que não se faça nenhuma demência (por exemplo, entrar a 100 km/h numa curva que evidentemente não aceita essa velocidade), é possível "brincar" com toda a segurança.
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| A estrada vista do ponto mais alto. |
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O barulho do motor - um ronco forte, exatamente como se espera de um esportivo puro-sangue - convida a acelerar mais e mais. Mas à medida que vamos subindo os precipícios ficam mais altos, e evidentemente a prudência acaba prevalecendo. Mas o Porsche é bom também para andar devagar, admirando a paisagem. E, por incrível que pareça, esta é uma das razões que fazem os carros da marca alemã serem tão atraentes. É possível utilizá-lo também como um carro normal, para ir ao trabalho e voltar para casa. O conforto é digno de um carro de luxo e o funcionamento em baixas rotações é extremamente suave.
Chegamos a Grazalema e, depois do almoço, trocamos de carro com os colegas mexicanos Manuel Ruíz e Jesus Ballestreros. Na volta, usaríamos um Carrera S prateado. Esteticamente, as duas versões do Porsche 911 Cabriolet são praticamente iguais. Mas a mecânica tem diferenças significativas. O Carrera tem motor de 3,6 litros, com 325 cavalos; o Carrera S, com motor de 3,8 litros, chega a 355 cv e possui, entre outras coisas, suspensão ativa, opção de modo de suspensão (normal - mais macio - ou esportivo, bastando apertar uma tecla no painel para passar de um para outro), discos de freio feitos em cerâmica e um "brinquedo" sensacional: o Sport Chrono, um cronômetro instalado no painel que permite marcar e armazenar tempos de volta, caso você esteja em um autódromo. Dados de desempenho? Velocidade máxima de 285 km/h no Carrera e 293 km/h no Carrera S; aceleração de 0 a 100 km/h feita em 5s2 no Carrera e 4s9 no Carrera S. Saindo da imobilidade, o Carrera S precisa de apenas 17s1 para chegar a 200 km/h.
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| Começo da viagem de volta, já com o Carrera S. A placa de sinalização dá uma boa idéia da estrada que enfrentaríamos até chegar lá embaixo... |
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Saímos do restaurante e Fred começou guiando com prudência. Mesmo assim, foi possível perceber que o Carrera S era ainda mais confortável e estável que o Carrera, graças aos recursos da suspensão e a equipamentos eletrônicos não presentes na versão menos potente. Ainda no alto da montanha, paramos duas vezes para tirar fotos. À medida em que chegávamos lá embaixo, Fred começou a ousar mais nas curvas - e a reação do Porsche era absolutamente neutra. A descida, porém, era bem mais curta que a subida: rodamos 25 km até chegar à rodovia que nos levaria de volta a Alcalá de Guadaira. Mais 25 km e fizemos uma parada rápida para que eu assumisse o volante.
A essa altura, a temperatura ambiente já estava um pouco mais alta e permitia viajar com a capota aberta. Mesmo andando em altas velocidades, o vento não incomoda: produz apenas um ruído suave, que nem chega a incomodar. Para amenizar o frio, ligamos o aquecimento (pode-se escolher a temperatura desejada em escala de meio em meio grau) e direcionamos as saídas de ar para nossos rostos e mãos. Barulho mesmo, só o do motor - afinado, na medida certa, digno de uma verdadeira jóia mecânica. Conversa-se ou ouve-se música sem qualquer incômodo - "Hold on my heart", do Genesis, foi uma das que tocaram no rádio enquanto eu dirigia.
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| Já no Carrera S, uma parada para a foto. |
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É claro que aproveitei a rodovia para acelerar fundo. Em um momento de estrada vazia, cheguei sem muito esforço a 190 km/h. Não seria difícil chegar a 200 km/h, mas logo adiante havia um carro mais lento. Apesar de saber que uma freada mais vigorosa permitiria conter o Porsche a tempo e sem qualquer susto, preferi levantar o pé e não correr riscos desnecessários. Para mim, 190 km/h já estava ótimo.
Segundo o roteiro, a duração prevista para a viagem entre Grazalema e Alcalá de Guadaira era de uma hora e quarenta e cinco minutos - mas isso se a viagem fosse feita estritamente dentro dos limites de velocidade. É evidente que, em alguns momentos, ele foi "ligeiramente" superado. Confesso que no começo eu fui "devagar", mas perdi os pudores ao ser ultrapassado por outros três Porsche da nossa comitiva. Ao ver o que seus condutores faziam, concluí que poderia ousar mais. E foi o que fiz.
Fred e eu chegamos ao hotel, bebemos água e pegamos outro Carrera S, vermelho. Saímos para um roteiro mais curto em estradas próximas. Não havia mais o que experimentar: nosso objetivo agora era simplesmente aproveitar a oportunidade de dirigir (pilotar?) um dos melhores carros esporte do mundo.
Foi uma das tarefas profissionais mais agradáveis da minha vida. Que venham outras semelhantes!
Como vocês podem ver, o GPtotal está de visual renovado - um trabalho impecável da dupla Flaviano Guerra e Pablo Garcia, da . A partir de agora, cada colunista passa a ter uma área exclusiva, facilitando a busca por colunas anteriores. Esse formato será adotado também nas seções "Pergunte ao GPtotal" e "With a Little Help From Our Friends". Aos poucos, as colunas antigas serão enquadradas no índice de cada um. Até que isso aconteça, elas continuarão disponíveis no formato anterior. Nossa equipe de colunistas continua a mesma: eu, Edu, Ico, Alessandra, Tite, Castilho, Divila e Ernesto Rodrigues. Maurício e Dani, da KSoft, anjos da guarda do GPtotal desde o nascimento do site, colocarão no ar as colunas e fotos.
Apesar de já terem passado mais de dez dias, faço questão de registrar minha felicidade pelo sucesso do lançamento de "O Boto do Reno", o livro de crônicas de viagem do nosso companheiro Flavio Gomes, lançado pela editora LetraDelta com o selo GPtotal. Quem quiser ver as fotos do evento pode procurar a coluna de 23 de fevereiro e conferir algumas das pessoas que estiveram por lá. Para comprar o livro, basta entrar no link existente na capa do site.
O lançamento de "O Boto do Reno" proporcionou um delicioso reencontro com amigos e uma ótima oportunidade de conhecer vários leitores do GPtotal. Lamento apenas não ter tido mais tempo para conversar com cada um. Farei isso nos outros lançamentos que virão por aí. Aguardem!
Outra novidade do GPtotal para 2005 é que, a partir de agora, Ico passa a dividir comigo e com o Edu a cobertura dos GPs. A análise sobre o GP da Austrália será feita por ele e estará no ar entre domingo e segunda-feira. Sucesso na estréia, Ico!
Abraços a todos. (LAP)
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