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| » » » 15.06.09 |
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| As marcas e a Fórmula 1 |
15.06.09 |
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Os dedos nostálgicos percorrem páginas amareladas de velhos anuários automobilísticos. O de 1973 traz a briga ferrenha entre Matra e Ferrari pelo título do Mundial de Marcas, que contava também com nomes de peso como Porsche, Alfa Romeo, o Mirage-Ford nas cores da Gulf e até mesmo a participação luxuosa da Lancia na corrida de Targa Florio. A mão alcança outro volume na estante, é o de 1985, com um Mundial de Rali repleto de equipes de fábrica competindo no insano Grupo B: Peugeot; Audi, Lancia, Porsche, Opel, Toyota, Nissan.
“Marcas”. “Equipes de fábrica”. Está no DNA do esporte. O primeiro grande prêmio da história, disputado em 1906 na França, foi disputado por carros de empresas que ainda floresciam – e que buscaram os melhores pilotos disponíveis para testar e também promover os seus produtos. A Renault estava lá com três máquinas, incluindo a do vencedor, o húngaro Ferenc Szisz. A Fiat contava com dois dos maiores nomes da época, Felice Nazzaro e Vincenzo Lancia (que fundaria anos depois a sua própria fábrica). A Mercedes apostava na estrela do belga Camille Jenatzy, vencedor do famoso Troféu Gordon Bennett de 1903. Na Lorraine-Dietrich, outro belga foi posto à prova: Arthur Duray, um dos primeiros recordistas de velocidade da história.
Mais de um século depois, as marcas vivem uma enorme crise com os grandes prêmios. Depois da provocação jurídica da última sexta-feira, Max Mosley incendiou a revolta dos times alinhados com a FOTA. Até mesmo a ACEA (sigla da Associação Européia dos Construtores de Automóveis) divulgou uma nota condenando o dirigente inglês e exigindo mudanças no comando da entidade. A notícia é agravada pelo fato da ACEA abrigar também construtoras que estão em outros campeonatos FIA, como a Ford of Europe e a PSA (Ford e Citroën do Mundial de Rali) ou a General Motors Europe e a Volkswagen (Chevrolet e Seat do Mundial de Turismo).
Reclamações procedentes, afinal. No caso do rali, vale lembrar que em 2003 eram seis as fábricas com equipe oficial na competição. Que foram saindo à medida que a FIA introduzia uma série de regras esdrúxulas sem consultá-las. No WTCC, o Mundial de Turismo, a coisa ficou feia mesmo nesse 2009, quando mudaram uma regra no meio da competição (!) para evitar que a Seat fizesse o mesmo passeio do ano passado. E é este tipo de mudança arbitrária que está causando tanta pressão da FOTA na Fórmula 1. As marcas estão cansadas de assinar um cheque em branco para o senhor Mosley – que aplica as regras que quer a seu bel-prazer e obriga as fábricas a torrarem dinheiro para se adaptar à elas, o KERS que o diga.
As montadoras que estão na FOTA precisam da F-1? Sim e não. Por um lado, uma marca como a Ferrari perderia muito se deixasse de se associar com a categoria. E uma série “pirata” de monopostos não teria nem de longe o apelo da tradição de um Mundial que já passa do meio século de existência. Mas de uma forma geral elas vão e voltam do esporte a seu bel prazer. Como fez a Honda no final do ano passado. Além do mais, são marcas com força suficiente para buscar a plataforma de promoção que achar mais conveniente. Dizem que Toyota e Renault podem deixar a F-1 agora. Não por coincidência, elas já passaram também pelo Mundial de Rali e pelos protótipos que correm em Le Mans. Vão aonde interessa.
E a Fórmula 1, precisa das montadoras? Mais sim do que não. Sem elas, podemos lembrar dos sensacionais anos 60, quando times que viviam exclusivamente para o automobilismo colocavam um motor Cosworth no seu chassi e colecionavam vitórias e títulos – apesar dos esforços em vão de times mais “industriais” como a Ferrari e a Honda.
Mas por este próprio DNA do automobilismo, não seria tão forte uma F-1 feita só por equipes independentes e/ou voltadas apenas para o esporte (Williams, Force India, USF1, Campos, Manor, Epsilon Euskadi, Lola, Prodrive, etc). Para o público em geral, é “corrida de carros”. E carros são aqueles cujas marcas estão nas ruas e nas estradas.
Mosley pode ter razão em apontar o dedo para o caso da Honda e afirmar que as marcas não têm comprometimento com a F-1. Não têm mesmo. Mas nem ele e nem Ecclestone não soltaram um pio há cinco anos atrás, quando elas invadiram a Fórmula 1, despejando rios de dinheiro nos bolsos deles através da compra de arquibancas VIPs e corporativas, da promoção maciça e gratuita que faziam da categoria em propagandas, enfim, da valorização do produto como um todo.
Precisa mesmo tanta resistência em lhes dar mais influência na hora de estipular regulamentos e uma fatia maior do retorno que a categoria garante? É necessário entrar nesse clima de guerra onde todos já estão perdendo? Será que tamanha intransigência não vai facilitar ao diretor de uma montadora na hora de decidir sair da categoria?
Vai ver, no fundo, é isso que eles querem. Max se manteria com poder na mão, sabemos todos que é isso que governa o seu tesão. E Bernie pegaria uma F-1 murcha para comprá-la de volta a preço de banana de seus donos atuais, o grupo de capitais CVC – vale lembrar que os direitos comerciais foram vendidos quando a presença das montadoras e os lucros gerados estavam em seu ponto máximo.
Entender essa batalha é difícil, acho que só conseguiremos fazer isso quando ela terminar, para avaliar com calma quem saiu ganhando com o acordo final – isto se houver mesmo um acordo.
Um abraço e até a próxima!
Luis Fernando Ramos
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