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Niki Lauda, 60 20.02.09


Lauda 75 - Clique para ampliar
No último GP da Itália, no domingo pela manhã, eu estava no paddock em uma descontraída prosa com alguns colegas da imprensa austríaca. Que a certa altura ganhou um ilustre participante. Niki Lauda já chegou brincando com o sexagenário narrador Heinz Prüller. “Heinz, ficou sabendo que você está namorando! Cuidado com essas mulheres mais novas, eles vão te fazer casa. Eu mesmo tive de fazer isso na semana passada”. Depois da zombaria, o homem do boné vermelho admitia que estava feliz da vida com a união com Birgit Wetzinger – uma ex-aeromoça de sua companhia aérea e doadora de um rim que salvou sua vida.

As atenções do grupo já giram inteiramente em torno de Lauda que registra com o olhar a presença de um “corpo estranho” na turma – eu –, mas não se importa com isso. Ele abre um livro que trazia debaixo do braço. É um registro fotográfico das várias corridas realizadas em Monza. O tricampeão vai comentando algumas imagens, chamando a atenção do baixo nível de segurança dos carros de outrora e fazendo uma ou outra observação de algum piloto retratado.

Até que abre uma página dupla, com uma foto dele em pé, ao lado de sua Ferrari, o macacão arriado na altura da cintura, com a camisa antichamas aparecendo e a balaclava amarrotada em cima da cabeça, como se fosse um gorro. O ano é 1976 e ele está prestes a fazer sua volta às pistas depois do inferno vivido em Nürburgring.

Lauda não se faz de rogado: “Olha isso! Parece um fantasma... É. Vai ver, era um fantasma mesmo. Já tinham me dado como morto”, riu ele.







Fiorano - Clique para ampliar
Niki Lauda vai completar 60 anos no próximo dia 22. E este pequeno episódio que eu vivi no ano passado me leva à conclusão de que os anos o transformaram bastante. Embora se mantenha analítico, direto e transborde autoconfiança, Lauda aprendeu a rir e gozar a vida em família. As marcas dessa trajetória são visíveis e famosas – ele sempre se recusou a se submeter a qualquer tipo de cirurgia plástica. “É assim que você se parece quando fica sentado no fogo por 50 segundos. Se isto assusta alguém, o azar é dele”.

Dentro de sua longa e conhecida história, o que mais me impressiona foi a decisão de tomar um crédito de dois milhões de xelins para conseguir uma vaga na Fórmula 1 em 1972. O austríaco tinha a certeza que daria certo na categoria – ou corria o risco de passar o resto de sua vida pagando dívidas. Depois de conquistar o título de 1975, Lauda explicou o episódio com sua lógica típica.

“Durante a minha temporada de Fórmula 2 com a March, em 1971, eu tive uma possibilidade de comparação decisiva: Ronnie Peterson. Ele era a grande estrela do futuro na época e nós testávamos nos mesmos dias, com o mesmo carro. Era também o último ano que eu tinha dinheiro de patrocinadores e tive de chegar a uma decisão: tomar um crédito ou largar tudo. Teve por exemplo uma corrida em Rouen, quando eu ultrapassei Ronnie na freada da chicane, só para receber na volta seguinte um sinal para deixá-lo tomar a posição. Mas nesse dia ele estava com a asa montada de forma errada, então minha performance não valia tanto quanto os dias de testes que andávamos com o mesmo carro. Ele era mais rápido que eu, então comecei a pensar: ‘hmmm, seis décimos, onde ele está conseguindo isso, deve haver uma explicação’. Com o passar do tempo fui encontrando respostas lógicas às minhas perguntas. Assim, fui achando cada décimo e passei a andar tão rápido quanto ele. Só nas corridas, claro, eu era três segundos mais lento, pois ele tinha um motor novo e eu uma velharia, talvez a mesma que o Jim Clark usava nas primeiras corridas do pós-guerra”.

Lauda - Clique para ampliar
Essa autoconfiança levou Lauda a reerguer a Ferrari no meio dos anos 70 e ganhar dois títulos mundiais. E a mesma força de caráter o fez deixar a equipe assim que não se sentiu mais à vontade nela. Decidido, o austríaco não pestanejou em deixar a equipe Brabham e se aposentar às vésperas do GP do Canadá de 1979 porque estava “cansado de andar em círculos”. E em voltar à ativa em 1982 depois de comparecer a algumas corridas no ano anterior e ficar visivelmente empolgado com o viu.

Até sua saída definitiva da categoria ilustra bem seu temperamento. No final de semana do GP da Áustria de 1985, Lauda pediu à sua assessora de imprensa que organizasse uma coletiva para anunciar sua aposentadoria. “Você já avisou o Ron”, perguntou a moça, referindo-se ao chefe da McLaren e patrão do piloto. A resposta veio com a maior naturalidade.

- Não, por que?

Um abraço e até a próxima!
Luis Fernando Ramos

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