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| » » » 15.12.08 |
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Na última semana, parecia que abríamos as páginas do caderno de economia para ler sobre a Fórmula 1. Depois que as montadoras ficaram cientes da enorme queda nas vendas de carros no terceiro trimestre, ficou claro que a gastação nababesca da categoria estava com os dias contados. A Honda, que neste ano torrou 400 milhões de Euros para brigar com a Force India (nem sempre com sucesso), foi mais rápida e decidiu fechar a torneira de vez. Teve gente achando que a F-1 acabaria depois disso.
Esqueceram que um dos períodos mais brilhantes do esporte a motor aconteceu justamente em meio a um quase colapso da economia mundial. Depois da crise de 1929, o Mundo passou uma década se ajustando às novas condições de mercado. Entrementes, o mundo dos Grandes Prêmios se consolidou no que é chamado por muitos como “Anos Dourados do Automobilismo”. Está bem, as equipes alemãs e mesmo as italianas recebiam incentivos de regimes totalitários, que mostrariam sua verdadeira face anos depois durante a II Guerra. Mas, economicamente falando, foi uma década em que o esporte andou muito bem das pernas.
Voltando para os dias atuais, o principal efeito da saída da Honda foi sentido no pacote anunciado na última sexta-feira. As equipes da Fórmula 1, que nunca falavam o mesmo idioma quando se sentavam na mesma mesa, encontraram rapidamente uma série de medidas que trará uma economia de 30% no orçamento das equipes de ponta. Estamos falando de uns 120 milhões de Euros, uma quantia significativa.
O “efeito colateral” dessas medidas, ao que parece, é o que deve ser comemorado. Em pequenos detalhes, a Fórmula 1 vai ficar menos complicada e mais interessante. Em muitos aspectos foi um passo em direção às raízes. E isto é ótimo. Em outros, a tecnologia acabará contida em nome da crise. Mas isto faz parte e, sinceramente, não acho que prejudicará o espetáculo.
Vamos dar uma olhada em alguns dos pontos anunciados pela FIA. Começando pelos motores, que terão rotação limitada (18 ao invés de 19 mil rpm) e devem durar três corridas. Além do mais, cada carro terá direito a oito motores para as 17 etapas do calendário. O desenvolvimento vai permanecer congelado – menos para a Renault, que ganhou o direito oficial de fazer um upgrade, provavelmente uma moeda de troca política para convencer ao chefe da montadora a segurar a marca na F-1 por mais um tempo.
Na prática, não teremos mais uma corrida interna nas fábricas para desenvolver as unidades como no passado – mas já não a tivemos em 2008 e o campeonato foi bacana do mesmo jeito. Congelar os motores é uma atitude sensata nestes tempos. Lembro-me em 2004, depois que o GP do Brasil encerrou a temporada, de andar na parte de trás dos Box e ver algumas equipes acelerando seus motores ao máximo até que estourassem, por pura diversão. Falando em mudança de atitude...
A questão do desenvolvimento dos carros também é importante. O fim dos testes durante a temporada é algo muito positivo para o torcedor que vai aos autódromos. Afinal, os treinos livres de sexta-feira ficarão bem agitados, cheios de carros na pista e com novidades sendo experimentadas. O reverso da moeda: pilotos jovens terão mais dificuldades para ascender à Fórmula 1. Histórias como as de Fernando Alonso e Felipe Massa, que cresceram muito depois de atuar um ano como pilotos de testes, acabaram.
Das medidas que devem entrar em vigor em 2010, a mais legal é o fim do reabastecimento. Finalmente ficaremos livres dos cálculos matemáticos e da F-1 das ultrapassagens invisíveis, feitas nos boxes graças às estratégias traçadas nos computadores dos engenheiros. Em dois anos, a tática será a de encher o tanque, largar e cuidar dos pneus. Durante muito tempo a Fórmula 1 foi assim. A medida fatalmente vai eliminar a chatice de pilotos se classificarem com quantidades diferentes de combustível – e o público nunca sabia se o pole é o mais rápido mesmo.
Há ainda uma série de outros detalhes, mas os mais relevantes são esses. Juntando tudo, a Fórmula 1 me parece uma gorduchinha fazendo regime. Vai perder as gorduras acumuladas estes anos todos, ficando mais simples, mais saudável e alegre. Neste ponto, a crise foi ótima para trazer esse povo de volta à realidade, para deixar de descaracterizar tanto a categoria. Só falta agora cortar tantas corridas em países exóticos e distantes (o que custa caro) e voltar mais às suas raízes (corridas na França, Áustria, Portugal, EUA, Canadá, México, África do Sul, Argentina). Aí sim, vai ficar uma delícia!
Um abraço e até a próxima!
Luis Fernando Ramos
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