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| » » » 01.09.08 |
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O Galvão da Áustria |
01.09.08 |
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| A alegria de quem viu mais de 700 GPs de Fórmula 1 |
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Algumas pessoas já fazem parte do mobiliário da Fórmula 1 e o jornalista austríaco Heinz Prüller é um deles. Aos 67 anos de idade, ele se tornou sinônimo da categoria em seu país ao narrar todas provas das últimas quatro décadas para a TV ÖRF. Embora de vez em quando confunda carros e nomes de pilotos no calor das transmissões – como também faz o seu similar brasileiro –, Prüller faz um trabalho decente, graças principalmente a uma memória e a uma rapidez de raciocínio incríveis.
Algo que me deixa impressionado é a sua disposição no paddock. Na F-1 de hoje, o jornalista só não é mais tradicional que a Ferrari, mas está na categoria há mais tempo que todas as outras equipes ou que qualquer dirigente, com exceção do seu amigo Bernie Ecclestone. Ao invés de se sentar nos louros do que já fez, ele passa o dia entrando em todos os motorhomes para colher as informações que vai despejar domingo à tarde durante a transmissão. É uma avalanche verbal com a qual Prüller garante o ritmo, mesmo sem a companhia de qualquer comentarista (embora, nesta temporada, a tevê tenha colocado o piloto de testes Alexander Wurz para ajudar na transmissão, melhorando-a ainda mais).
No último GP da Europa, em Valência, aproveitei um raro momento em que ele estava tranqüilo na sala de imprensa para conversar um pouco sobre sua trajetória. Deu para perceber que a Fórmula 1 é apenas um lado do seu trabalho, mas que há lugar para muito mais. “Acima de tudo, eu sou jornalista esportivo. Foi o que sempre quis ser, desde a infância. Comecei com 13 anos num jornal e já fiz um pouco de tudo: esqui, futebol, ciclismo, tênis. E, claro, um pouco de automobilismo que, na época, não era muito significativo na Áustria. Fiquei muito amigo do Jochen Rindt e com ele cheguei na Fórmula 1. Mas continuei fazendo os outros esportes. Foram 22 ou 23 olimpíadas, de verão ou de inverno, 6 ou 7 Copas do Mundo e mais de 1000 corridas de esqui na televisão. A F-1 é uma parte da minha profissão, mas depois de Rindt, Lauda, Berger, se tornou um pedaço realmente significativo do meu trabalho. Acho que foram mais de 700 corridas, mas isto só foi possível porque eu comecei muito cedo”.
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| Piloto favorito: Juan Manuel Fangio |
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Neste momento, me lembrei do que ele tinha me dito em janeiro, no evento da Ferrari em Madonna di Campiglio, de como éramos privilegiados por trabalhar fazendo o que mais gostamos. Desta vez, porém, ele fez uma ressalva. “Claro que me sinto um privilegiado de fazer o que eu amo e ver o mundo todo. Eu mesmo já paguei do meu próprio bolso algumas viagens, como no meeting de atletismo de Letzigrund ou a prova ciclística de Paris-Roubaix. Não para investir no meu trabalho, mas apenas pelo meu interesse pessoal. Viajar tanto não é o problema, o que desgasta são as mudanças de fuso horário: você está cansado na hora de trabalhar, mas não consegue dormir à noite”.
No passado, a Fórmula 1 não tinha um ínfimo da dimensão atual e conseguir acesso como jornalista nas corridas era muito mais fácil. Pedi para que ele lembrasse da sua primeira cobertura, mas seu pensamento acelerado o levou para uma história completamente diferente. E saborosa. “Minha primeira corrida de Fórmula 1 foi o GP da França de 1960, em Reims. Eu estava indo de férias para a Espanha, mas passei por lá para ver a corrida. Antes disso já tinha feito algumas provas pequenas na Áustria e também uma entrevista com Enzo Ferrari. Eu queria ser o primeiro austríaco a entrevistá-lo e consegui. Eu tinha 15 anos e fui de carona para a Itália, mas também teve outras corridas em que...”.
Antes que ele mudasse novamente o assunto, eu interrompo, pedindo mais detalhes de como um adolescente simplesmente aparece em Maranello e é recebido o maior mito do automobilismo mundial. “Ele reclamou um pouco, porque eu entrei no galpão da equipe, a porta estava aberta e não havia nenhum porteiro ou guarda-costas. Estavam lá os chassis, motores, as coroas de louros, eram umas sete da noite e não havia mais ninguém. De repente, uma voz poderosa irrompe pelo lugar. Eu olho e era Enzo Ferrari, questionando o que eu estava fazendo. Ainda bem que, com 15 anos, você não se parece com um espião. Pedi desculpas e expliquei o que queria. Ele ficou impressionado positivamente com minha postura e disse que também queria ser jornalista esportivo. Me contou que começou com 16 anos, fazendo o jogo do Módena, o seu time do coração, contra a Inter de Milão, que se chamava Ambrosiana na época. A Inter ganhou de 8 a 0, acho, e esta foi sua estréia como repórter esportivo”, ri Prüller, antes de emendar. “Ele entendeu o que eu queria, disse para eu sentar e ordenou ‘dieci minuti intervista’, me deu dez minutos para a entrevista. Foi assim daquela vez, mas eu ainda o entrevistaria outras vezes mais para frente”.
O jornalista da Fórmula 1 garante que não é um piloto frustrado. Também pudera: se eu tivesse tido as chances que ele teve, também estaria satisfeito. “Já ganhei algumas corridas de Fórmula Ford e F-Vê no passado. Também tive a chance de pilotar alguns carros especiais. Nesta semana, andei com um F-BMW no circuito de Cheste, aqui em Valência. E, nos anos 80, pude pilotar a Mercedes de Fangio e também a Renault turbo do Alain Prost”, relembra.
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| Corrida marcante: GP dos EUA de 1970 |
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Basta ver qualquer transmissão de Heinz Prüller para constatar que o interesse dele é mesmo em cima dos pilotos: suas histórias, personalidades, o lado pessoal de quem vive protegido por roupas antichama e com as expressões escondidas pelo capacete. Em todo este tempo, dois nomes ficaram na sua memória. “O piloto que eu mais gostava era o Fangio, sem dúvida nenhuma. Nunca vi ele correr, mas conversamos muitas vezes e ele me fascinava. Na última vez que eu estive na Argentina, eu fiz os 500 quilômetros de carro de Buenos Aires até Balcarce só para ver o túmulo dele e visitar sua família. Ayrton Senna também era uma pessoa muito legal. Me lembro uma vez de uma entrevista na Austrália. Era o dia seguinte a um encerramento da temporada, quando a maioria dos pilotos não quer nem saber da Fórmula 1. Mas ele me disse que tinha prometido me atender durante o verão e pediu para que eu passasse em seu hotel, quando fizemos uma gravação muito longa e interessante”.
Perguntei a ele também qual corrida que mais o marcou, curioso para saber a resposta de alguém que viu ao vivo muitas centenas delas. A resposta surpreendeu. “Fiquei muito feliz com a vitória de Fittipaldi em Watkins Glen em 1970. Foi muito emocionante, ele era o terceiro piloto da Lotus quando houve o acidente com o Rindt, que gostava muito dele. Ainda havia uma chance de que Jacky Ickx fosse o campeão, mas a vitória de Fittipaldi resolveu o título a favor de Rindt. Na época a Ferrari tentou fazer com que um de seus pilotos – Ickx ou Regazzoni, o que terminasse o campeonato na frente – ganhasse o troféu de campeão e Rindt, mesmo com mais pontos, ganhasse uma espécie de medalha de recordação, ‘como um soldado que morre em uma batalha’, falou o Enzo Ferrari. Isto me irritou muito. Mas, no final, o Jochen acabou ficando mesmo com o título”.
Eu não podia terminar a entrevista sem tocar num assunto que eu sabia que seria delicado: a morte de Jochen Rindt em Monza, em 1970. Já tinha visto um documentário na ÖRF em 2005, pelos 35 anos do ocorrido, e fiquei impressionado ao ver a matéria original, com Prüller noticiando a morte do amigo. Ao confrontá-lo com o tema em Valência, fiquei com a impressão de que ele não gostava muito de tocar no assunto. Mas respondeu com a mesma objetividade da matéria que eu tinha visto na tevê. “Foi o pior dia da minha vida. Você acaba ficando em desespero e não entende porque tem de trabalhar, quando tudo o que quer é ficar em paz. Foi horrível, ainda que muitos pilotos morriam na época, eram dois ou três a cada ano. Piers Courage, Bruce McLaren já tinham morrido naquele ano, Pedro Rodriguez e Jo Siffert morreriam no ano seguinte – eram pilotos tão excepcionais que ninguém imaginava que eles poderiam ter este tipo de acidente. Mas era assim, acho que foi uma época importante para tornar o esporte seguro como ele é hoje, embora neste esporte nunca dá para ter uma segurança total”.
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| Prüller já pilotou este carro |
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Os primeiros motores começam a roncar nos boxes do circuito de rua de Valência e os olhos de Prüller já buscam a televisão. Faltam poucos minutos para começar o treino livre de sábado de manhã e eu entendo que não teria o direito de roubar mais sua atenção. É importante atentar a todos os detalhes para informar bem os espectadores da tevê austríaca no domingo. “Você tem de escrever um livro de memórias, Heinz”, é o que eu digo, agradecendo em seguida pela entrevista. Ele sorri. “Não dá tempo”. Eu entendo. São muitas corridas ao longo do ano. E mal acaba o campeonato e lá vai Heinz Prüller viajar pelas montanhas européias para narrar algumas corridas de esqui. E quando termina a temporada de inverno, começa a da Fórmula 1. O homem não pára!
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