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Home » Colunas » Luis Fernando Ramos » 28.07.08
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Um burro ou Hans Stuck 28.07.08


A largada da corrida no Circuito da Gávea
Foram 13 edições do Grande Prêmio Cidade do Rio de Janeiro, disputadas entre os anos de 1933 e 1954 no temido Circuito da Gávea. A última corrida, em 3 de janeiro de 1954, foi destinada exclusivamente para carros esporte e contou com uma grande participação de pilotos estrangeiros. A vitória ficou com o suíço Emmanuel de Graffenried, que não teve muito trabalho: seu principal rival na prova, Chico Landi, teve um pneu furado logo na segunda volta e perdeu dez minutos no Box para a troca.

O brasileiro ainda voltou à pista e, em pista molhada, sentou a bota e ascendeu à 3ª posição. Ao final das 30 voltas, Graffenried (Maserati) venceu com quase uma volta de vantagem para o segundo colocado, o italiano Giulio Musitelli (Ferrari). Anos depois, o suíço relembrou que recebera no pódio um prêmio de um sujeito muito envergonhado. Era um relógio de ouro com a inscrição “Ao vencedor Chico Landi”.

Hans Stuck em seu Porsche
A corrida teve também a participação de Hans Stuck, em sua terceira aparição no Brasil, depois da Subida de Montanha Rio-Petrópolis de 1932 e da famosa corrida da Gávea de 1937, quando correu com a poderosa Auto Union e foi derrotado após um duelo épico pela Alfa Romeo do italiano Carlo Pintacuda.

O piloto correu com um Porsche 550 Spyder, que utilizou também na semana seguinte numa prova em Interlagos antes de vendê-lo ao brasileiro Christian Heins – que teria diversas vitórias com o carro. O carro estava equipado com um motor de 1500 cilindradas, que acabou abrindo o bico na metade da corrida.

Todo este preâmbulo serve apenas para colocar aqui o curioso relato de Hans Günther Ryll, um berlinense que morava no interior do Brasil na época e foi ao Rio de Janeiro para assistir ao desempenho de seu ídolo. O texto foi publicado no “Internationaler Motorsport” de 1954, o anuário oficial dos automóveis clube alemães ADAC e AvD.





“Sempre me coloco diante de difíceis escolhas na minha vida. Desta vez era entre um burro ou Hans Stuck.
O burro tem cerca de cinco anos de idade e pertence ao meu amigo José. É um bom animal para se locomover aqui na região de Rio Bonito e ele me ofereceu para compra, junto de um “serviço extra” de uma jovem mulata. Do outro lado, uma corrida no Rio de Janeiro com Hans Stuck, um Porsche. E, também com alguns extras: Ferraris e Maseratis com De Graffenried, Landi e muitos outros.
O vôo para o Rio, cerca de 2000 quilômetros de distância, custa tanto quanto o burro. Que pode ser mordido por uma cobra e morrer de uma hora para outra. O Porsche de Stuck também pode quebrar e ele abandonar a corrida. No final das contas, uma decisão muito complicada, vocês não acham? Durante semanas, fiquei refletindo junto com meus amigos aqui da floresta brasileira: o professor, o padre, as crianças e, claro, o volumoso dono do bar da vila. Mas eu tenho uma coisa por carros e por corridas, então resolvi partir para a cansativa viagem até o Rio de Janeiro. É preciso cavalgar cinco horas até a próxima cidade, e dali viajar de caminhão por mais quatro horas até o capital do estado. Depois, são mais algumas horas de avião.
Eu cheguei ontem à noite. É uma visão inesquecível, a do Rio com o Cristo Redentor iluminado, quase tão valiosa quanto o burro.
Hoje de manhã a família Stuck me recebeu nos boxes. Eu estava lá, os carros no grid de largada, então chegou o presidente com o seu Bentley e a ação começou. Um grid de 25 carros. O grupo fechou a primeira volta com De Graffenried, Landi, Stuck com o pequeno e mais fraco Porsche na 7ª posição. A segunda volta trouxe Landi aos boxes com o pneu furado. O cenário permaneceu mais ou menos assim até a 13ª passagem. A mim e aos outros milhares de alemães, só interessa o Porsche de Hans Stuck. Eu nunca teria me divertido com o burro da maneira que eu me diverti torcendo por aquele carrinho. Uma ‘beleza’, como dizem os brasileiros. A cada volta, Stuck se mantinha em sexto ou sétimo lugares graças a uma pilotagem fantástica, contra carros com o dobro de potência. Mas o final trágico aconteceu na 13ª volta. Depois de abastecer, um cilindro parou de funcionar e uma válvula quebrada aniquilou nossas esperanças dele ficar entre os quatro primeiros. Sem ameaças, Graffenried venceu na frente de Musitelli e Landi. Um cilindro em um Porsche representa uma perna em um burro. E ambos possuem quatro deles. Vamos imaginar que o burro teria morrida. Me sobraria apenas o “serviço” da mulata. Mas eu já tive a minha cota de problemas com mulheres nesta vida...
O saldo foi positivo: uma bonita viagem, uma noite agradável com uma estrela marrom no Rio (eu tenho uma paixão por isso), o reencontro com a família Stuck e, acima de tudo, uma bela corrida”.





Hans Stuck nos anos 30, época de suas primeiras visitas ao Brasil
Hans Stuck ainda permaneceria na ativa até 1962, quando pendurou o capacete prestes a completar 62 anos de idade. Seu filho Hans-Joachim Stuck também seguiu carreira no automobilismo, angariando títulos no Europeu de Turismo, DTM e nas 24 Horas de Le Mans. A tradição familiar segue agora com o neto Johannes Stuck, que no último dia 20 sofreu um forte acidente numa prova de longa duração no Nordschleife, mas está se recuperando bem.

Um abraço e até a próxima,
Luis Fernando Ramos
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