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A vitória da regularidade 16.06.08


O Mundial de 2008 vai se aproximando da metade com um duelo quádruplo pela liderança. Robert Kubica está na frente com 42 pontos, quatro de vantagem para Lewis Hamilton e Felipe Massa, que vêm empatados em segundo lugar. Os rivais, aliás, devem agradecer ao japonês Kazuki Nakajima o fato da diferença não ser ainda maior. Kubica perdeu um quarto lugar certo na Austrália, quando teve seu carro abalroado por trás em uma manobra desastrada do piloto da Williams durante um período de Safety Car.

Perder pontos por erros dos outros é algo que dói na alma, que o digam Adrian Sutil e Kimi Räikkönen. Mas o que impressiona na campanha de Robert Kubica até agora é a regularidade. Enquanto pilotos adversários (e suas equipes) abusam dos erros, o polonês vem fazendo uma temporada perfeita. Temos muito chão pela frente, mas numa avaliação do que aconteceu até agora, ninguém mereceria mais este título do que ele. E, com uma vitória contra duas de seus perseguidores, Kubica poderia encerrar um longo jejum: foi em 1989 a última vez que um piloto foi campeão tendo menos triunfos que um de seus adversários.

E olha que isto não era algo tão raro de acontecer. Tomando o ano de 89 como base: até ele, foram disputados 40 campeonatos e dez apresentaram este quadro, uma média contundente de 25%. Dentre estes dez, as histórias são das mais variadas, vale a pena dar uma rápida recordada:

1958


1958 – Mike Hawthorn venceu apenas o GP da França, mas com cinco segundo lugares (mais outras pontuações descartadas no final) derrotou Stirling Moss, quatro vitórias naquele ano, por apenas um ponto. Até mesmo o terceiro colocado vencera mais vezes: Tony Brooks ganhou três provas, mas não pontuou em nenhuma outra ocasião e nem participou da briga pelo título.

1964


1964 – Este é o famoso ano em que John Surtees (duas vitórias) ganhou o título de Graham Hill (também com duas vitórias) e de Jim Clark, (maior vencedor do ano com três vitórias) na última volta da última corrida do ano. O escocês liderou o GP do México até a volta final e caminhava para o bicampeonato, mas o motor quebrou na última passagem. A Ferrari correu para pedir a Lorenzo Bandini que cedesse sua posição para Surtees, num dos jogos de equipe mais famosos da Fórmula 1.

1967


1967 – A equipe Brabham ficou com as duas primeiras posições do campeonato e quatro vitórias no total: duas do campeão Denny Hulme; e duas do vice, Jack Brabham. Mas foi, de novo, Clark quem venceu mais vezes no ano: quatro. Apenas a confiabilidade do revolucionário motor Ford Cosworth deixava a desejar. Ainda. Foi o que alijou o escocês da disputa pelo título.

1977


1977 – Niki Lauda foi campeão com tranqüilidade: três vitórias e outras sete colocações no pódio lhe garantiram o título com duas etapas de antecedência. O vice ficou com o sul-africano Jody Scheckter, que também venceu três vezes. Mas foi o norte-americano Mario Andretti, quatro vitórias, o maior rival de Lauda. Seu alto índice de abandonos foi o que o jogou para a terceira colocação do Mundial daquele ano.

1982


1982 – A mais louca das temporadas teve também o mais curioso dos cenários. O campeão Keke Rosberg venceu apenas uma corrida, o GP da Suíça que foi disputado no circuito francês de Dijon-Prenois. Do segundo ao sexto colocado, todos (!) ganharam duas corridas: na ordem, Didier Pironi, John Watson, Alain Prost, Niki Lauda e René Arnoux. Inevitável não relacionar aquela temporada ao que está acontecendo em 2008.

1983


1983 – Nelson Piquet teve uma vitória a menos que o vice Alain Prost, (três contra quatro), mas foi regular o suficiente para garantir o título com dois pontos de vantagem. Um caso clássico de um piloto regular batendo outro que dispunha do melhor carro.

1984


1984 – Niki Lauda ganhou de Alain Prost por apenas meio ponto. O francês somou sete vitórias ao longo do ano contra cinco do seu companheiro de equipe na McLaren. Ou seis e meia, porque o triunfo em Mônaco veio através da interrupção da prova antes de sua metade – e só foi outorgada a metade dos pontos.

1986


1986 – Outra temporada apertada decidida na base da regularidade. Nigel Mansell venceu cinco vezes, mas perdeu o título por apenas dois pontos por ter tido um abandono a mais que Alain Prost. O campeão ganhou quatro provas, incluindo o decisivo GP da Austrália. Nelson Piquet, terceiro colocado, também teve quatro triunfos.

1987


1987 – Só em 1958 houve uma diferença tão grande de vitórias entre o campeão e o vice. Nelson Piquet venceu apenas três corridas contra seis de Nigel Mansell, mas não pontuou em apenas quatro corridas naquele ano, tendo direito a descartar cinco resultados. Já o inglês ficou sem pontuar em sete ocasiões, dando adeus às suas chances de título na penúltima prova.

1989


1989 – O ciclo é encerrado pelo troco de Alain Prost em Ayrton Senna. No ano anterior, o francês tinha somado mais pontos que o brasileiro, mas perdeu o título porque teve de descartar três segundos lugares. Senna, com duas vitórias a mais, só descartou duas pontuações baixas e levou o título com três pontos de vantagem. Em 1989, Prost voltou a vencer menos (quatro contra seis), mas levou o título diante do alto índice de abandonos de Senna, nove em 16 corridas.





O que mudou de 1989 para cá para dar início a este tabu? Bem, a mudança ocorreu claramente a partir de 1991. Foi ali que a vitória passou a valer dez pontos ao invés de nove (no esquema 10-6-4-3-2-1). Para tentar compensar, a Fórmula 1 passou a não dar descartes pela primeira vez na sua história, o que daria a chance de um piloto regular derrotar um outro que ganhasse mais vezes. Isto quase aconteceu por duas vezes até a mudança de pontuação em 2003: no confuso ano de 1994, Michael Schumacher bateu Damon Hill por apenas um ponto, mas fez duas provas a menos que o inglês; e no emocionante ano de 1999, Eddie Irvine ficou a apenas dois pontos de Mika Hakkinen, a vitória do finlandês no Japão provando ser decisiva.

A partir de 2003, passou-se a distribuir pontos aos oito primeiros de cada corrida, com o vencedor ganhando apenas dois pontos a mais que o segundo colocado (no esquema 10-8-6-5-4-3-2-1). Logo na estréia do esquema quase ocorre uma vitória histórica da regularidade: Kimi Räikkönen, com apenas um triunfo, ficou a meros dois pontos do campeão Michael Schumacher, ganhador de seis etapas ao longo do ano. No ano passado, a matemática foi favorável ao finlandês: o título veio com um mísero ponto de vantagem sobre Lewis Hamilton e Fernando Alonso. Mas Räikkönen ganhara seis corridas, contra quadro de cada piloto da McLaren.

2008


Assim, fica a expectativa das chances de Robert Kubica neste ano. É claro que a BMW Sauber tem um carro de performance inferior aos de Ferrari e McLaren – algo que dificilmente vá mudar até o final do ano. Mas o esforço para andar perto das máquinas destas equipes é recompensado pela temporada perfeita do polonês, pelo menos até agora. Quem pontua mais e erra menos, chora menos. Enquanto os adversários justificam um despiste, xingam o sinal vermelho e julgam errado o ponto de freada, Kubica mineiramente já assumiu a liderança com quatro pontos de vantagem. Que seriam nove, não fosse pela imperícia de Nakajima. Já imaginou se o título for decidido por causa disso?

Um abraço e até a próxima,
Luis Fernando Ramos
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