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Fábrica de rumores 02.06.08


Na sala de imprensa de Mônaco, no domingo à noite, falou-se mais do mercado de pilotos do que propriamente da corrida acontecida algumas horas antes, marcada por uma grande quantidade de erros de pilotagem e de decisões estratégicas. Rápida como só ela pode ser, a Fórmula 1 apontou suas armas para os dois pilotos que mais decepcionaram no final de semana: Kimi Räikkönen e Nelsinho Piquet.

Rumores fazem parte da ordem do dia na Fórmula 1 e, inevitavelmente, alguns deles acabam se concretizando. Em 2005, já em maio se falava em Felipe Massa na Ferrari e Rubens Barrichello na BAR-Honda, o que seria confirmado em agosto. Outras falácias acabam entrando para o folclore: ao longo do ano de 1995, muita gente garantia a transferência de Michael Schumacher para a McLaren, com apoio da Mercedes-Benz, para a temporada seguinte, algo até engraçado de imaginar hoje em dia.

Em Mônaco, diziam alguns, Alonso já teria assinado com a Ferrari para 2010, entrando no lugar de Kimi Räikkönen, que se aposentaria. É possível? Claro que sim, ainda que eu considere um pouco ilógico. Afinal, Kimi está se sentindo cada vez mais à vontade na Ferrari. A equipe não se incomoda com as baladas etílicas do finlandês – e quem o viu em Madonna di Campiglio, ameaçando abaixar as calças diante de um batalhão de jornalistas e dos sorrisos de várias figuras importantes da equipe, sabe como isto é verdadeiro.

Além do mais, vivendo o dia-a-dia dos autódromos e conversando com membros da Ferrari, fica difícil imaginar que o empenho de Raikkönen na disputa pelo título deste ano esteja acompanhado do desejo de se aposentar no fim de 2009. Feliz numa equipe, com um carro ganhador nas mãos, jovem e já pensando em parar? Não faz muito sentido, mas de Kimi Räikkönen podemos esperar qualquer coisa.

Sobre Nelsinho Piquet, impressionou o número de pessoas apontando que ele teria recebido um ultimato da equipe, inclusive gente de muita credibilidade. Só o formato variava: uns lhe davam mais duas corridas, outros três; uns diziam que o substituto seria Takuma Sato, outras garantiam a chegada do inglês Anthony Davidson. A performance do brasileiro tem sido muito ruim, ninguém discute. E a Fórmula 1 não costuma dar muitas chances a quem não dá resultados.

Pelo menos, existe uma área onde o piloto está dando um baile. Após seis corridas, em apenas duas ele falou no domingo depois da prova com os jornalistas brasileiros que seguem a categoria in loco: no Bahrein e na Turquia. Para mim, no fundo, tanto faz: os boletins para o sistema Bandeirantes de rádio são construídos sem sonoras dele, eu cito apenas seu resultado (normalmente, ruim) e abro os microfones para Massa, Barrichello e outros pilotos estrangeiros que me atenderam.

Se Nelsinho gosta de sair correndo dos circuitos, é opção dele e eu não vejo nenhum desrespeito a mim, ao Felipe da Jovem Pan, ao Lívio do Estadão ou à Tatiana da Folha. Mas acho que ele perde uma chance de ouro para responder aos seus fãs sobre os problemas que está enfrentando. A começar por um carro realmente ruim e instável, tanto que não conseguia esquentar os pneus intermediários da forma ideal no caos de Mônaco. Para piorar, os resultados obtidos pelas mãos geniais de Fernando Alonso sugerem que o R28 é muito melhor que sua realidade. Os resultados do Q2 nas últimas corridas sugerem que até a cliente Red Bull tem um carro melhor à disposição.

Nelsinho também poderia comentar das dificuldades enfrentadas com um engenheiro de corrida, Phil Charles, que é estreante como ele. Talvez deixar claro, pelo menos nas entrelinhas, que a Renault de 2008 virou uma sombra da equipe bicampeã mundial, num momento em que o orçamento vem sendo impiedosamente apertado pelos chefões da montadora, incluindo uma diminuição significativa do pessoal nas duas fábricas. E mesmo falar do problema de lidar com um tipo de pressão que não sofria nas categorias menores, quando corria em equipes de propriedade do pai.

Pelo que vimos em Mônaco, nem tanto nas condições difíceis da corrida, mas em dois erros decisivos na classificação, Nelsinho Piquet está acusando o golpe e fazendo a mesma coisa que Heikki Kovalainen fez no início do ano passado, também na Renault. Algo que, já na Austrália, na primeira entrevista do ano, o brasileiro citou para nós como uma atitude a evitar:

“Quando você tem o carro mais rápido, fica tudo mais fácil e você não tenta dirigir mais que o carro. O Kovalainen entrou num carro que era o campeão do ano anterior. Numa situação dessa, quando o piloto vê que está andando em oitavo, décimo, é óbvio que o piloto vai forçar muito mais o carro para tentar andar um pouco melhor. O problema dele não era tanto o carro, que era ruim, mas psicológico, de tentar ganhar meio segundo no braço e acabar cometendo erros”.

Numa análise fria, o desempenho de Nelsinho Piquet não está sendo tão diferente dos outros três novatos do grid em 2008. Timo Glock, Kazuki Nakajima e, principalmente, Sebastien Bourdais têm abusado dos erros e também demonstram dificuldades em se adaptar ao carro da Fórmula 1 atual, ainda que em um grau um pouco menor. O francês, por exemplo, conseguiu um grande resultado na Austrália. Mas depois, abandonou em três corridas ao rodar sozinho.

Carro ruim, poucas oportunidades para testá-lo, cortes de investimento na equipe, engenheiro novato, insegurança psicológica. Tenho certeza que a Renault sabe muito bem destes fatores que afetam o desempenho de Nelsinho Piquet. E sabe também que, apesar deste início ruim, ele tem qualidade técnica para virar o quadro e se estabelecer na categoria. Se seus resultados têm deixado a desejar, não é ele o principal problema da equipe.

Se realmente for mandado embora em breve, me parece que a decisão seria motivada por algo além da espera esportiva, confirmando de um dos muitos boatos que circularam no final de semana monegasco. Diz este que seu destino teria sido decidido após um desentendimento entre seu pai e seu chefe. É lógico, afinal a lógica da Fórmula 1 aconselha a nunca contrariar o senhor Flavio Briatore quando se trata de negócios.

As novelas de Nelsinho Piquet e de Kimi Räikkönen continuarão neste final de semana em Montreal. Enquanto isso, não perca amanhã um capítulo inédito de “Perversão Fatal”, estrelando Max Mosley e o Conselho da FIA.

Um abraço e até a próxima,
Luis Fernando Ramos
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