Riccardo Patrese mostrou ser um perfeito cavalheiro nos últimos dias de existência do seu recorde de participações na Fórmula 1. Ele apareceu no paddock pela primeira vez neste ano no GP do Bahrein, convidado pela tevê italiana, e voltou nas duas etapas seguintes. Mais do que isso, compareceu a um evento de golfe (!?!) preparado pela Honda para homenagear Rubens Barrichello, como quem “passasse o troféu” para o novo dono da marca. O italiano sempre reconheceu os méritos do brasileiro em permanecer tanto tempo na categoria, ao mesmo tempo em que faz uma ressalva, válida, que tanto ele quanto Graham Hill participaram de mais temporadas que Barrichello.
Olhando em retrospecto, e aproveitando a proximidade do GP de Mônaco, é curioso notar que o primeiro triunfo destes dois pilotos foi marcado por drama e emoção, com a chuva como um personagem importante. O de Barrichello, no GP da Alemanha de 2000, quando contrariou as ordens da equipe para vencer andando com pneus slicks num trecho da pista absolutamente encharcado.
A primeira vitória de Riccardo Patrese foi justamente em Monte Carlo, num dos finais de corrida mais malucos que já existiram. Foi o grande prêmio seguinte à morte de Gilles Villeneuve em Zolder, mas o clima pesou no Principado por conta da briga política entre FISA e FOCA e a questão dos motores turbos versus aspirados. A morte do piloto canadense foi aceita como parte de jogo e o circo continuou sem se afetar muito por ela – ao contrário do que aconteceria em Mônaco-94, a primeira corrida pós-Senna.
Patrese tem uma grande vantagem em relação a Nelson Piquet, seu companheiro de equipe na Brabham. O brasileiro trabalha no desenvolvimento do pesado e ainda pouco competitivo motor turbo da BMW, enquanto que o italiano corre com o confiável Ford Cosworth aspirado, uma ótima arma para o traçado apertado de Monte Carlo. O piloto faz bom uso disso conseguindo um lugar na primeira pole. Seu tempo de 1min23s791 só foi superado nos minutos finais da classificação do sábado por uma performance endiabrada de René Arnoux, roubando-lhe a pole-position.
A corrida começou com toda a pinta de um passeio para a Renault. Arnoux disparou na frente e Alain Prost logo pulou da quarta posição do grid para o segundo lugar. Nem mesmo o abandono do líder na 15ª volta, depois de rodar sozinho no S da Piscina e deixar o motor morrer, perturbou a festa da torcida francesa. Prost assumiu a ponta e abriu uma enorme vantagem para os outros competidores.
Até que algumas nuvens se juntassem sobre o principado e jogassem algumas gotas no asfalto, a três voltas do final. Os pilotos estavam com pneus slicks, cansados e com os carros no limite do combustível. O resultado foi este final incrível que você confere no vídeo abaixo:
Patrese nem comemorou no carro, pois só soube que tinha vencido quando voltou aos boxes e perguntou à equipe o que tinha acontecido. Mais duas curiosidades: o pódio completado por Pironi e de Cesaris, dois pilotos que não viram a bandeira quadriculada; e o protesto de Nigel Mansell, da Lotus. O inglês fez muito barulho nos boxes ao afirmar que Patrese tinha sido empurrado para voltar à pista depois da rodada no final, o que seria proibido no regulamento. Se o italiano tivesse ficado pelo caminho, Mansell teria recuperado a volta que tinha de atraso e vencido a corrida como o primeiro piloto a completar as 76 voltas previstas. Patrese, porém, disse que o carro pegou “no embalo” na descida depois da Loews – e os comissários confirmaram a primeira vitória da carreira do italiano, em sua 71ª corrida na Fórmula 1.