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No início do mês de abril, tive uma conversa telefônica com Fritz d’Orey, piloto brasileiro que disputou três corridas válidas pelo Mundial de Fórmula 1 em 1959. Ele tinha completado 70 anos poucos dias antes, mas sua lucidez e seu entusiasmo em conversar sobre automobilismo são uma prova que o tempo não passou para ele. Parece ainda o mesmo garoto animado que partiu para correr na Europa há meio século. Confira abaixo a transcrição da entrevista:
LFR - Como você se sente com 70 anos de idade?
Fritz d’Orey – Isto é confidencial, né? Só eu e você sabemos disso (risos). As pessoas dizem que eu pareço ter 50 anos.
LFR – E como foi seu início no automobilismo?
Fd’O – Eu comecei com um Porsche Spyder que era do Hans Von Stuck, que o Christian Heins tinha comprado e vendeu para mim. Com ele eu fiz umas três ou quatro corridas, inclusive fui o segundo colocado no geral na Quinta da Boa Vista. Da Costa ganhou com a Ferrari em Monza, eu fiquei em segundo, Henrique Casini ficou em terceiro e por aí afora. Depois que eu comprei o carro que o Getúlio Vargas tinha dado para o Chico Landi. Era uma Ferrari 51 de Fórmula 1. A primeira vitória da Ferrari na categoria foi com um carro igual a esse, no GP da Inglaterra de 1951.
LFR – E vocês mexiam no carro, equipavam ele com motor Corvette, não é?
Fd’O – Naquela altura, os motores Corvette eram mais fortes que os Ferrari. Eram cerca de 400 cavalos contra 280. A categoria se chamava Mecânica Nacional.
LFR – E no início de 1959 você correu num torneio triangular com corridas no Brasil, Uruguai e Argentina. É verdade que foi neste campeonato que você chamou a atenção de Juan Manuel Fangio?
Fd’O – Sim, foi o Fangio quem me levou para a Europa. A corrida no Brasil foi no fim de 58, as outras duas no início do ano seguinte. A seguir, em março, nós fomos para a Europa. Eu conheci o Fangio no Grande Prêmio da Argentina. Eu estive em primeiro um tempão lá, até que quebrou um eixo da roda. Aí o Fangio, que eu não conhecia, me chamou e perguntou se eu queria ir para a Europa. Ele tinha deixado as pistas um ano antes e não tinha mais pilotos sul-americanos. Ele tinha uma Maserati e perguntou se eu estava interessado em fazer parte de uma equipe sul-americana. Eu disse que não tinha dinheiro e ele respondeu dizendo que não havia problema, que a British Petroleum estava patrocinando tudo. Naquela altura não havia patrocínio em nada, não havia dinheiro. Era algo muito interessante, era esporte mesmo.
LFR – Quer dizer então que você foi correr na Europa já como um piloto pago?
Fd’O – As despesas eram pagas: hotéis, viagens, comidas, estas coisas. Eu recebia cem dólares em dinheiro e os prêmios por largada, que era como funcionava na época. Cada piloto recebia uma quantia dos organizadores de acordo com a fama dele. Eu me lembro que no Grande Prêmio da Inglaterra, eu recebi 500 dólares, que correspondia a uns 5000 de hoje. E o Stirling Moss, que era o mais bem pago, recebeu 10 mil.
LFR – Então estes prêmios de largada eram como se fosse o salário de vocês?
Fd’O – A gente sobrevivia com esse dinheiro. Eu consegui viver um ano e meio assim até o meu desastre. Eu só fiquei um ano e meio lá correndo, tive logo um acidente nas 24 horas de Le Mans, fiquei oito meses no hospital e acabou.
LFR – Antes de Le Mans você chegou a sofrer outro acidente forte no próprio GP da Inglaterra de 1959. Foi porque o carro ficou sem freios?
Fd’O – Aquilo foi culpa minha, eu me distraí perto do final, depois de 70 voltas. Quando eu dei por mim, estava a 200 km/h perto de um cotovelo. Eu tinha esquecido de frear.
LFR – O desgaste na época devia ser muito maior que atualmente pela duração das corridas. Ou não?
Fd’O – Não, as corridas de Fórmula 1 da época tinham uma duração parecida com as de hoje, se não me falha a memória, tinham duas horas e pouco. Eu me lembro que o Grande Prêmio da França foi um sufoco inacreditável porque faziam 40 e tantos graus de temperatura. Um calor fantástico, era um horror. Em compensação não tinha cinto de segurança, você ficava solto dentro do carro, era tudo aberto. Eram épocas diferentes, né? Não haviam guard-rails, se você saía da pista, normalmente morria. Em volta da pista tinham barrancos e valas, essas coisas. Eu me lembro no GP da França que havia uma curva feita de pé embaixo que o carro ficava meio no ar, do tipo “fazia ou não fazia a curva”. Naquela curva, no ano anterior, havia morrido o Peter Collins, acho. (n.R.: na verdade, foi o italiano Luigi Musso. Collins morreria na etapa seguinte, em Nürburgring). A cada vez que eu passava ali eu ficava olhando aquela vala do lado esquerdo... então as corridas eram completamente diferentes. Era braço mesmo. A diferença entre um bom piloto e um mau piloto era de dez segundos por volta. Hoje em dia, como é vídeo-game, a diferença é de meio segundo, um segundo quando o cara é ruim mesmo. Os carros hoje são iguais, mas naquela altura, não. Eu me lembro que meu último Grande Prêmio na Fórmula 1 foi nos Estados Unidos, a volta da pole-position do Stirling Moss foi de três minutos cravados. Ele tinha um Cooper que não era nem de fábrica, era da equipe do Rob Walker. Um carro igual aos Coopers do Jack Brabham e do Bruce McLaren, só um pouco mais velho. O segundo tempo foi do Brabham, três minutos e cinco segundos (n.R.: na verdade, foi de 3min03s). Então, o Stirling Moss, que era um cara que todo mundo detestava porque era um mau-caráter, era sem dúvida o sujeito mais rápido que existia na época. Mas Deus também castigou porque ele nunca foi campeão do mundo.
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| Fritz d'Orey com o TecMec 59 |
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LFR – Fritz, você citou a falta de segurança da época. Como era a cabeça do piloto? Vocês entravam na pista pensando no risco de sofrer um acidente fatal?
Fd’O – A gente nem pensava no assunto. A gente não imaginava que no futuro haveria um nível de segurança como o que temos hoje. Hoje, morrer na Fórmula 1 é como ser atingido por um raio. O cara entra a 300 km/h numa barreira e não acontece nada, tem todas aquelas proteções, cinto. Nós nem tínhamos cinto de segurança, você tinha de se segurar no volante! E as pistas não eram estas frescuras de hoje, que vem aquele Ecclestone e fala que o asfalto tem que ser uma mesa de bilhar. Eu fui interventor da Confederação Brasileira de Automobilismo durante uns meses, porque houve uma briga com o Piero Gancia e o governo brasileiro me pediu para ser Interventor. Foi na época do Grande Prêmio do Brasil. Aí o Ecclestone mandou um telegrama pra mim dizendo para reservar cinco apartamentos numa praia em Olinda e mais não sei o quê no Rio de Janeiro... e eu pensei “como assim, ‘reserve’?” O negócio é que ele queria que o Automóvel Clube do Rio de Janeiro pagasse tudo isso para ele. E pagaram mesmo! E os de lá pagavam pros daqui. Enfim, tem histórias que eu não quero nem contar, porque eu não posso provar e aí fica chato.
LFR – Mas parece que é uma tática que ele usa até hoje, né?
Fd’O – É mesmo. Ele comprou a Brabham, que ficou sem dinheiro e ele pegou a equipe assumindo umas dívidas. A partir dali ele virou o dono da Fórmula 1 e uma das maiores fortunas da Inglaterra, tem mais de dez bilhões de libras! Hoje em dia a Fórmula 1 não é nada mais que um negócio. Os pilotos são uns palhaços. Palhaço é modo de dizer, porque ganham fortunas incríveis.
LFR – Você acompanha a Fórmula 1 atualmente?
Fd’O – Eu não vou pessoalmente ver porque é muito chato, só pela televisão. É um vídeo-game, com cinqüenta botões no volante. Esse ano tiraram o controle de tração, né? Mas ninguém passa ninguém. Na minha época era uma delícia, você passava os outros de lado nas curvas e o piloto era o que contava. Hoje em dia, o Raikkonen ou o Massa, tudo é igual, são todos bons controladores de vídeo-game. Em 1972 eu fui com o Antonio Carlos Scavone (promotor de corridas), que era meu amigo de infância, para assistir ao GP da Inglaterra. E eu fui lá e dei uma volta no Lotus, que ganhou a corrida com o Emerson. Eu dei três voltas e aquilo parecia um trem! Não se mexia, pô! Você entrava nas curvas conforme vinha, não tinha problema nenhum, você freava a cinco metros da curva, o carro estancava, era completamente diferente. No meu tempo de Fórmula 1, nos anos 50, eram carros que tinham reações um pouco mais violentas que os carros normais, mas eram mais ou menos os mesmos tipos de reações. Hoje em dia é vídeo-game, os carros praticamente não têm suspensão, as pistas não podem ter buraco nenhum. Enfim, é um negócio do Ecclestone e da banda dele, estão bilionários. Algumas equipes também ganham muito. A McLaren da época do Bruce, que era meu amigo e tinha minha idade, era uma coisa pequena. Logo a seguir ele morreu. E a McLaren se transformou numa coisa milionária, tudo a custa dos automóveis clube, dos governos, da televisão. Não é mais corrida de automóvel, é um negócio de Wall Street.
LFR – Mas dos pilotos de hoje em dia não tem nenhum que você admire, que considera um diferenciado?
Fd’O – O diferenciado deles é como a diferença entre os meus filhos. Eu tenho um filho de 45 anos e outro de 15. Os dois adoram Macintosh e vídeo-games, mas o de 15 tem um controle muito maior sobre os comandos eletrônicos. Para se ter uma idéia, na minha época a gente corria às vezes sem cueca, para sentir o carro ao máximo. A calça era um modelo que o Fangio instituiu, de uma fábrica Argentina chamada Swift Textil, era o tecido mais fino que eu já vi. Tudo para você sentir o carro embaixo, a tração, a curva, os limites. Sentir o limite era muito importante na época, porque se você o ultrapassasse você batia nas árvores e normalmente, morria. Quase toda a corrida morria alguém.
LFR – O que você dos erros que o Felipe Massa cometeu neste início de ano?
Fd’O – Isto acontece. Quando o Schumacher errava, ninguém falava nada. Quantas vezes ele bateu nos outros, saiu da pista e ninguém falava nada. Mas você sabe quem é um grande piloto mesmo? Há dois anos atrás eu fui jantar com o Prost em Paris, junto de um amigo meu que era piloto de corridas na minha época, o Henri Grandsire. E o Prost me disse uma coisa que me deixou surpreso. Na opinião dele, o Rubinho era um dos três melhores pilotos do mundo, mas que nunca teve carros à altura. E que quando teve, sabotavam. Falou também que bastava dar um carro para ele na chuva que ele ficaria na frente de todo mundo. E nós, brasileiros, ficamos gozando o Rubinho Barrichello. Hoje em dia é tudo uma questão de sorte. O Senna teve uma sorte gigantesca. Era um grande controlador de vídeo-game e pegou sempre automóveis maravilhosos. O Piquet também. Mas teve pilotos fabulosos que nunca tiveram um equipamento à altura. Estou falando isso sem nem conhecer o Rubinho pessoalmente. Mas a fama dele entre as pessoas que entendem, como o Prost, é a de ser um dos melhores pilotos do mundo. E aqui no Brasil, ninguém dá valor para ele. É impressionante.
LFR – Fritz, em 1960, você fez uma série de corridas de carros-esporte pela Ferrari. Você tinha um contrato com a fábrica?
Fd’O – Naquela época não havia contrato feito não, era tudo de boca. A capital mundial do automobilismo era a cidade de Módena, onde estavam as fábricas da Ferrari, Maserati, Stanguellini, da Osca. Os ingleses ainda não tinham aparecido. Então tinham uns 12 a 15 pilotos morando no hotel Albergo Real Fini, em Módena. Saíamos para andar de bicicleta, íamos até Bolonha e voltávamos pedalando, era nossa preparação física. Almoçávamos juntos todos os dias, várias vezes junto do próprio Enzo Ferrari.
LFR – E ele era uma figura imponente como dizem?
Fd’O – Não, isso tudo é lenda. Era um cara legal. Era realmente autoritário, afinal ela era o dono da Ferrari, não tinha sócios, nem nada. Mas era uma empresinha, né, tinha uns vinte funcionários na época. Mas comigo ele sempre foi muito simpático. Uma emoção grande que eu tive foi minha primeira corrida na Europa. Era o Grande Prêmio da Loteria de Monza, para carros esporte e grã-turismo. E eu fiz a pole-position, mas era coisa de dois segundos mais rápido que os outros. E minha Ferrari era 57, enquanto as outras eram 59. Eu não conhecia ninguém, né? Eu namorava na época a filha do presidente da Pirelli, Cristina Gavacci era o nome dela. Eu estava sentado na Ferrari com ela, quando eu vejo no espelho vindo o Ferrari junto com um senhor alto. Ele para do meu lado e diz: “Franco, é esse o rapaz que eu acho que é muito rápido”. Eu olhei para ele estupefato, tinha 20 anos na época, e falei assim, “não sou eu, Comendador. É o carro!” Me lembro disso como se fosse hoje. Então ele deu uma risada e me apresentou o Franco, que era o Franco Lini, o maior repórter de automobilismo da Itália. Este foi meu primeiro contato com o Ferrari, que sempre foi muito amigável. Aí o Tavoni (n.R.: Romolo Tavoni, chefe da equipe na época) chegou para mim e disse: “tem a corrida de Buenos Aires em janeiro, você faz a tua primeira corrida conosco, se for tudo certo você faz a temporada inteira, me ajuda no preparo da Ferrari com motor traseiro, que vai estrear daqui um ano e meio e se tudo der certo você fica na equipe de Fórmula 1”. Fiz duas corridas e tive o desastre. Corri as 12 Horas de Sebring e, nas 24 Horas de Le Mans eu tive o desastre. Fiz outras provas com outros carros, mas pela equipe foram estas duas. Aí, acabou, fiquei oito meses no hospital, todo arrebentado, e sobrevivi não se sabe como. Eu entrei a 270 km/h numa árvore, de lado. O carro cortou no meio, tive fraturas nos braços, nas pernas, uma orelha caiu, o nariz abriu... O médico, quando eu cheguei no hospital, me deu duas horas de vida. Foi por isso que saiu no mundo inteiro que eu tinha morrido às dez horas da noite.
LFR – E quem custeou tudo nestes oito meses que você ficou no hospital, foi a Ferrari?
Fd’O – Olha, eu sei que eu não tinha dinheiro, eu não paguei nada. Mas eu realmente não me lembro. Para mim, ficou um branco de uns seis meses que eu não me lembro de nada. Acho que a natureza é muito sábia, para não sofrer você apaga a memória. Fiquei oito meses no hospital de Le Mans, depois fui morar em Paris. Eu não podia pegar avião, porque os aviões em 1960 ainda não tinham uma compressão atmosférica muito regulada e como eu tinha tido um traumatismo craniano eu não podia voar. Fiquei dois anos trabalhando em Paris, até ficar melhor. Depois eu nunca mais fiz uma corrida. Aliás, mentira. Em 97 eu recebi um convite da Ferrari, era a festa de 50 anos da Ferrari, teve um evento no autódromo de Enna-Pergusa. Então foi o Schumacher com o carro de Fórmula 1, deu umas voltas na frente. E foram vários outros carros também, tinha o Challenge histórico, me deram um carro e os outros pilotos também correram junto. Eram duas baterias, mas a segunda eu não fiz. Não fiz porque era muito violento para a idade já, tinha 59 anos. Na reta eu estava a 300 km/h, quando chegava na curva é que você freava, para o organismo era uma coisa bárbara, precisava de uma preparação fantástica. Fiquei em segundo na primeira bateria, mas depois eu fiquei enjoado e não fiz mais não.
LFR – E o que você fez depois que parou de correr?
Fd’O – Minha família tinha uma empresa aqui no Brasil chamada Companhia Comercial e Marítima Auto Geral. Eles foram morrendo e no fim fiquei eu sozinho no comando da empresa. Foi isso. Morava em São Paulo, mudei para o Rio em 1970, foi a melhor coisa que eu fiz na minha vida. O Rio é uma beleza, lindo, agradável, gostoso de se viver.
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