Estava escrito no contrato do piloto argentino. “No caso de uma dobradinha em que a distância entre os dois pilotos seja menor do que sete segundos e a vantagem sobre o terceiro colocado seja superior a 30 segundos, pode surgir um sinal vindo dos boxes: 1. Jones, 2. Reutemann. A orientação deve ser obedecida”. O papel foi assinado por Carlos Reutemann e Frank Williams numa tarde fria de dezembro de 1979.
Quando as águas de março fechavam o quente verão brasileiro de 1981, portanto um ano e três meses depois, a ordem fria do papel foi aplicada. Reutemann assumiu a liderança do Grande Prêmio do Brasil, em Jacarepaguá, logo na largada, depois que o pole Nelson Piquet cometeu o erro grotesco em largar com pneus slicks numa pista completamente molhada, perdendo várias posições. Ao final da primeira volta, Alan Jones já tinha ultrapassado Riccardo Patrese e era o segundo colocado.
A dupla da Williams permaneceu assim a corrida toda, com a diferença entre eles variando entre um e cinco segundos. Ciente da situação contratual de seu companheiro, o australiano não viu a necessidade de entrar numa briga por posições em condições perigosas. Ainda mais depois que ele tinha vencido a prova de abertura da temporada, em Long Beach, e via com uma lógica própria a eventual subserviência de seu companheiro. Como ele esperava, a equipe sinalizou a troca de posições através de uma placa, com o nome “Jones” em cima e a abreviação “Reut” embaixo. Por três vezes: a nove, sete e quatro voltas antes do final.
O argentino fingiu que não viu e seguiu impávido rumo à vitória.
Depois da prova, cobrado pelo chefe, o vencedor desfilou um rosário de desculpas. “Jones não estava perto, tanto que eu nem sabia quem era segundo ou terceiro. E também não vi nenhum sinal vindo dos boxes”. O australiano, claro, contestou. “Eu conseguia ler cada letra da placa – e era eu quem estava atrás do spray de água levantado pelo carro do Reutemann”.
Dias depois, o argentino confessou a um jornalista que ignorou a ordem de equipe propositalmente. “Foi o que achei correto naquele momento. Se eu tivesse abdicado da vitória e deixado o outro ultrapassar, teria sido o fim para mim. Eu desceria do carro, iria para casa e nunca mais voltaria a correr”.
Argentina 81
Numa dessas coincidências perversas, a prova seguinte era exatamente o Grande Prêmio da Argentina. Alguma gráfica espertalhona imprimiu milhares de réplicas de placas da Williams, mas com o nome “Reut” acima do de “Jones”. Uma clara provocação à política da equipe. Nas arquibancadas, os torcedores se acumularam em frente aos boxes do time e exibiam os cartazes em meio a um mar de bandeiras nas cores nacionais, azul e branca. Frank Williams não se fez rogado, montou pessoalmente a placa como fora exibida no Rio (Jones acima de Reutemann) e a pendurou no muro do pitlane. O público quase explodiu de raiva. Nos bastidores, Reutemann chegou a se desculpar com Jones, dizendo que o público estava exagerando e criando uma pressão desnecessária. O australiano riu, disse que não tinha problema e que estava achando tudo muito engraçado.
No resto da temporada, a equipe não interferiu mais na briga interna de seus pilotos – que chegaram inclusive a colidir levemente na primeira volta do GP de San Marino. Reutemann ficou praticamente isolado dentro da Williams, contando apenas com o apoio do engenheiro Neil Oatley. Por outro lado, Frank Williams deve ter percebido a sensível queda de motivação de Alan Jones após a conquista do título no ano anterior. O australiano se dedicava ao trabalho cada vez menos e não parava de reafirmar o desejo de curtir a tranqüilidade de sua fazenda na terra natal. No fim do ano, parou de correr e só voltou para participações esporádicas pela Arrows, em 1983, e pela Beatrice-Lola em 85 e 86.
A manifestação da torcida na Argentina em 1981 e a reação ao que aconteceu nos testes em Barcelona, na semana passada mostram o quanto mudou o mundo neste quarto de século. Antes, se provocava e se reagia a uma provocação de maneira saudável, ainda que de uma forma que seria considerada hoje “politicamente incorreta”.
Nos tempos atuais, parece que vivemos todos com os nervos à flor da pele, agressivos por natureza, intolerantes e dispostos a criar caso por qualquer coisinha. Afinal, por mais paixões que a F-1 desperte, ela continua apenas uma corridinha de carros. Uma verdade que torcedores e imprensa da Espanha e da Inglaterra, McLaren, Hamilton, Alonso, enfim, muita gente parece não enxergar.