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Le top cinq 18.01.08


Franceses
Quando eu comecei a acompanhar a Fórmula 1 na minha infância, era praticamente uma categoria “meia-francesa”. Não apenas pela estrondosa figura do presidente da FISA Jean-Marie Balestre, que na época vivia em guerra aberta com o senhor Bernie Ecclestone. Tampouco pelo sucesso que faziam os carros azuis da Ligier e os amarelos da Renault. Era principalmente pela maciça presença de pilotos oriundos da “Grande Nation”. Em 1980, foram oito: René Arnoux, Patrick Depailler, Jean-Pierre Jabouille, Jean-Pierre Jarier, Jacques Laffite, Didier Pironi, Alain Prost e Patrick Gaillard, que veio disputar justamente a corrida que não valeu pelo Mundial, o GP da Espanha em Jarama.

Não havia milagre, não era coincidência ou mesmo “proteção” por parte de Balestre. Essa abundância de volantes era fruto de um bonito trabalho de apoio ao automobilismo de base francês, bancado basicamente pela petrolífera Elf. Depois que esta torneira se fechou, os nomes foram rareando, rareando e praticamente desapareceram. (Abre parênteses: a situação do automobilismo no Brasil aponta para o mesmíssimo fim. Fecha parênteses). Olivier Panis se aposentou em 2004, Franck Montagny fez seis corridas em 2006 e, agora, o mundo cínico da Fórmula 1 faz festa pela chegada do talentoso Sébastien Bourdais – o mesmo a quem deram as costas anos atrás.

Para celebrar a ocasião, nada melhor que fazer uma listinha com os cinco melhores pilotos franceses que passaram na Fórmula 1, na minha opinião. Com vocês, le top cinq!

1) ALAIN PROST
Alain Prost
Sem surpresas aqui. O homem que muitos torcedores brasileiros amavam odiar está obviamente no topo da lista. Prost foi o único francês a se sagrar campeão mundial, e não é à toa que o fez em quatro ocasiões. Desde os tempos do automobilismo de base, seu talento excepcional era mais do que óbvio e sua trajetória rumo à Fórmula 1 foi meteórica, angariando pelo caminho títulos nacionais e europeus de F-Renault, F-Super Renault e F-3.

Sua carreira na F-1, você conhece bem, é irretocável. Ainda assim, muita gente reluta em colocá-lo nas inúteis listas de melhores de todos os tempos. Talvez demorará um pouco para termos a dimensão exata dos seus feitos. Acredito que isto ocorra pelo fato de seu estilo ser o contrário de espetacular – quem via Prost na pista, pilotando como que se não fizesse o menor esforço, imaginava que ele era lento demais, até ver seu nome no alto da folha de tempos. Seu estilo limpo e suave se aproxima ao empregado atualmente por Lewis Hamilton. Mas, enquanto o inglês esbanja simpatia, Prost era bem chegado numa intriguinha – o que, certamente, contribui para o julgamento que recebe hoje em dia.

2) JACQUES LAFFITE
Jacques Laffite
“Jacquot” sempre foi meu piloto francês favorito. Lembro-me até hoje da tristeza que senti vendo a largada para o GP da Inglaterra de 1986. Estava realmente feliz que, naquela prova, Laffite igualava o então lendário recorde de 176 GPs disputados de Graham Hill. Vê-lo encerrar a carreira com as duas pernas quebradas, de certa forma, quebrou as minhas também. O piloto não era exatamente o protótipo de um campeão do mundo. Mas quando tinha um carro rápido, sabia voar como ninguém – pôde atestar isso em seis oportunidades. E foi competitivo até as últimas corridas, correndo com a Ligier azul de número 26, uma espécie de marca registrada sua.

3) JEAN ALESI
Jean Alesi
Estamos aqui diante um sério candidato ao título de “pior decisão para uma carreira”. Depois de encantar o mundo da Fórmula 1 em uma temporada e meia na limitada equipe Tyrrell, Jean Alesi recebeu diversas propostas para o ano de 1991, incluindo da poderosíssima equipe Williams. Mas o apelo de correr com a Ferrari e o mítico número 27 falou mais alto. Assim, Alesi acabou durante anos preso à bagunça da Ferrari – e, quando Jean Todt arrumou a casa, mandou o compatriota embora para dar lugar a Michael Schumacher. Inesquecível uma faixa que apareceu no GP da Itália de 1995, um de seus últimos pelo time de Maranello. “Mais vale um Alesi hoje do que 1000 Schumachers amanhã”!

Claro que o próprio tifoso autor da frase já deve ter mudado de opinião. Mas ela ilustra bem o que era Jean Alesi, por que ele desprezou a Williams para ir a Ferrari e por que era tão querido pela torcida italiana: porque pilotava com o coração – e assim o fez até o último de seus 202 GPs na categoria. Tive uma dimensão melhor da paixão que sua personalidade despertava ao ir a uma corrida de DTM, em 2002. Na arquibancada, um grupo de cinco franceses, vestidos com bonés e camisetas alusivas ao piloto, fazia a maior festa. “Vou a todas as corridas que Jean fizer, até ele parar de correr”, me contou um deles. Não é difícil imaginar essa turma agora lá pelos cantos da Ásia, na arquibancada de um circuito como Bahrein, vendo-o correr na nova Speedcar Series.

4) RENÉ ARNOUX
René Arnoux
Em certa medida, a carreira de Arnoux lembra a de Jean Alesi: um início meteórico e promissor que nunca se consumou no sucesso esperado. Suas duas temporadas iniciais na equipe Renault foram repletas de momentos brilhantes, como o duelo com Gilles Villeneuve no GP da França de 1979 e vitórias contundentes nas corridas do Brasil e da África do Sul do ano seguinte. Mas Arnoux jamais conseguiu superar a chegada de Alain Prost na equipe – principalmente o fato de que não seria capaz de bater o companheiro. Depois de se mudar para a Ferrari, o piloto cumpriu um ano promissor em 1983, mas seu gênio forte inevitavelmente causou desconfortos dentro do time e ele foi mandado embora logo após a prova de abertura do mundial de 1985. Encontrou abrigo na equipe Ligier, onde cumpriu quatro temporadas marcadas por desinteresse e por atitudes na pista que lhe renderam muitas críticas.

Para mim, fica a imagem do Arnoux que encontrei no Festival de Goodwood de 2005. Ele havia acabado de dar uma volta com o Renault RS01, o mesmo que pilotara nas primeiras provas de 1979. E sorria feito uma criança em noite de Natal. Ali, lembrou-se dos seus melhores dias, dias que lhe garantem um lugar nesta lista.

5) MAURICE TRINTIGNANT
Maurice Trintignant
Não faltavam opções para completar o “top cinq”: Jean Behra, François Cévert, Jean-Pierre Beltoise, Didier Pironi ou mesmo Olivier Panis. Mas minha escolha recai sobre o incrível Maurice Trintignant, presente nas 15 primeiras temporadas da Fórmula 1, numa época onde a média de colegas mortos era altíssima. Sua principal característica era a de correr absolutamente dentro dos limites do equipamento, o que acabou lhe rendendo “apenas” duas vitórias no GP de Mônaco que, com 100 voltas e quase três horas de duração, era um verdadeiro teste de resistência e concentração. No início dos anos 60, o nome de Trintignant era uma espécie de patrimônio da Fórmula 1, e ele manteve-se ligado à categoria até 1964, quando fez algumas corridas com sua própria equipe em um BRM alugado. Depois, virou vinicultor e viveu de forma plena até falecer em 2005, aos 87 anos de idade. E, caso você esteja curioso, a resposta é sim: Maurice tem mesmo parentesco com o famoso ator francês Jean-Louis Trintignant, que era seu sobrinho.

Um abraço e até a próxima!
Luis Fernando Ramos
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