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| » » » 26.10.07 |
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| Diário de uma derrota |
26.10.07 |
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Muita gente associou a incrível virada de Kimi Räikkönen na fase final do campeonato a uma fragorosa derrota sofrida por Lewis Hamilton e pela equipe McLaren. De fato, por mais que o finlandês e a Ferrari tenham executado o que lhes cabia com perfeição, vencendo as duas últimas corridas do ano, o título só veio porque o rival inglês somou apenas dois pontos nestas etapas. Tivesse obtido um quinto lugar, em qualquer uma das provas, e a fatura estaria liquidada. Vale a pena analisar e tentar entender o ocorrido, especialmente após o que pudemos observar em Interlagos.
Domingo, 30 de setembro – Lewis Hamilton vence o GP do Japão após uma corrida caótica. Com 12 pontos de vantagem para Fernando Alonso e 17 para Räikkönen, a conquista do título parece mera questão de tempo. Na entrevista após a corrida, o inglês promete uma abordagem cautelosa na reta final. “Este resultado é um grande impulso na minha confiança para ganhar este campeonato. Mas ainda faltam duas corridas e tudo pode acontecer. O segredo vai ser se manter na pista”.
Quinta-feira, 4 de outubro – O piloto da McLaren muda o discurso. Diz que vai correr o GP da China para ganhar. “Chego a este fim-de-semana com a mesma mentalidade dos anteriores. O objetivo é a vitória e não vejo motivos para mudar a atitude. Temos de nos concentrar em vencer a corrida. Se conseguirmos isso, será o suficiente”.
Sexta-feira, 5 de outubro – Após uma reunião longa e tensa entre os pilotos da F-1 e o comissário técnico da FIA Charlie Whiting, Hamilton é absolvido da acusação de ter provocado o acidente entre os pilotos Sebastian Vettel e Mark Webber em Fuji, atrás do Safety Car. Praticamente todos os pilotos pleitearam uma punição para o que consideraram uma pilotagem errática do inglês atrás do Safety Car – algo previsto pelo regulamento. Whiting aliviou, dizendo que se levasse as regras ao pé da letra, quase todos os pilotos teriam de ser punidos por alguma irregularidade cometida em Fuji.
Sábado, 6 de outubro – Hamilton obtém a pole-position em Xangai e fica muito perto de ser campeão. Ele aproveita para criticar os outros pilotos. “Ontem, na reunião dos pilotos, eu praticamente fiquei sentado com todos apontando seus rifles para mim. Coisas assim só servem para me deixar mais forte”. Alonso, quarto colocado no grid, resolve pôr a boca no trombone e atirar contra a própria McLaren, após ser perguntado sobre as declarações de Ron Dennis criticando o seu silêncio. “É melhor ficar quieto do que mentir. Isto é algo que ele deveria fazer mais vezes, seria melhor para a equipe. Muitos dos escândalos extra pista em que a McLaren se envolveu neste ano surgiram pelas coisas dele”.
Domingo, 7 de outubro – A McLaren parece ter acusado o golpe. Lewis Hamilton sofre seu primeiro abandono da temporada após errar na entrada dos boxes e enterrar seu carro na caixa de brita. O inglês abriu vantagem na liderança, mas perdeu rendimento à medida que os pneus do MP4-22 sofriam um desgaste excessivo. A equipe se perdeu na hora de chamá-lo aos boxes: a chuva poderia voltar e a troca foi postergada ao máximo. “Estávamos correndo contra Fernando, não contra Kimi”, justificou Ron Dennis, colocando ainda mais instabilidade dentro de sua equipe. Foi um erro claro: ainda que fizesse uma parada a mais, Hamilton terminaria a prova em quarto lugar e chegaria em Interlagos com nove pontos de vantagem para Alonso. Räikkönen estaria fora da briga.
Quinta-feira, 11 de outubro – A FIA designa o espanhol Carlos Gracia, presidente da Federação Espanhola, para atuar como uma espécie de fiscal nos boxes da McLaren em Interlagos – a pedido dele. A idéia é assegurar igualdade de tratamento aos dois pilotos da equipe. Dennis se encontra com Gracia em Madri e este disse confiar plenamente no trabalho da equipe. Alonso classifica a presença do dirigente nos boxes como “desnecessária”.
Quinta-feira, 18 de outubro – Na coletiva de imprensa em Interlagos, Hamilton e Alonso aparecem sorridentes e brincando um com o outro. O inglês diz estar mais relaxado do que nunca e afirma que a possibilidade de não garantir o título nem passa por sua cabeça.
Sexta-feira, 19 de outubro – Lewis Hamilton marca o melhor tempo do dia, mas a McLaren apresenta sinais claros de nervosismo ao cometer um erro básico no carro do inglês, colocando um jogo a mais de pneus de chuva em seu carro na sessão da manhã – outras duas equipes cometeram o mesmo deslize. A FIA aplica uma multa de 15 mil Euros pelo incidente.
Sábado, 20 de outubro – O inglês fica em segundo lugar no treino classificatório, à frente de seus rivais na briga pelo título. Na entrevista coletiva após o treino, o piloto acaba se envolvendo em uma discussão leve com a jornalista francesa Anne Giuntini, do L’Equipe, que o acusa de ter feito um mau trabalho ao atrapalhar uma volta rápida de Kimi Räikkönen. Hamilton admite ter errado e disse ter se desculpado com o finlandês. A Ferrari decide não entrar com um protesto após ter consultado Charlie Whiting, que disse não haver necessidade de investigar o ocorrido. No paddock, Ron Dennis faz sérias ameaças a Giuntini e a temperatura atinge a níveis alarmantes.
Domingo, 21 de outubro – Hamilton larga mal e cai para quarto lugar após a curva do Sol. Ao tentar recuperar a posição de Fernando Alonso, perde a freada e escapa da Descida do Lago. Na oitava volta, seu câmbio entra em ponto morto e ele perde muito tempo. Termina a corrida em sétimo lugar e perde o título por dois pontos (se empatasse com Räikkönen, perderia o título nos critérios de desempate).
Conclusão – O principal erro de Lewis Hamilton e da equipe McLaren foi o de não ter seguido a filosofia pregada pelo piloto após o GP do Japão, o de apenas “manter o carro na pista”. Ao que parece, ao invés de trabalhar apenas para assegurar o título, piloto e equipe tentaram de todas as formas “ganhar bonito”. A empáfia pode ser justificada pela pressão que a equipe sofria dentro e fora das pistas: a briga com Alonso e uma série de decisões controversas dos comissários de prova e dos tribunais ao longo do ano – quase sempre favorecendo Hamilton – podem ter criado neles um impulso de mostrar ao mundo a qualidade do piloto, como se ela tivesse sido colocada em dúvida. Em Interlagos, a reação desmedida diante da provocação da jornalista francesa mostra que tanto Hamilton como Ron Dennis estavam absolutamente nervosos.
Outro fator fundamental para esta atitude agressiva nas provas finais está nos treinos classificatórios. Em ambas as corridas, Hamilton largou à frente dos seus adversários na briga pelo campeonato. Provavelmente, piloto e equipe se deixaram seduzir pela posição favorável e foram para a corrida com uma abordagem mais arriscada, para coroar o título com uma vitória. Se deram mal: quem tudo quer, tudo perde.
Para terminar, o tão discutido erro de Hamilton. A câmera onboard do carro do inglês mostra que ele encostou em um botão e o carro perdeu rendimento no instante seguinte. Uma foto do volante do MP4-22, feita em Interlagos, indica que ele tocou realmente no botão que coloca o câmbio em ponto neutro. Mas o erro foi negado por piloto e equipe.
Na explicação de Martin Whitmarsh, “há duas possibilidades: ou as válvulas de controle do câmbio falharam pela presença de algum corpo estranho; ou sofreram a interferência de algum campo magnético”. A segunda hipótese, quase esotérica, é remota, já que nenhum outro carro sofreu o mesmo problema naquele ponto. A primeira pode ser explicada pelo erro de Hamilton na volta inicial: na escapada de pista, é bem possível que os sensores tenham sido afetados e falharam. De um jeito ou de outro, pela escapada ou pelo botão apertado na hora errada, teria sido um erro do piloto que custou o título.
No fundo, Hamilton parece ter absorvido bem o golpe: domingo à noite, foi para uma boate paulistana e comandou a pista de dança com músicas de Bob Marley e Marvin Gaye. Sabe que perdeu uma chance incrível, mas confia mais que ninguém em seu taco e tem a segurança do tempo correr a seu favor para que inscreva seu nome na história da Fórmula 1 algum dia. Tenho certeza que ele conseguirá.
Quem parece não ter assimilado o que aconteceu foi Ron Dennis. Ao contrário do que prega, sua trajetória indica uma completa inabilidade em lidar com o ego de grandes pilotos – egomaníacos por natureza. Um fenômeno que lembra muito a passagem fracassada de Vanderlei Luxemburgo na Seleção Brasileira. Quando o chefe quer impor o seu ego ao das estrelas do espetáculo, o resultado é quase sempre desastroso. Assim, o nome de Alonso deve se juntar a uma extensa lista de pilotos que saíram da McLaren extremamente insatisfeitos com o tratamento recebido lá: Niki Lauda, Alain Prost, David Coulthard, Alexander Wurz, Juan Pablo Montoya e Kimi Räikkönen – que teve domingo uma doce vingança (algo com que ele não se importa, como tudo).
Sua discussão com Anne Giuntini foi um espetáculo de truculência. Primeiro, ele ameaçou a pequena francesa fisicamente. “Você tem sorte de ser mulher, senão ia ver só. Todo mundo sabe que você está louca”. A jornalista retrucou, chamando-o de mentiroso. “Você vai ter problemas, pode esperar”, foi sua tréplica.
Conversei com Giuntini após o incidente. Calma, ela foi irônica ao comentar o episódio. “Este é o ‘mister politicamente correto’. Quando a mídia francesa caiu de pau em cima da McLaren na época de Prost e Senna, eu fui a única que defendeu a postura da equipe. Agora, na Era Schumacher, cansei de criticar certas atitudes da Ferrari e nunca sofri nenhum tipo de pressão. Só estou fazendo meu trabalho. O que ele fez foi ridículo”.
Não podemos deixar de levar em conta o nível de pressão a que Dennis foi submetido este ano. O escândalo de espionagem que manchou o nome de sua equipe e causou também um grande prejuízo financeiro o levou ao limite psicológico – o choro ao final do GP da Itália é a maior ilustração disto. Mas, passado o furacão da semana anterior ao GP da Bélgica, tudo o que a McLaren precisava era acalmar os ânimos e fazer sua lição de casa para garantir o único título que disputava. Ao invés de dar o exemplo, o chefão foi justamente quem mais colocou lenha na fogueira, com frases do tipo “estamos disputando contra Alonso” e ameaçando gente da imprensa.
Uma soberba que lhe custou um título ganho. Será que ele vai refletir e tirar lições sobre este ano neste período sem atividades na pista? Só se for humilde. Um psicólogo vai bem nessas horas, Ron.
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