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Sem vencedores 09.09.07
A Ferrari saiu de Monza derrotada. Correndo diante de sua torcida, foi humilhada pela superioridade dos carros da McLaren e viu suas chances de vencer algum dos campeonatos em jogo desaparecer completamente. Ou depender de uma decisão do Conselho Mundial da FIA. E foi um vexame esperado, tanto que a equipe cancelou seu tradicional jantar de gala, realizado todos os anos em Monza no sábado anterior ao GP da Itália.

Para completar, Felipe Massa foi vítima de mais uma falha mecânica do F2007 e Kimi Räikkönen, embora tenho feito uma corrida valente, sofreu uma ultrapassagem sensacional, executada por Lewis Hamilton na parte final da prova. O gesto dos mecânicos ao final da prova, de puro desalento, era o retrato fiel de uma derrota em casa. De goleada.





A McLaren saiu de Monza derrotada. Mesmo dominando as ações no fim-de-semana todo, conquistando uma dobradinha na corrida e ampliando sua liderança nos Mundiais de Pilotos e Construtores. A credibilidade da equipe está completamente em cheque após os novos rumores surgidos sobre o caso de espionagem. Ao que tudo indica, muito mais gente na equipe sabia sobre a existência de um dossiê com dados do carro da Ferrari, e há muito mais tempo do que se pensava.

Se estes dados foram realmente usados de forma a beneficiar a performance da equipe, é algo difícil de afirmar. Apenas um grupo técnico absolutamente independente seria capaz de fazer um estudo ligando os infinitos detalhes desta história complicadíssima. Mas este grupo não existe e a decisão que será tomada nesta próxima quinta-feira, isto todos sabemos, será puramente política. A situação da McLaren pôde ser medida pelas reuniões ocorridas no circuito ao longo do fim-de-semana. A mando de Bernie Ecclestone, Flavio Briatore, sentou-se com Ron Dennis e, depois, com Luca di Montezemolo e Norbert Haug juntos, para tentar costurar um compromisso. Até Bernie Ecclestone se reuniu com Montezemolo no motorhome da Ferrari, enquanto o normal é receber as pessoas em seu próprio. Há fortes indícios de que a equipe prateada esteja realmente quem culpa no cartório e que a Ferrari não queira ceder um centímetro na severidade da punição.





Mas a grande derrotada em Monza foi a própria Fórmula 1, que se vê mergulhada na maior crise da sua história recente. O ódio entre McLaren e Ferrari é antigo e conhecido – e Ron Dennis sempre gostou de destilá-lo ao máximo. Agora, a equipe italiana está vendo na confusão armada por Nigel Stepney e Mike Coughlan a oportunidade ideal para estraçalhar politicamente seu adversário mais incômodo.

O problema é que uma eventual eliminação da McLaren resultaria também em danificar a imagem da Mercedes-Benz, uma importante parceira da FIA e uma das montadoras mais poderosas dentre as presentes na categoria. Assim, Bernie Ecclestone se vê em um complicado jogo de xadrez: como salvar a marca alemã de uma forma a satisfazer o apetite por sangue da Ferrari. Há quem diga que, com base em provas contundentes, Montezemolo teria exigido de Ecclestone que o time rival fosse excluído deste e do próximo Mundial. Senão estaria disposto a tirar a própria Ferrari da disputa, o que seria, para a Fórmula 1, mais doloroso ainda.

Os problemas do chefe da Fórmula 1 não param por aí. Mesmo com uma disputa emocionante pelo título, com as vitórias bem distribuídas entre quatro pilotos, as corridas de 2007 têm sido um tanto enfadonhas. Além da falta de espetáculo, temos o escândalo envolvendo Ferrari e McLaren e os custos da brincadeira, cada vez mais altos e irracionais, tudo para tentar ganhar uns seis décimos de segundos entre os GPs da Austrália e do Brasil.

Assim, o interesse de grandes montadoras que têm ocupado um espaço intermediário vai se esgotando. O presidente da Renault Carlos Ghosn já teria extinto o projeto de Fórmula 1 quando assumiu o cargo, mas teve de segurar seu ímpeto já que a equipe estava num caminho vencedor. Agora, possui todos os argumentos do mundo para exercer o seu desejo. Executivos de Toyota e Honda também já questionam os gastos feitos diante do vexame que vêm exercendo nas pistas. Na verdade, uma só não sai porque a outra ainda está lá.

Fica a curiosidade de ver qual será o sabor da Pizza que os altos executivos de FIA, F-1, Ferrari e McLaren vão assar na quinta-feira para tentar sair desta crise de identidade. Transformada em um negócio milionário, onde política e marketing ficam muito acima do esporte, a categoria parece completamente perdida agora que vê dois de seus principais atores batendo cabeça.





Mas, não vamos esquecer, a Fórmula 1 já passou por crises iguais ou até mais profundas, como a sofrida em 1994, e sempre conseguiu se reerguer. De um jeito ou de outro, o show deve continuar. Mas tem de ser repensado e mudado, porque o atual, onde a política impera e o esporte tem sido soporífero (sim, mais uma corrida chatíssima), está duro de agüentar.

Um abraço e até a próxima!
Luis Fernando Ramos
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