Sessão Colunas
Escreva pra gente
Comente
13.11.08
Nossos leitores comentam o GP do Brasil
Nossos leitores comentam o GP da China
Opiniões e Dúvidas dos Leitores
18.12.08
Cartas - Segunda quinzena de Dezembro
Cartas - Primeira quinzena de Dezembro
Friends
05.12.2008
Ouro, prata, bronze
Biografia de uma ultrapassagem
Pergunte ao GPTotal
Julho
Um maluco, dois tristes
Sobre tamanhos e ultrapassagens
mais
17.12.08 - Ricardo Divila
Ingo, grande Ingo
Grande respeito!
01.12.08 - Ernesto Rodrigues
Lastro ou nitro?
Bate neles, Rubinho!
mais
 
12.03.06
Confira a classificação
12.03.06
Pilotos e Equipes
mais
Home » Colunas » Luis Fernando Ramos » 16.07.07
Aumente o tamanho das letras:
12 | 16 | 20
O Nuvolari brasileiro 16.07.07


Não houve festas, homenagens, matérias especiais na tevê ou nos jornais. O centenário de nascimento de Chico Landi, ocorrido no último sábado, passou praticamente em branco em um país de memória curta. Perdeu-se uma grande oportunidade de fazer reverência ao um dos melhores pilotos brasileiros de todos os tempos. Para mim, foi o melhor. Como Emerson, Piquet e Senna, Landi andou no mesmo ritmo dos grandes pilotos de sua época – mesmo com equipamento inferior, como na maioria dos casos.

Tazio Nuvolari (à frente) e Chico Landi no GP de Bari de 1948
Sua participação em corridas se estende por quase meio século – uma marca praticamente inacreditável para um período onde a segurança no automobilismo era absolutamente precária. Landi colecionou vitórias no Brasil e no Exterior e também foi atuante como chefe de equipe (da Simca do Brasil, nos anos 60) e construtor de carros de corrida (como o Fórmula Júnior brasileiro, feito com Toni Bianco). No auge de sua carreira, era tão popular quando Leônidas da Silva, o grande craque do futebol brasileiro da época. Ainda assim, nunca perdeu a simplicidade.

Simplicidade esta que o impediu de ter na Europa o mesmo sucesso que seu amigo Juan Manuel Fangio. O argentino se destacou para o mundo das corridas nos últimos anos da década de 40, quando os principais nomes europeus vinham a América do Sul no início do ano, para correr longe do frio inverno do hemisfério norte. Graças ao apoio do governo peronista, Fangio dispunha de bons carros para mostrar sua classe. Chico Landi, por sua vez, detestava política. E ficou uma fera quando um jornal carioca o chamou de “fascista” por correr com um carro da Ferrari na Itália. “Eles não tinham direito de me chamar de fascista. Eu sempre fui contra os governos fortes e nunca me meti em política. O Getúlio Vargas foi meu amigo, mas o governo nunca me deu nada. E eu nunca tive jeito de pedir. O Perón também gosta de mim. Mas nunca conversei de política com ele e nem com o Getúlio. Só sobre automobilismo”.

Bari 1949, com uma Ferrari pintada de verde e amarelo
Na pista, Landi se destacou pela velocidade natural e por seu refinado conhecimento mecânico. Numa época em que as corridas eram longas e o equipamento, frágil, o brasileiro sabia como poucos usar velocidade e suavidade nas doses certas. Isto o permitiu tornar-se o maior vencedor da história do circuito da Gávea. O traçado carioca, uma espécie de Nürburgring brasileiro, era um pesadelo para qualquer piloto, aliando trechos sinuosos com curvas de alta velocidade, além de pisos diferentes ao longo de sua extensão. Foram três vitórias, em 1941, 47 e 48.

A segunda foi a mais importante de todas. Em fevereiro de 1947, dois grandes nomes do automobilismo europeu desembarcaram em Buenos Aires para uma série de corridas na América do Sul: os italianos Luigi Villoresi, Achille Varzi, além dos bons Giácomo Palmieri, italiano, e o francês George Raph. Todos com carros de primeira linha.

Eles dominaram completamente as quatro primeiras provas disputadas no continente. Villoresi venceu duas vezes em Buenos Aires e Varzi ganhou em Rosario e em Interlagos. Landi foi bem nestas provas, ficando sempre entre os cinco primeiros e subindo ao pódio duas vezes. Seria ele o responsável por quebrar a série invicta dos europeus, em uma atuação inesquecível no VIII GP da Cidade do Rio de Janeiro.

Última vitória: 500Km de Porto Alegre de 1968, em dupla com Jan Balder
Um forte temporal caiu sobre o circuito da Gávea na manhã do dia 20 de abril de 1947. A organização da prova decidiu adiar a largada para que a Prefeitura limpasse a pista e as equipes improvisassem ranhuras transversais nos pneus, utilizando serrotes, para que os carros ganhassem mais aderência na chuva.

Mas a água continuou a cair e o paulista Landi, aliando sua boa técnica com uma malandragem tipicamente carioca, venceu a corrida de forma incrível. “Na primeira volta, Villoresi corria em primeiro e eu, em segundo. Ao passar pela Niemeyer, uma cachoeira despejava água sobre a pista. Passei sobre ela e meu motor começou a ratear. Mesmo assim continuei e, devido a um erro de Villoresi, assumi o primeiro lugar na descida da serra. Ao passar pelo boxe, sinalizei para prepararem uma vela para trocar no meu carro. Mas, na passagem seguinte, não parei. Todo mundo me mostrava a vela e a chave da vela. Pensei comigo mesmo: só paro se perder a liderança. O boxe dos italianos estava avisado de que eu iria parar, então eles diminuíram o ritmo da corrida por causa da chuva. E eu ia aproveitando. Na descida da serra, desligava o motor, que tinha compressor, para ver se conseguia secar a vela com a ventilação forçada. E secou, ao fim de algumas voltas. O motor voltou a funcionar redondo e venci sem maiores problemas. Lembro que, no fim da corrida, Villoresi veio falar comigo: ‘Só um milagre teria feito secar a vela do carro’. E apontava para o Cristo no Corcovado”.

Emerson e Senna concordam comigo: Landi foi o maior!
Chico Landi cruzou a linha de chegada quase seis minutos à frente do experiente corredor italiano e foi tirado do carro para ser carregado em triunfo nos ombros do público. Villoresi, impressionado com a performance do vencedor, resolveu convidá-lo para conhecer o ambiente das corridas européias. No ano seguinte, em 1948, venceu o Grande Prêmio de Bari, considerado por muitos o seu maior triunfo. Seu sucesso na Itália lhe rendeu o apelido de “Il Nuvolari brasiliano”, um elogio gigantesco na comparação com o maior nome do automobilismo daquele país em todos os tempos, Tazio Nuvolari (que, diga-se de passagem, também correu e foi derrotado por Landi naquela prova em Bari).

Landi faleceu em 7 de junho de 1989, aos 82 anos de idade, e sua família realizou seu desejo: seu corpo foi cremado e suas cinzas, espalhadas no circuito de Interlagos, onde correu desde a inauguração e palco de inúmeras vitórias suas. Meses depois da cerimônia, a pista sofreu uma grande reforma e o traçado original foi completamente desfigurado. De certa forma, Landi abriu e encerrou a história do “velho” Interlagos – um dos maiores circuitos da história do automobilismo mundial. Talvez esta tenha sido a sua grande homenagem.

Um abraço e até a próxima!
Luis Fernando Ramos
 Leia mais colunas de LuisFernando | Envie a coluna para um amigo | Voltar
anuncie | quem somos Apoio: Interactive Fan  |  Red Cube Tecnologia e Comunicação