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| » » » 20.06.07 |
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| Caracciola e Indianápolis |
20.06.07 |
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O programa oficial do Grande Prêmio dos Estados Unidos trouxe uma matéria de várias páginas sobre a história do piloto Rudolf Caracciola. Alguns torcedores devem ter se surpreendido. Afinal, o que a tem a ver o famoso piloto da Mercedes Benz da era pré-Fórmula 1 a ver com o famoso “Brickyard”? Bem, na verdade tudo, já que a maioria dos troféus que ele conquistou estão expostos no Museu de Indianápolis. E a história de como eles foram parar lá é muito interessante.
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| A entrada do Museu de Indianápolis, onde estão os troféus de Caracciola |
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Rudolf Caracciola nasceu em 30 de janeiro de 1901, na pequena cidade de Remagen, filho de um dono de hotel. Como o sobrenome sugere, as raízes de sua família residem na Itália, mais precisamente no Príncipe Bartolomeo Caracciolo, de Nápoles, que no século XVII conquistou um castelo na cidade de Koblenz. Seus descendentes se espalharam pela Alemanha e um deles acabou sofrendo uma corruptela no sobrenome, que foi ligeiramente trocado.
Aos 14 anos de idade, Rudolf decidiu que queria ser piloto de carros e abandonou a escola. O caminho percorrido atrás do sonho foi diferente do de inúmeros outros contemporâneos seus: ao invés de entrar no mundo das montadoras trabalhando como mecânico, Caracciola atuava como vendedor. Primeiro na Fafnir, em Achen, e depois na Daimler-Benz, na cidade de Dresden.
Não demorou muito para que lhe fosse permitido participar de corridas e, com as vitórias acontecendo, ele acabou virando piloto oficial da equipe de fábrica. Sua bem-sucedida carreira pilotando carros da Mercedes Benz é mais que documentada e conhecida. Seus contratempos com o regime nazista que assolou a Alemanha no final dos anos 20, nem tanto.
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| Hitler e o piloto: uma relação conturbada |
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Em 1929, após Hitler ter chegado ao poder, Caracciola trocou Munique pela Suíça. No mesmo ano, foi encarregado pela Mercedes de entregar pessoalmente um modelo especial para o “Führer”. Anos depois, revelou ter se sentido desconfortável com a ocasião. Em 1937, o braço industrial do governo nazista fomentou quebras de recordes de velocidade das fabricantes de seu país. O piloto não gostava da atividade, mas participava delas como empregado e piloto da Mercedes. Ficou ainda mais chateado depois que o amigo – e piloto da rival Auto Union – Bernd Rosemeyer morreu em uma dessas tentativas. Quando a II Guerra Mundial começou, Caracciola não perdeu tempo e se exilou em sua residência suíça. Em 1942, sua presença na Alemanha foi solicitada pelos nazistas, mas ele se recusou a comparecer. Hitler ordenou então que todos os seus bens no país fossem confiscados.
Terminado o conflito, Rudolf Caracciola recebeu um convite para participar das 500 Milhas de Indianápolis de 1946 – doze anos antes, ele esteve no país para observar o cenário do automobilismo norte-americano e havia feito contatos por lá. O piloto pegou o Mercedes de corrida que tinha na sua garagem na Suíça e foi até as ruínas da fábrica, em Stuttgart, procurar por peças de reposição. Na hora de embarcar em Hamburgo, porém, não recebeu autorização das autoridades inglesas – que estavam no comando – para embarcar o equipamento.
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| De brincadeira, o líder da Mercedes posa segurando um guarda-chuva da rival Auto Union. Imagine isso nos dias de hoje... |
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O piloto viajou para os Estados Unidos mesmo assim e ganhou a oportunidade de guiar um Thorne Engineering Special (cada nome que os americanos davam aos carros...). No dia dos primeiros treinos, Caracciola passou horas conversando com outro estreante convidado especialmente da Europa, o italiano Luigi Villoresi. Quando se preparava para entrar no carro, teve sua atenção chamada pelos oficiais da prova: o alemão vestia seu tradicional gorro de couro branco, mas o regulamento das 500 Milhas exigia o uso de capacetes de metal. O piloto protestou, mas vestiu o modelo que lhe foi arrumado de última hora.
Quando estava na pista, Caracciola acabou atingido na cabeça por um pássaro, perdeu o controle do carro e foi arremessado para fora do cockpit. Sofreu uma fratura na base do crânio e ficou dez dias em coma, mas se recuperou. Sem o capacete, não teria sobrevivido. Todos os custos de seu tratamento nos Estados Unidos, que consumiram um bom período de tempo, foram assumidos pelo dono de Indianápolis na época, Tony Hulman. O alemão morreu bem depois, em 1959, em decorrência de problemas no fígado. A viúva Alice Caracciola não teve dúvidas: em sinal de agradecimento, doou a Hulman a maior parte dos troféus conquistados pelo marido, hoje expostos aos que visitam o Hall da Fama do Indianapolis Motor Speedway.
O diálogo reproduzido abaixo é real e ocorreu no último domingo em Indianápolis. É a conversa de um taxista local e um colega jornalista europeu, na viagem entre o hotel e o circuito. Mostra muito bem como o povo de lá conhece e entende de Fórmula 1.
- Eu li no jornal, mas não entendi muito bem. A Fórmula 1 se trata de 21 brancos correndo atrás de um negro?
- Bem, é uma perspectiva diferente, mas não é de todo incorreta.
- Sei não, para mim isto parece mais coisa da Ku Klux Klan!
Um abraço e até a próxima!
Luis Fernando Ramos
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