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| » » » 18.04.07 |
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| O melhor estreante da história |
18.04.07 |
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O MELHOR ESTREANTE DA HISTÓRIA
Três pódios em três corridas. De fato, Lewis Hamilton aterrisou na Fórmula 1 como uma bomba, deixando bem claro que veio para fazer história. Confesso que fiquei com algumas reservas quanto ao enorme oba-oba que o inglesinho recebeu após sua estréia em Melbourne, mas minhas dúvidas se esvaíram ao observar como ele superou Fernando Alonso com larga vantagem no Bahrein. Acho o espanhol um talento excepcional, e quem lhe impôs um domínio como este é, no mínimo, tão excepcional quanto.
A marca de Hamilton é fantástica, mas para qualquer historiador que se preze, o melhor estreante na história da Fórmula 1 ainda é o italiano Giancarlo Baghetti. Aqui na Europa, o italiano foi muito lembrado nas últimas semanas por ter vencido o GP da França de 1961 em sua primeira participação no Mundial. E também por não ter obtido nenhum outro resultado de expressão depois disso.
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| O italiano lidera Gurney e Bonnier durante a prova |
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O que poucos se deram conta é que, antes daquela corrida no circuito de Reims, Baghetti vencera duas corridas de Fórmula 1 extra-campeonato. Ignorá-las é a mesma coisa que esquecer os duelos entre Tazio Nuvolari, Rudolf Caracciola e Bernd Rosemeyer nos anos 30. São disputas que não fazem partes das estatísticas da categoria mas, que diabos, são corridas de carros de Fórmula 1 (ou Grand Prix)! Assim, vale dizer que Baghetti ganhou suas três primeiras corridas na categoria – e num espaço de 69 dias! Isto, Hamilton não conseguiu fazer...
Foi o auge da carreira de um piloto que começara a correr apenas cinco anos antes, nos ralis italianos. Em pouco tempo, sua atenção se voltou para os carros de turismo e os da Fórmula Júnior, onde encontrou abrigo na Scuderia Sant Ambroeus. A equipe fazia parte da FISA (Federazione Italiana Scuderie Automobilistiche), uma associação que tinha como objetivo promover novos talentos para a Fórmula 1. Na prática, a intenção era obter uma vaga na Ferrari, numa época em que “il Commendatore” ainda dava importância aos pilotos de seu país.
Após uma boa temporada na categoria menor em 1960, recheada de bons resultados, Baghetti foi indicado pela FISA para guiar pela Ferrari logo no início da temporada seguinte. Pegou uma batata quente nas mãos. No Grande Prêmio de Siracusa (em 25 de abril), ele seria o responsável pela estréia da Ferrari Dino 156 – o “bico de tubarão”, com o qual a equipe disputaria o Mundial. Na verdade, o novato usou um motor com 65° de inclinação. Richie Ginther, piloto de fábrica, estava inscrito com um Dino com motor de 120°, mas a unidade não ficou pronta e ele ficou de fora da prova.
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| As Ferraris de Hill (16), Von Trips (20) e Ginther (18) pulam à frente na largada |
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Único representante da Ferrari e fazendo sua estréia na F-1, Baghetti não decepcionou. Fez o segundo melhor tempo do treino, apenas um décimo de segundo mais lento que o pole Dan Gurney (Porsche). Na prova, foi pegando o ritmo e assumiu a liderança já na sexta volta, cruzando a linha de chegada com cerca de cinco segundos de vantagem sobre Gurney.
Apesar da ausência dos pilotos oficiais da Ferrari, os grandes pilotos da época estiveram presentes em Siracusa: Jim Clark, Stirling Moss e Jack Brabham, entre outros, foram claramente superados por Baghetti e pela excelente Ferrari 156. Os pilotos das equipes inglesas tinham contra si também o cansaço, já que haviam disputado uma prova (também extra-campeonato) em Aintree apenas três dias antes. A Lotus, por exemplo, foi à Itália com dois carros, dois pilotos e... dois mecânicos!
O segundo triunfo de Baghetti ocorreu no dia 14 de maio no GP de Napoli – e foi bem mais fácil que o primeiro. No mesmo dia, o Mundial de F-1 abria a temporada oficial em Mônaco. Assim, a concorrência enfrentada pelo italiano não era das mais fortes: de destaque mesmo, apenas o veterano Roy Salvadori e o ainda novato Lorenzo Bandini. Sem dar bola para isso, Baghetti acelerou fundo e venceu com uma volta de vantagem sobre o segundo colocado.
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| O circuito de Reims, formado por estradas públicas francesas |
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Foi o que bastou para Enzo Ferrari se convencer do potencial do jovem italiano e abrigá-lo em sua equipe para o GP da França. Na verdade, foi a FISA que o inscreveu na prova, mas quem preparou seu carro foram efetivamente os mecânicos da Ferrari. O circuito de Reims indicava um domínio óbvio dos carros vermelhos. O traçado era montado nas estradas públicas francesas e consistia basicamente de três longas retas – um apetitoso playground para os possantes motores fabricados em Maranello humilharem a concorrência.
Aos adversários, restava buscar melhorar os tempos nos treinos usando os carros da Ferrari para pegar vácuo. Esperto, o chefe da equipe, Romolo Tavoni, logo instruiu seus pilotos a tirarem o pé quando isto ocorresse. Ainda nos treinos, Baghetti sofreu um enorme susto: no meio da reta Soisson, um carro de passeio de um distraído cidadão francês vinha na direção contrária (eram vias públicas e, pelo jeito, a polícia francesa fez um péssimo trabalho para bloqueá-las). A sorte é que o sujeito jogou o carro na grama, evitando um acidente que seria tão trágico quanto bizarro. Para se ter uma idéia do romantismo daquela Fórmula 1: no dia da prova, John Surtees saiu do seu hotel em Reims e foi até os boxes, nas cercanias da cidade, pilotando seu próprio Cooper T51, em meio ao trânsito local!
Como esperado, os pilotos oficiais da Ferrari dominaram o treino classificatório. Phil Hill achou uma volta perfeita e fez um tempo um segundo e meio mais veloz que Wolfgang Von Trips, levando o alemão a reclamar de seu carro. Numa clara provocação, Hill pediu para ir a pista com a máquina do companheiro. Baixou o tempo de Von Trips em cerca de um segundo e, quando parou nos boxes, ainda abusou dizendo que perdeu tempo porque tinha óleo na pista. Quem disse que não havia guerra psicológica nos duelos internos da F-1 de outrora?
O domingo, 2 de julho, apresentou um calor escaldante e a maioria dos pilotos se banhou em água gelada antes da largada, enquanto os mecânicos resfriavam os bancos de couro com esponjas. Hill, Trips e Richie Ginther, todos com a Ferrari Dino, escaparam na frente logo no início. Moss era o quarto colocado na primeira volta, mas teve problemas no freio e acabou perdendo muito tempo nos boxes. Baghetti vinha no pelotão seguinte, em uma briga incrível com nada menos que sete outros pilotos: Clark, Graham Hill, Gurney, Jo Bonnier, Bruce McLaren e Innes Ireland.
O passeio da Ferrari começou aos poucos a derreter no calor francês. Na 18ª volta, Von Trips chega aos boxes com o motor fumando: uma pedra atingira o radiador e motor não agüentou o problema. Na 38ª passagem, foi a vez do líder Phil Hill se distrair e rodar na saída da curva Thillois, sendo atingido em cheio pelo retardatário Moss, que vinha logo atrás. O motor da Ferrari morreu e, quando o norte-americano conseguiu voltar à prova, tinha caído para o 10º lugar e estava fora da briga.
A liderança foi assumida por Ginther, mas a Ferrari parecia viver um dia de cão. Na volta 40, ele entra nos boxes com a pressão do óleo nas alturas. Tavoni sinaliza para que ele volta à pista, mas o motor não agüenta e quebra antes mesmo da próxima curva. Faltam doze voltas para o fim e só resta o novato Giancarlo Baghetti para salvar a honra ferrarista. Ele está numa ferrenha batalha com os Porsches de Gurney e Bonnier, com constantes trocas de posições na guerra pelo vácuo – a cada volta, os três se alternam na liderança quando cruzam a linha de chegada. Na penúltima passagem, Bonnier enconsta nos boxes com problemas mecânicos. O público francês fica de pé nas arquibancadas quando os dois ponteiros contornam a última curva, com Gurney na frente. Mas Baghetti se mantém firme, pega o vácuo do Porsche e ganha um impulso extra, cruzando a linha de chegada com um mísero décimo de segundo de vantagem.
Era sua terceira vitória em três corridas na Fórmula 1 e o triunfo em Reims o colocou na história como o único piloto a ganhar sua estréia em provas válidas pelo Mundial (desconsiderando, justificadamente, o vencedor da corrida inaugural da categoria, Giuseppe Farina). Baghetti conseguiu de fato uma vaga na Ferrari em 1962, mas em pouco tempo perdeu seu lugar na equipe de monopostos e no coração de Enzo para o compatriota Lorenzo Bandini (que, de fato, era mesmo mais rápido e constante). Correu pela Ferrari em provas de turismo e fez mais um punhado de provas na F-1 por equipes privadas antes de encerrar a carreira e se dedicar ao fotojornalismo. Morreu de câncer aos 60 anos de idade em sua cidade natal, Milão.
Um abraço e até a próxima!
Luis Fernando Ramos
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