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Home » Colunas » Luis Fernando Ramos » 22.11.06
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Loroteiro 22.11.06
Parar cedo? Mas vencer é tão gostoso... (Foto Carsten Horst)
Na entrevista coletiva com os três primeiros colocados do Grande Prêmio do Brasil, Fernando Alonso discorreu sobre a alegria com o bicampeonato, os momentos ruins que vivera na temporada e afirmou que foi um prazer especial correr com Michael Schumacher e derrotá-lo em um confronto direto. Quando um jornalista perguntou se ele achava possível vencer sete títulos mundiais, o espanhol não titubeou. “Acho que não, pois não ficarei tanto tempo na Fórmula 1”. A seu lado, Felipe Massa jogou os braços para cima, fez uma cara de “até parece” e disparou: “O que é isso... então porque você não pára agora”, questionou. Alonso sorriu e murmurou: “seria um bom momento, mas eu vou continuar”.

Confesso que não entendo a postura do espanhol. Com 25 anos de idade e já estabelecido como piloto excepcional, sua pouca ambição é espantosa. Claro, temos de um lado a verdadeira ojeriza ao jornalismo de celebridades que não o deixa em paz nos momentos privados. Temos também o início de um desafio duríssimo, o de reerguer uma equipe McLaren que, embora disponha de estrutura e recursos, vive um momento confuso e perdeu em 2006 toda a espinha dorsal de seu grupo de técnicos. Mas não entendo o que faz um piloto na Fórmula 1, ainda mais um fenômeno como Alonso, se já está pensando na hora de parar. Cadê a chama eterna para buscar vitórias, o desejo de vencer sem parar, de superar os próprios limites? Não há um grande piloto que não tenha isso...

Fernando é um grande piloto. Um obcecado por vitórias, pelo sucesso na profissão que escolheu. E um tremendo de um loroteiro. Quando fez a escolha de trocar a Renault pela McLaren o fez por vários motivos, incluindo aí o financeiro. Mas, aposto, sua principal motivação foi a de correr na equipe que sempre sonhou, na McLaren “do Senna”, como ele diz, citando seu grande ídolo. Pois, quando superar o momento ruim atravessado pela equipe e começar a ganhar corridas e títulos, vai continuar correndo atrás de mais sucesso. E vai ainda ficar muitos anos na Fórmula 1.








Olhando essa entrevista com o piloto, feita no ano passado, dá para depreender isto. Alonso continua afirmando que jamais faria como Schumacher e permaneceria na F-1 até os 37 anos de idade. Mas depois afirma que, neste ano em que se encaminhava para seu primeiro título, estava se divertindo mais na Fórmula 1 do que nas categorias por que havia passado.

Schumacher é outro que não cumpriu a promessa (Foto Carsten Horst)
Porque é assim que funciona um esportista de ponta: a diversão é proporcional ao sucesso. E, por mais que digam o contrário, ele não se cansa. Vejamos, por exemplo, o caso da suíça Martina Hingis. Aos 22 anos, a tenista havia atingido tudo o que almejava na carreira e resolveu se aposentar. Foi curtir sua fortuna mas, três anos depois, o instinto falou mais alto e ela voltou à ativa. Mesmo Mika Hakkinen, bicampeão de F-1, parou de correr aos 33 anos, mas se rendeu à paixão pela velocidade e interrompeu o seu retiro.

Curioso, não é preciso voltar muito no tempo para encontrar um caso parecido de alguém que pensava em parar cedo e mudou radicalmente de idéia. No GP da Austrália de 1995, prova que encerrou a temporada daquele ano, Michael Schumacher comentou sobre seu futuro. “Não vou envelhecer na Fórmula 1. Me vejo correndo mais uns quatro, cinco anos no máximo”, anunciou o alemão. No fim, correu mais onze temporadas. Loroteiro!

Aliás, as semelhanças na trajetória dos dois impressionam. Ambos foram bicampeões mundiais aos 25 anos de idade e trocaram de equipe logo em seguida. Ambos, embora Alonso não sabia disso quando assinou com Ron Dennis, assumiram o desafio de reerguer equipes grandes que estavam em uma situação irregular. Por tudo isso, assim que Alonso e a McLaren se harmonizarem e passarem a ganhar provas a toque de caixa, acredito que o espanhol tem tudo para se aproximar muito dos recordes de Michael Schumacher. E, quanto mais se aproximar, seu espírito competitivo passará a falar mais alto e seu tempo na Fórmula 1 será estendido. Quem disse que 2006 marcou o fim dos duelos entre Alonso e Schumacher?

Um abraço e até a próxima!
Luis Fernando Ramos



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