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| » » » 08.11.06 |
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| O melhor e pior de 2006 |
08.11.06 |
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O MELHOR
GP da Hungria - Quando deixei meu hotel na cidadezinha de Göd no domingo de manhã, esfreguei meus olhos duas vezes para ter certeza de que não estava sonhando. Sim, era dia de GP da Hungria e - oh não - estava chovendo. Há anos que virou folclore entre jornalistas e fãs de F-1 o fato de nunca ter chovido nesta ocasião e da corrida ser terminalmente chata. Dos olhos, a esfregação passou para as palmas das mãos. "Finalmente, hoje vai ser um corridão", exultei.
Cheguei animado na sala de imprensa de Hungaroring, deixei minha mochila em meu lugar e fui falar com o colega Fabio Seixas, da Folha de S. Paulo e da Band FM. Cravei: "se está chovendo no GP da Hungria é porque hoje que o Button ganha uma corrida". Foi mais brincadeira que palpite. No fundo, estava mesmo pensando mais na possibilidade de uma vitória brasileira. Felipe Massa e Rubens Barrichello largariam da 2ª e 3ª posições e apareciam com ótimas chances.
A chuva virou temporal pela manhã e as corridas da GP2 e da Porsche Supercup foram um caos total. A expectativa de uma prova movimentada só aumentou. Na hora do almoço, o clima de expectativa do paddock era enorme. Afinal, além da pista molhada, teríamos os dois candidatos ao título largando de posições intermediárias, após terem feito lambança durante o fim-de-semana. A tensão só era quebrada pela presença no local do astro pornô Rocco Sifredi, amigo de Jarno Trulli. Ver os mecânicos da Ferrari e de outras equipes fazendo fila para tirar fotos ao lado dele - e não com sua bela esposa, também uma estrela do ramo - rendeu boas risadas.
Quando a largada foi dada, começou uma sucessão de "ooohhs" e "aaahs" pela sala de imprensa que durou praticamente a corrida toda. Aliás, vocês não têm idéia como é divertido isso. Nas corridas chatas, o comportamento do pessoal fica dentro do aceitável. Mas quando a coisa fica quente, a maioria deixa a objetividade de lado e fica torcendo descaradamente para seus favoritos. Não tem jeito, quem está lá é, antes de tudo, um fanático por corridas.
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| Schumacher, à direita, jantando a turma na chuva |
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E os urros e palmas pipocaram logo na primeira volta, quando Schumacher e Alonso provaram que estão um degrau acima dos outros 20 do grid. Corro o risco de passar por herege, mas afirmo aqui que a primeira volta dos dois deixa o que aconteceu em Donington-93 no chinelo. O alemão fez uma largada excepcional, tomando a linha de fora e fazendo a primeira curva com um controle do carro surreal, deixando ao todo sete rivais para trás.
Fernando Alonso foi ainda mais espetacular. O espanhol também largou por fora e ganhou algumas posições na primeira curva, mas saiu dela como recheio de um sanduíche de BMWs e Red Bulls. Ainda assim, ao longo da volta, foi deixando todos eles para trás e ainda jantou Felipe Massa na última curva em uma manobra arriscada, mas decisiva. Foram nove posições ganhas.
Alonso seguiu seu show, deixando todos na pista com pinta de crianças a bordo de triciclos. Seu ritmo era absurdamente mais rápido que o resto: na quarta volta, ultrapassara Schumacher - por fora - para assumir o quarto colocar. Vinte voltas depois, já líder, estava colocando uma volta no alemão. Em que pese a superioridade dos Michelins sobre os Bridgestone naquelas condições iniciais, o campeão estava andando forte o tempo todo, labuzando-se sobre a cautela e/ou o medo dos rivais naquele piso com pouquíssima aderência.
O período de Safety Car neutralizou a vantagem do espanhol, mas sua vitória parecia mais do que certa, até o episódio da porca mal apertada tirá-lo da corrida. Eis que - olha só - quem estava lá para assumir a liderança era mesmo Jenson Button. Como Alonso e Schumacher, o inglês também largou do meio do pelotão e fez uma prova excepcional. Sua ultrapassagem sobre Schumacher no final da reta, com o piso ainda molhado, provou que o inglês sabe muito bem explorar ao máximo o limite do carro, algo difícil de definir pelas condições da pista na ocasião.
A fase final da prova teve ainda Schumacher, praticamente sem pneus, tentando se manter a frente de Pedro de la Rosa e Nick Heidfeld. Embora eu tenha achado sua atitude estúpida pela situação do campeonato, foi empolgante vê-lo lutar até o final uma luta praticamente perdida pela diferença de desempenho dos conjuntos. As brigas com o espanhol da McLaren na reta dos boxes, volta a volta, levantavam a sala de imprensa.
Depois da corrida e da coletiva, desci até o motorhome da Honda para colher os depoimentos de Rubens Barrichello e Gil de Ferran. Alguém me ofereceu um copo de champanhe e, enquanto assistia o abraço emocionado de John Button no filho que acabara de vencer pela primeira vez na F-1, pude finalmente curtir o privilégio de ter assistido de perto uma das grandes corridas na história da categoria, com dois gênios das pistas - e os dois protagonistas da temporada - proporcionando um show de primeiríssima linha. Depois, foi só recordar com o amigo Fabio meu palpite certeiro da manhã. Acho que vou levá-los mais a sério a partir de agora.
O PIOR
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| Alonso volta pro paddock após um fim-de-semana de injustiças |
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Punição de Alonso em Monza - O treino de classificação tinha terminado e Felipe Massa atenderia aos jornalistas em poucos minutos. A Fórmula 1 atual é assim, tudo com hora marcada - um saco! Quando cheguei ao motorhome da Ferrari, vi o brasileiro caminhando rápido na direção oposta, acompanhado de dois membros da equipe. Que diabos, ele não ia nos atender agora. "Para falar com ele, só mais tarde", avisou a solícita assessora de imprensa da equipe. Nenhum motivo foi dado.
Fui atrás de outras pessoas e subi para fazer minhas coisas. Descartei conversar com Massa por absoluta falta de tempo. Quando a noite caiu, já me preparava para ir ao jantar de gala oferecido por um patrocinador da Ferrari quando a notícia chegou: Alonso fora punido por atrapalhar o brasileiro no final do treino classificatório. O quê??? Me lembrava muito bem da volta de Massa. Com os olhos fixos no monitor, vi como ele vinha em um bom ritmo, poderia até fazer a pole-position, mas encerrou o giro conquistando apenas o quarto lugar. Nem lembrava que Alonso estava na cena.
No domingo de manhã, o clima de revolta era geral, em todos os setores do paddock. O anúncio sobre o futuro de Schumacher - o grande assunto do fim-de-semana - foi completamente esquecido quando a Renault distribuiu um comunicado na sala de imprensa informando que haveria uma coletiva no motorhome da equipe às 11 horas. A coisa ia pegar fogo.
Às 10h30, eu já estava entulhado no meio de uma multidão de jornalistas na porta do caminhão azul e amarelo. Flavio Briatore, visivelmente nervoso, não parava quieto. Ora conversava com Bernie Ecclestone, ora com a assessora da equipe. Só sossegou quando Fernando Alonso apareceu. O espanhol entrou no motorhome e, pelo vidro, pude ver que o chefão fez uma espécie de briefing ao piloto sobre o conteúdo da coletiva.
Quando pudemos entrar, Briatore explicou que eles queriam apenas mostrar o vídeo da câmera onboard do carro de Massa na volta em questão e reforçou que eles discordavam veementemente da punição. "Não dá nem pra distinguir se o carro da frente é o do Fernando ou uma Minardi", brincou o italiano. Alonso não estava afim de estrepulias. Fechou a cara e disparou. "Amo os torcedores e amo pilotar. Mas, para mim, a Fórmula 1 não é mais um esporte", decretou.
O presidente da FIA e advogado Max Mosley estava lá pessoalmente para dar explicações. Como de se esperar, o discurso era baseado na lei. "Não entendo o porquê de tanta polêmica. Um piloto se sentiu prejudicado, apresentou uma série de dados de telemetria aos comissários e a reclamação foi julgada procedente. Ponto final." É um argumento válido, mas o dirigente só esqueceu de um detalhe: uma série de decisões em corridas anteriores deu a impressão de que havia certo interesse em prejudicar Alonso para que a disputa pelo título fosse, artificialmente, estendida até o final da temporada. Como em 1994, quando Schumacher tomou, em setembro, um gancho de duas corridas por uma infração feita dois meses antes, o que ajudou na recuperação de Damon Hill e levou a disputa até o final.
O legal é que Alonso tratou logo de diminuir o gosto amargo que sua punição deixou na boca de quem gosta da Fórmula 1. Sua performance em Monza foi quase tão espetacular quanto na Hungria. A quebra de motor, no final, acabou compensada quando Schumacher teve o mesmo problema na China, praticamente definindo a contenda a favor do espanhol, que merecia mesmo este bicampeonato.
Mas, vá lá, vamos dar um pouco de crédito ao velho Max e olhar para tudo o que aconteceu sobre o prisma do jurismo. Se um piloto reclamar que foi prejudicado e os responsáveis acharem o protesto procedente, há punição. Está escrito no regulamento, não importa se fulano é da Ferrari, da Renault ou da Super Aguri. Aqui, faço minhas as palavras do jornalista inglês Tony Dodgins. "Se é esta a lei, então a lei é uma merda". Ponto final.
Um abraço e até a próxima,
Luis Fernando Ramos
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