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| » » » 25.10.06 |
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| Como vencer sendo o segundo |
25.10.06 |
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No início desta temporada, a teve alemã RTL convidou a ex-nadadora Franziska von Almsick para realizar entrevistas na Fórmula 1, apostando no apelo que a bela e popular atleta possui em seu país. No Bahrein, "Franzi" foi colocada logo de cara para entrevistar Michael Schumacher. Foi constrangedor: sem entender do babado, a mocinha abusou de perguntas óbvias e de sua desinformação.
Uma delas foi o que ele esperava de seu novo companheiro na Ferrari, "um tal de... Felippo-não-sei-o-quê". Schumacher engoliu o despreparo da dublê de repórter, sendo educado e incisivo. "O nome dele é Felipe Massa e ele é uma ótima pessoa, além de ser rápido prá caramba. Tenho certeza que ele vai andar na minha frente algumas vezes neste ano e que tem um futuro grandioso pela frente".
Olhando em retrospecto, fica claro que o brasileiro já havia conquistado o apoio do companheiro de equipe antes mesmo da primeira largada da temporada, algo que seu antecessor não conseguira fazer durante seis anos. A diferença entre Rubens Barrichello e Massa é que o primeiro desempenhou o papel de auxiliar de Schumacher sem desejar, enquanto o segundo aceitou a situação com naturalidade, sem causar o menor tipo de problema. Enquanto um inventou um utópico piloto "1B", o outro repetiu inúmeras vezes ao longo do ano que estava disposto a ceder posição sempre que fosse necessário.
Ao assumir o seu lugar, o inteligente Massa deixou claro que estava ali para ajudar Schumacher, não para competir com ele - algo que Eddie Irvine e Barrichello davam a entender de vez em quando. Assim, Felipe pôde aprender os segredos do heptacampeão de um lugar privilegiado, como um aliado, um amigo. Isso enterneceu Schumacher, no fundo, um cara de bom coração.
Aí veio o mês de junho e a Ferrari apertou a pressão sobre o alemão para que seu futuro fosse decidido - e ele optou por deixar as pistas. Pessoalmente, não acho que o fato de "atrapalhar a carreira de Felipe" tenha pesado em sua decisão, como ele declarou em Monza. O fator determinante foi mesmo saber o trabalho que daria ter na mesma equipe um jovem veloz, determinado e claramente pouco cooperativo como Kimi Räikkönen. Não me entendam mal: Michael não tem medo de Kimi e, intimamente, estava até atraído pelo desafio de enfrentá-lo na mesma equipe. Mas para bater um cara desses é preciso ainda mais mobilização e motivação, e suas baterias estavam acabando. Foi mais ou menos pelo mesmo motivo que Nelson Piquet deixou a vitoriosa Williams ao final de 1987, para correr na Lotus sem a incômoda presença de Nigel Mansell.
A decisão foi tomada antes do GP do Canadá, um momento em que o título a favor de Fernando Alonso parecia decidido. Mas eis que o conjunto Ferrari-Bridgestone começou a dar sinais de reação e, no GP da Alemanha, Massa mostrou que estava mesmo disposto a abrir mão de qualquer meta pessoal para ajudar seu companheiro a ser campeão: na saída de um pit-stop, encontrou Schumacher a seu lado, mas abdicou claramente de disputar uma freada que poderia lhe dar a vitória. "Seria idiota tentar alguma coisa naquele momento", falou depois da corrida. O alemão reconheceu o feito na hora e elogiou Massa espontaneamente na entrevista da tevê mostrada no mundo todo. "O clima e a motivação na equipe é fantástico e há muito a agradecer a Felipe, que está fazendo um ótimo trabalho. Estou muito feliz de tê-lo como companheiro", disse, sorrindo e dando um tapinha nas costas do brasileiro.
Desde então, os elogios cresceram na mesma medida da amizade dos dois. Tanto que, antes do GP do Brasil, Schumacher disse a Felipe que ajudaria o brasileiro a vencer a prova caso Alonso estivesse na pista até o final. O abraço sincero e emocionado do alemão no parque fechado mostra que, em meio à tristeza de deixar as pistas, ele estava realmente feliz pelo sucesso do amigo. Massa deve contar com sua torcida no ano que vem.
Seu triunfo causou inevitáveis comparações com Rubens Barrichello. Para mim, ilustram principalmente uma questão de atitude: a de Felipe sempre positiva; a de Rubens, variando entre discretamente positiva e abertamente negativa. Claro que a sorte entrou em cena e ajudou a Massa a vencer em Interlagos em sua primeira chance. Mas foi sua postura que lhe garantiu se tornar aquilo que Barrichello, até há pouco tempo, almejava ser: "Felipe é o futuro da Ferrari", sentenciou Ross Brawn.
O brasileiro da Honda teve no domingo um daqueles dias duros no trabalho, em que tudo deu errado: a vitória que ele sempre sonhou sendo conquistada pelo amigo novato, o companheiro sublinhando seu desempenho mediano, o desafeto deixando as pistas após dar show. Acontece, eu também tive dias assim na minha vida profissional, todo mundo tem. Mas os traços de rancor que Barrichello despejou após a corrida poderiam ter sido evitados. Por que perder tempo com coisas miúdas e passadas como a Ferrari, se o seu presente - e futuro - é a Honda, a equipe que demonstrou o maior potencial de crescimento no final da temporada. Teria sido melhor sublinhar este fato ao invés de lamentar que "quando eu corria na Ferrari, o Michael nunca tinha problemas aqui" ou que "Felipe ocupa um espaço que eu cavei". Seria uma atitude positiva, algo que faz maravilhas na vida de Felipe e que Rubens poderia experimentar de vez em quando.
Um abraço e até a próxima,
Luis Fernando Ramos
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