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Porque Alonso merece o título 11.10.06
Ao contrário do Michael Schumacher diz que pensa, não acredito que o título de 2006 já esteja decidido a favor Alonso - por mais que o cenário lhe seja extremamente favorável. Como o alemão bem apontou, o espanhol poderá passear em Interlagos para buscar o único ponto que lhe falta para decidir a contenda: o motor Renault roncará com o mínimo de rotações e o piloto tomará todo o cuidado do mundo quando estiver disputando posições. Ainda assim, fica impossível de imaginar que, além das duplas de Ferrari, McLaren e talvez da Honda, algum outro piloto possa se intrometer em seu passeio dominical.

"Pode ir deixando no congelador!"
Se uma quebra mecânica é improvável, o clima paulistano resta como o único fator que pode decidir o título a favor de Schumacher. O GP do Brasil tem um histórico de corridas disputadas em condições variáveis, como em 1993 e em 2003. Isto torna difícil para um piloto "ler" a corrida e Alonso pode se enervar a ponto de cometer um erro. Vale lembrar que, em 2003, Schumacher chegou à prova final também precisando de um único ponto e quase perdeu o título para Kimi Räikkönen - uma prova que "correr devagar" é um pesadelo na vida de qualquer piloto.

De qualquer forma, se o Sobrenatural de Almeida não der as caras em Interlagos, o espanhol vai triunfar em um campeonato que ele - e só ele - merecia vencer. Não pelas decisões controversas da FIA contra Alonso (e a Renault) - meras tentativas de abalar psicologicamente uma mente inabalável. Afinal, a perda de performance do R26 após o amortecedor de massa ser banido foi marginal, algo reconhecido pelos próprios engenheiros da equipe.

O grande mérito de Alonso e, ao mesmo tempo, o demérito de Michael Schumacher está nos erros cometidos ao longo da temporada. Nas 17 etapas já disputadas, o espanhol cometeu, a rigor, um único erro: um brake-test absurdo e desnecessário no holandês Robert Doornbos durante os treinos livres do GP da Hungria, o que lhe custou uma justa punição (a única justa) dos comissários da FIA. No mais, o piloto sempre levou seu carro ao máximo ou além de suas possibilidades em todas as corridas. Seus dois abandonos se deram por motivos alheios a si - uma porca mal-apertada em Budapeste e um motor estourado em Monza.

O mesmo não se pode dizer de Michael Schumacher. É preciso reconhecer que sua temporada foi tão excepcional quanto a de Alonso. Mas o alemão não merece o título por ter cometido muito mais erros que seu adversário. É um mero exercício matemático, vamos a ele:

Schumacher bateu na Austrália...
- GP da Austrália (4 pontos perdidos): Schumacher fazia uma boa corrida em condições totalmente desfavoráveis aos pneus Bridgestone. Estava em sexto lugar e perseguia de perto o quinto colocado, Jenson Button, quando na 33ª volta forçou demais na última curva do circuito, beliscou a zebra e foi parar no muro. Certamente teria conquistado a posição, seja após fazer seu segundo pit-stop ou no final da prova, quando o motor Honda do inglês foi para os ares.



...teve de se explicar em Mônaco...
- GP de Mônaco (de 6 a 2 pontos perdidos): o alemão errou ao final de sua última volta rápida e estacionou seu carro na curva Rascasse, arruinando as voltas de todos os pilotos que vinham atrás. Pareceu ser e a FIA julgou como intencional. A entidade desconsiderou todas as voltas de Schumacher na sessão e o jogou para o último lugar no grid. Se tivesse largado lá na frente, seria o provável vencedor ou, na pior das hipóteses, o terceiro colocado. Com um carro sobrando, o alemão fez uma corrida de recuperação e marcou a melhor volta mesmo com uma estratégia de uma única parada, terminando a prova em quinto lugar.

...exagerou na Hungria...
- GP da Hungria (de 5 a 4 pontos perdidos): Schumacher estava em segundo lugar quando, a oito voltas do final, passou a ser pressionado por Pedro de la Rosa. O espanhol estava com pneus para pista seca e era muito mais rápido, enquanto o alemão guiava com pneus intermediários em estado terminal. Ainda assim, o piloto da Ferrari resolveu brigar pela posição e, três voltas depois, foi ultrapassado. O tempo perdido na disputa permitiu a aproximação de Nick Heidfeld. Schumacher quis disputar de novo, os dois se tocaram e o alemão teve de abandonar com problemas na suspensão. Acabou em oitavo na classificação final, mas seria tranqüilamente o terceiro ou quarto colocado se abrisse mão de tentar vencer aquelas batalhas perdidas.

...e deixou a vitória escapar na Turquia.
- GP da Turquia (6 pontos perdidos): Felipe Massa superou Schumacher no treino classificatório, mas as duas Ferraris dominavam a parte inicial da corrida quando o Safety-Car foi acionado na 13ª volta porque o carro de Vitantonio Liuzzi ficou parado em posição perigosa. O alemão teve de "fazer fila" nos Boxes atrás do companheiro e perdeu o segundo lugar para Fernando Alonso. Até aí, foi azar. Mas Schumacher vinha andando bem e tinha tudo para recuperar a posição durante a segunda rodada de pit-stops quando errou na curva 8 e saiu da pista. Os segundos perdidos ali significaram que Alonso se manteve à sua frente. Caso contrário o alemão venceria a prova, já que Massa admitiu que cederia o primeiro lugar se fosse necessário. No fim, o erro significou que, ao invés de ganhar quatro pontos em cima do rival (10 a 6), Schumacher perdeu dois (6 a 8).

No saldo final, o piloto da Ferrari cometeu quatro erros decisivos no campeonato, dois de julgamento e dois de pilotagem. Claro que isto é aceitável, os caras são humanos, e não diminui em nada a grandeza de sua carreira ou mesmo de sua pilotagem. Mas, em uma disputada tão apertada em 2006, ganha no fim quem erra menos. E quem errou menos foi Fernando Alonso. Pois a matemática mostra: tivesse feito uma participação impecável em todas as corridas, o alemão chegaria em Interlagos com 21 pontos a mais do que tem - o que já lhe garantiria o octacampeonato - ou, no pior dos cenários, com 16 pontos a mais. Seria uma ótima vantagem para a prova decisiva.

Estes fatos explicam muito bem a reação de Schumacher após a quebra de seu motor em Suzuka, cumprimentando a todos os mecânicos e engenheiros da equipe e deixando claro que não compartilhava o menor sentimento negativo em relação ao revés mecânico sofrido. No fundo, ele sabia que a maior parte dos pontos desperdiçados podem ser creditadas a si mesmo. Culpar a equipe seria injusto e absurdo.

Ou nem tanto. Em 2005, o pior ano da história da recente da Ferrari, o alemão não cometeu tantos erros assim. A verdade é que Schumacher iniciou a temporada sabendo que Kimi Räikkönen estaria na equipe e 2007 e o seu pedido de poder decidir sobre o futuro só após a temporada não foi aceito pelos homens de Maranello. Obviamente, Schumacher queria conferir se era possível ser campeão, uma condição pessoal decisiva para que pendurasse o capacete. Mas, pressionado por Alonso nas pistas e pela direção da Ferrari fora dele, acabou não tendo a concentração necessária em alguns momentos-chave da temporada.

Agradecendo as palmas pelo show impecável
No fundo, perder o título para Alonso e para seus próprios erros - repetindo, caso algo de anormal não aconteça em Interlagos - não é nada para Schumacher se envergonhar. O piloto mais completo de todos os tempos está deixando a cena com um sucessor digno de sua grandeza. Se, no contato com a imprensa fora das pistas, o espanhol é até mais difícil e chato que Schumacher, dentro delas é tão magnífico quanto. Uma prova disso está em sua performance em Suzuka, quando superou condições adversas e cavou com suas próprias forças a chance de estar em segundo lugar para aproveitar a quebra de Schumacher. Ao olhar para trás, o mundo vai se lembrar deste vice-campeonato do alemão em seu ano de despedida através das várias imagens de duelos roda-a-roda que os dois postulantes ao título proporcionaram em diversas ocasiões - como no Bahrein, em Ìmola e na Turquia. Isto é automobilismo na sua essência mais pura. Espero que o mesmo ocorra também em Interlagos.

Um abraço e até a próxima!
Luis Fernando Ramos

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